Instituto de Pesquisas Psíquicas Imagick
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Plautus Lentulos,
O Homem Que Conheceu o Messias
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Por Arsenio Hypolito Junior
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Podia-se dizer que o mundo girava ao redor e ao comando de Plautus Lentulus.
Ali estava um homem tremendamente poderoso ao seu tempo. 

Aos quarenta anos, era senador patrício, lider entre os seus e amigo pessoal de Tibério, o segundo imperador de Roma. 

Nascido no seio de família patrícia importante, gabava-se de nunca haver obedecido a uma ordem se quer. Mandava e desmandava ao seu bel prazer. Nunca se sabia muito bem o que se esperar dele. Por vezes era impulsivo e de um só golpe fazia rolar uma cabeça. Em outras ocasiões, era frio, matreiro e calculista. Ninguém ousava questionar seus atos, nem mesmo seus pares de senado.

Suas terras eram vastíssimas, seus escravos contavam-se às centenas, seus tesouros eram tão fabulosos como aqueles que ouvíamos nos contos de fadas em nossa infância.

Plautus era um homem arrogante, prepotente e temido, muito temido. Sua voz fazia tremer os corredores dos palácios, as alcovas das donzelas, as tropas aquarteladas, as masmorras dos gladiadores, os campos de batalha, o covil dos inimigos.
 

Sob sua ordem centenas de homens foram crucificados, milhares banidos de Roma, fortunas foram pilhadas e cidades devastadas.

Nunca voltava atrás se não tivesse um interesse pessoal envolvido, e foi isto que terminou por o coloca-lo em choque com a prestigiosa família Pilatus. Aproveitando a paranóia que Tibério desenvolvia por atentados contra sua pessoa, denunciou Gaius, chefe deste clã, de alta traição contra o imperador e mesmo depois que ficou clara a sua inocência, Plautus, por pura teimosia, recusou retirar a acusação, sendo esta uma das poucas vezes em que perdeu uma votação no senado.  Na verdade sua intenção inicial era apossar-se de certas terras da família inimiga localizadas na alta Gália.

A derrota abalou a sua imagem de poder. Ele precisava de algo para recuperar o seu prestígio. 
 
 

Você sabe que os deuses e os demônios pactuam com certas pessoas.

Não é que logo chega aos seus ouvidos a terrível notícia do crescimento do número de pessoas atacadas por lepra nas cercanias de Roma. Não perdeu tempo, da tribuna do senado, num discurso inflamado, fez cumprir à risca a velha lei do degredo para o vale dos leprosos, fosse que fosse o seu portador. 

Mas não sossegou, com algumas artimanhas conseguiu de Tiberius, que se encontrava refugiado na ilha de Capri, carta branca para poder agir livremente, ao seu gosto, com seus métodos. “A salvação de Roma está em suas mãos, Lentulus, assuma o comando” – disse-lhe o imperador.

 A partir daí foi um Deus nos acuda em todo o império. Mal identificados os doentes eram imediatamente banidos de suas famílias, perdiam todos os seus direitos, as suas posses e a sua dignidade. Eram impiedosamente separados para morrer num misto de abandono, sofrimento e penúria. Foi assim que, diariamente, podia-se ver as longas filas, verdadeiras procissões de dor, que partiam dos portões dourados das cidades, rumo aos sombrios e infectos campos de desterro. 
 

Plautus mantinha-se inflexível. Como uma pedra de gelo não dava ouvidos a mães que rogavam por seus filhos, nem a maridos que pediam pelas esposas - nada o comovia. De suas mãos duras como às de um grosseiro carrasco partiam ordens e mais ordens de degredo, numa rotina sem fim. 

Com esta força o poder de sua influência atingiu às nuvens, fazendo com que sua fortuna aumentasse, enquanto seus adversários fugiam de seus olhos - temerosos.
 
 
 

Chegou a festa anual do Deus Apolo. Seria um momento de grande glória para Lentulus, pois ele desfilaria no lugar de máxima honra, ao lado do sumo sacerdote de Apolo, bem atrás do próprio imperador. 

Preparou-se para o evento como uma noiva apaixonada enfeita-se para o seu casamento. 
 

Porém, quando estava vestindo o traje especial que mandara confeccionar para a ocasião, notou uma estranha manchinha clara em seu braço. Não deu muita atenção – talvez fosse uma batida que dera sem perceber. Terminou de se aprontar e partiu sorridente para o sucesso que o esperava. Só que teve o cuidado de manter o seu braço sempre coberto durante todas as festividades.

