Instituto de Pesquisas Psíquicas Imagick
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A Fila
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    Foi um processo vagaroso, mas, quando deu por si, Mariana se viu de pé, apertada numa fila muito mal organizada, com um monte de espertinhos querendo passar na frente, num local muito quente e abafado. Ali ninguém se entendia. A sua cabeça latejava, os dedos das mãos ardiam, os sapatos apertavam-lhe os pés.
    Tanta gente... Tanta confusão... Tudo tão estranho...

    Não compreendia muito bem como chegara até ali. Lembrava-se vagamente de sentir-se muito mal, prostrada num leito de um quarto semi-obscuro. Algumas sombras moviam-se chorosas junto às paredes e um nauseante cheiro adocicado dominava o ambiente. Parece que alguém rezava.
    Dr. Refinete, o velho médico da família, aquele que a vira nascer, por trás de seus espessos bigodes brancos, dizia balançando tristemente a cabeça: “Fiz o que pude... Agora só Deus...”
    Mariana queria dizer algo, pedir ajuda, mas faltavam-lhe forças, a voz morria entre seus lábios. Sentia-se totalmente prostrada. Nem mesmo chorar podia. O médico se afastou cabisbaixo deixando-a só em seu leito, com o corpo molhado de suor provocado pela febre que devorava seu corpo.
    O tic-tac de um velho relógio distante marcava o compasso triste de sua agonia.
    Tia Gumercinda, sempre solícita, vestida de cinza e negro, gola branca de renda, coque no cabelo, se aproximou com uma vela acesa e a colocou em suas mãos. Não queria segurar aquilo. Mau agouro – pensou. Mas os braços estavam pesados, não dominava mais seus movimentos, ficou então sentindo a cera quente escorrendo por entre seus dedos. 
    Uma das sombras junto à parede deu um profundo suspiro de dor, tudo girava. Tão linda, tão cabeça oca... Que fez ela? – lamentava a sombra.
    Tudo parecia se misturar numa massa única de pesar, a cera quente nos dedos, o barulho irritante do relógio, as sombras movediças das paredes, o mal estar... Sentia-se despencando, engolida por um profundo buraco negro. O mundo ia ficando para trás, sem um adeus, sem uma lágrima, sem um arrependimento, sem saudade... 
    Estava só, em meio a uma escuridão total. 

    Úiii!!!... Uma dor aguda a trouxe de volta a realidade, uma velha gorda, com cara de megera, cabelos desgrenhados, lábios sujos e borrados por um batom encarnado, pisara-lhe o pé e ainda a olhava feio, como se ela fosse a culpada.
    Nem teve tempo para reclamar, alguém a empurrou com violência procurando avançar na fila. 
    O aperto aumentava, vozes impacientes se faziam ouvir por todos os lados. Gritos, lamúrias, imprecações. O calor estava insuportável, um tom laranja fogo dominava o ambiente.
    E o aperto aumentava.
    Mas que Diabos – comentou em voz alta e todos que estavam a sua volta olharam para ela com cara de reprovação...
    Foi aí que ela compreendeu onde estava. 
     
     

    Arsenio Hypolito Junior
    Fundador do Imagick
    Criador do sistema Imagick de magia
    R
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