Com o passar do tempo aquela mancha incômoda cresceu e pior, multiplicou-se. Novas nódoas teimavam em surgir, eram pequenas, esparsas, mas bastavam para deixá-lo bem assustado. Por precaução, não foi mais às Termas, evitava os amigos, quase não saia de casa e quando o fazia trazia o corpo totalmente coberto. 
Achou melhor sair da cidade. Os inimigos poderiam inventar coisas, levantar falsas suspeitas a respeito de sua saúde. 

“Isto é passageiro, algo que comi e preciso purgar” – repetia ele para si mesmo – “Uma breve viagem me fará bem”.

Como acabara de receber do Imperador, por serviços prestados ao império, uma vasta extensão de terra na Palestina e como a região estava conturbada por sérias revoltas populares, resolveu ir até lá, cuidar dos seus interesses.

A longa e exaustiva viagem que teve que enfrentar deixou-o mais debilitado. Ajudada pelo calor, pelo ar seco e pelas péssimas condições de higiene a doença progrediu. Não dava mais para esconder. Teve que admitir – estava contaminado pela lepra. 

Consultou os médicos mais respeitados na região. Lá vieram banhos de lama, chás, dietas, fumaças... Nada fazia o menor efeito.

“Pelo menos estamos longe de Roma” – pensava ele.

Estava acomodado, em Jerusalém, numa grande propriedade situada próxima aos muros da cidade. Atrás da casa havia um grande quintal com muitas árvores que produziam gostosas sombras. No centro mandou colocar um grande chafariz. Costumava passar as tardes ali, repousando. A paz e o frescor do lugar lhe devam alento.
 
 

Porém, as notícias que chegavam à cidade eram preocupantes. A Palestina era um barril de pólvora pronto para estourar. O povo falava no advento de um Messias libertador que viria do céu num carro de fogo e expulsaria os romanos daquelas terras sagradas. Os zelotes, fariseus radicais, estavam hiper-ativos, atacavam traiçoeiramente pequenas tropas romanas, invadiam casas, agrediam os cobradores de impostos, matavam quem considerassem traidores da causa.

Procurando dar um fim a esta situação e restabelecer a ordem romana na Palestina e na Judéia, Roma envia para lá um governador de pulso firme e coração gelado – Pontius Pilatus, filho de Gaius, o grande desafeto de Plautus.

Estrategicamente, o novo governador chegou sem alarde, mas, com muitos homens bem equipados.

Por esse tempo a notícia da doença de Lentulus já havia se esparramado pelas ruas de Jerusalém. Mas quem ali ousaria afrontar Plautus?

Quando ele soube da presença de Pontius Pilatus na cidade já era tarde demais para fugir. Ficou ali, sob a sombra das tamareiras, esperando pelo seu destino. O mundo girara mais rápido do que ele pudera caminhar, era o inimigo quem agora estava por cima.

Não demorou muito, vieram os soldados. E ali mesmo, no jardim encantado que construíra para esconder sua doença, teve que trocar suas mantas macias e perfumadas por uma de tecido áspero e grosseiro. Recebeu o vergonhoso sino dos leprosos e foi levado escoltado até a entrada do vale.
 
 

Nos primeiros dias deixou-se ficar caído no fundo de uma gruta úmida. Preso por uma depressão horrível que consumia a sua alma. Não sentia fome, nem sono, nem raiva. Sentia apenas uma dor aguda que lhe varava o peito. Todos o haviam abandonado, seus filhos, sua mulher, seus aliados, seus dependentes, seus empregados, seus deuses... Para o mundo ele não mais existia, não passava de uma sombra, uma memória mal lembrada, um sonho que se dissipou com a chegada da manhã.
 

Pouco restava do nobre Plautus Lentulus. A energia nauseante e corrosiva do vale dos leprosos havia terminado de devastar seu corpo. Seu rosto era uma massa disforme, suas mãos transformaram-se em puras chagas. Ele mal conseguia erguer-se sobre as pernas cobertas de feridas. Naquele espectro de ser, pouco restava da figura vaidosa, prepotente e convencida do soberbo senador.
 
 
 

Ficou ali amargurado e cheio de pena de si próprio, até que, numa manhã cinza e chuvosa, o vale foi tomado por um estranho frenesi.

Estava ali um homem que dizia ter visto, com seus próprios olhos, perto da porta da cidade de Nazareh, um homem santo, a quem chamavam de Messias que, com o simples toque de suas mãos, curava doentes.

“Impossível” – diziam uns.

“Onde está ele agora?” – perguntavam outros.

“Vamos queimar este impostor que quer no iludir” – ameaçavam alguns.

“Deus seja louvado” afirmavam uns poucos.

Plautus saiu de sua imobilidade e cheio de esperanças veio para a chuva procurar por alguns companheiros que estivessem dispostos seguir, junto com ele, em busca do santo milagreiro.

Todos queriam ser curados mas bem poucos tinham disposição para ir ao encontro da cura.

“Vem comigo, seremos curados” – ele convidava.

“Será que ele não passará por aqui?” 

“Quisera eu, mas não tenho forças, veja meu estado...”

“Bem que eu gostaria de ir até esse homem, mas com este tempo...”

Das centenas de leprosos que contatou, apenas dez se prepuseram partir.
 
 

“Belém... Belém... Belém...” – faziam os sinos anunciando as suas dores e as suas vergonhas pelas estradas.

“Fujam todos, lá vêm os malditos leprosos.”

“Joguem pedras neles crianças, não os deixem se aproximar.”

“Fora seus lazarentos, não queremos vocês por aqui.”
 
 
 

Longas eram as estradas que os separavam da cura milagrosa; pesado era o Sol que ardia sobre as suas costas castigadas pelas chagas abertas; seca era a poeira que se impregnava em suas gargantas, cobriam-lhes o rosto, cegavam seus olhos; triste era ver o asco que as pessoas sentiam ao passar por eles; insuportável era o cheiro de seus próprios corpos que se decompunham mais e mais a cada dia que passava.
A coisa não era tão fácil como parecia. O tempo passava e eles caminhavam caoticamente pelas estradas da Palestina. 

Às vezes chegavam em uma aldeia onde o Messias havia passado dias antes. “Olhe, aqui sentou o mestre” – diziam maravilhados.

Em muitos lugares o povo apenas havia ouvido falar dele. 

“É dizem que lá para o oeste existe um homem sábia, que trouxe de volta a vida um homem morto” – comentavam.

Iam assim colhendo apenas retalhos, lendas e depoimentos.

Mas a jornada era árdua, eles estavam muito debilitados, assim, alguns iam ficando pelo caminho. 

Crassus morreu apedrejado por um bando de pastores ao tentar saciar sua sede numa fonte próxima de um vilarejo. Titus foi atacado por um cão raivoso. Marco afogou-se num rio, procurando fugir de algumas crianças que o açoitavam com varas de espinho. Antonio, Plautino e Tomé, extremamente cansados, desistiram da busca antes de completar uma Lua de viagem. 
 
 

“Belém... Belém... Belém...” – o som do sino ajudava Lentulus a manter o foco, a não dispersar pensando em suas dores, no mundo que havia perdido, nos seus sonhos de glória que morreram tão rápido quanto o clarão de um raio de uma chuva de verão.

Todos os companheiros haviam ficado para trás, agora ele avançava só. 

Das suas vestes restavam agora só trapos, do corpo só chagas, do orgulho só o escárnio do povo. Mantinha-o em pé a esperança. Desde que ouvira falar no tal de Messias algo novo havia brotado em seu ser.
 
 

“Belém... Belém... Belém...” – lá vinha Plautus Lentulus pela estrada que levava a um grande lago. Ele já não agüentava mais. Seus pés deixavam atrás de si um rastro de sangue. Mas ele manteve-se em pé. Uma voz interna dizia para ele prosseguir, afirmava que faltava pouco. Então buscando forças no fundo da alma, apertando na mão seu cajado, caminhou mais um pouco.
 
 
 

“Belém... Belém...  Belém...” – cantava o sino.

Foi então que ele avistou o lago. Um vento ameno batia em seu corpo, as velas brancas dos barcos destacavam-se contra o azul do céu. 

Pode notar que não longe dali, próximo à margem do lago, havia uma aglomeração de pessoas ao redor de um homem que discursava.

Sim... Era o tal do Messias. Teve certeza. 

De onde estava podia vê-lo bem, barba escura, cabelos soltos ao vento, olhos acesos e profundos, manto de linho claro, uma estranha aureola azul ao redor da cabeça. 
 

“Belém... Belém...  Belém...” – cantava o sino. 

Queria falar com aquele homem, contar de suas desditas, pedir a sua compaixão.
Mas ao se aproximar teve vergonha de se apresentar tão miserável diante daquele ser tão sereno e ao mesmo tempo tão imponente. Viu a quantidade de doentes que se aglomeravam ao seu redor. Eram aleijados, leprosos, cegos, inválidos, um bando de infelizes que, como ele, buscavam a salvação. 
Parou ali mesmo... 

Ficou de longe ouvindo, apenas ouvindo. Deixando-se levar pela canção que aquelas palavras, tão doces, iam compondo. Esqueceu-se de si, de suas dores, de suas amarguras, do som do sino... 

Foi quando o Messias olhou para ele e disse: "Levanta Plautus, tua fé te curou".
 
 

 Plautus, como que saindo de um transe profundo, levantou-se e para sua surpresa as chagas de seu corpo haviam milagrosamente desaparecido. As dores que o atormentavam há tanto tempo sumiram...

Ele abaixou-se largando o sino junto a uma pedra, não precisava mais dele para lembrar-se de quem era na realidade.

Nunca mais voltou a Roma, ficou por ali, seguindo o Messias de longe, sem se aproximar muito. Ouvindo suas histórias, repousando em sua paz, se iluminando com o seu exemplo.

Um dia homens fardados levaram o Messias e o colocaram numa cruz... 

Todos se desesperaram, haviam perdido o referencial, ficaram acéfalos, menos Plautus que se manteve sereno.
 
 
 

Havia uma mulher. Uma morena de cabelos longos e olhos muito negros que caminhava descalça por entre as pedras e os espinhos da estrada. Ela acompanhava o Messias bem de perto, lavava-lhe os pés, dava-lhe de comer, ouvia atentamente suas palavras. De tanto ficar próxima do mestre havia adquirido uma aura quase igual à dele. Pois ela também, depois da tragédia, se mantinha tranqüila. 

Ele, na falta do Messias, resolveu segui-la de longe.

Foi assim que viu, no meio de uma nuvem de areia carregada pelo vento a 
imagem dos dois abraçados, no meio da estrada, num espetáculo de mística beleza. Ele, recém saído do inferno; ela, entrando no paraíso...

Foi um abraço longo, querido, com gosto de eternidade.

Depois, o mesmo vento que trouxe o Messias o levou e ela ficou sozinha, os braços abertos, o rosto altivo, com o corpo que agora era feito de pura luz.

Plautus continuou a segui-la, como uma sombra distante. Ela fazia os milagres, multiplicava pães, expulsava demônios, trazia mortos à vida, falava com grandes públicos. Ele à margem da glória, ia pelas beiradas, ouvindo os aflitos, consolando os pequenos, animando os doentes, dando esperanças aos que se achavam perdidos, brincando com as crianças humildes.

Assim passaram os anos, até que um dia, seguiam sozinhos por uma longa estrada, o céu estava claro, o sol estava ameno. Ela caminhava lá na frente, peito aberto, rosto ao vento; ele a seguia de perto, caminhando com cuidado, para que o som de seus passos não incomodassem os pensamentos daquela mulher luminosa e cheia de encantamentos.

Foi quando ela parou e voltou sobre os seus próprios passos.

Ele ficou estático, nunca antes tal fato havia acontecido. Ele para ela era ninguém, um sombra fugaz.

Ela chegou junto dele e perguntou: "Porque me segues, ô bom homem?"

"Busco através de ti, o Messias encontrar..." - respondeu ele cheio de vergonha.

"Vem comigo..." e sem esperar resposta, tomou a mão de Plautus na sua e com um muito carinho o levou até a beira de um lago de águas calmas, tranqüilas e transparentes. Ele foi, deixou-se levar, confiando.

Juntos ajoelharam-se bem encostados na margem.

"Olhe seu reflexo no lago" - disse-lhe ela.

Aquela hora, as águas do lago pareciam de cristal, imóveis, translúcidas e ali ele pode ver refletido o seu rosto.

"Olhe bem, o que vês?"

"Vejo meu rosto, vejo que estou curado..."

"Não, olhe nos olhos, o que vês? - ela insistiu.

E foi assim que ele viu, lá dentro de seus olhos, bem presente em sua alma, a imagem do Messias.

"Ele sempre aí esteve, tu é que não o vias..."

Dizendo isso, ela se levantou e retomou seu caminho...

Plautus deixou-se ficar mais um tempo ajoelhado, olhos nos olhos, iluminado. Com os pés tocando um outro mundo, agora ele compreendia tudo.

Um folha trazida pelo vento quebrou o encanto. Mas ele não precisava mais de encantos...

"Levanta-te Plautus, tua fé te curou..." e ele levantou-se novamente, desta vez, curado por dentro... Com o rosto transfigurado em pura luz, com o peito ardendo de tanto amor, voltou para estrada e cheio de serenidade tomou o seu próprio caminho.
  

Arsenio Hypollito Junior
Fundador do Imagick
Criador do sistema Imagick de Magia
M.I. da Irmandade das Estrelas
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