Guerra e Castidade
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por: Jorge Angel
Livraga
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Muitos leitores, em sua fase ingénua, perguntaram se sobre a aparente contradição que surge nos grandes livros ao tratar temas como "Guerra Paz" e "Amor Castidade". Não encontrando respostas aceitáveis, na maioria das vezes suas indagações passaram seu objetivo por alto, perdendo se em longínquas abstrações, tão elegantes quanto inócuas. Por que na Bíblia, Jesus
Cristo, o Príncipe da Paz, a chicotadas, põe os mercadores
fora do Templo? Por que chega ele a dizer "Aquele que não está
comigo está contra mim"? Por que um dos textos místicos mais
importantes da antiga índia chama se Mahâbhârata, isto
é, "A Grande Guerra"? Por que, no Bhagavad Gita, o lugar onde Krishna
transmite a Muna seus ensinamentos é um campo de batalha? Por que
a maior obra da literatura grega, a Ilíada, gira em torno da guerra
de Tróia? E ainda, por que as palavras mais altas em língua
castelhana, sob o tema de loucura ou redenção, estão
ensartadas (contidas) na lança de Quixote . . . escritas por um
homem que tinha por maior honra o fato de ter participado na batalha de
Lepanto? A lista de "por quês" seria inesgotável.
Não podemos negar que, desde a Santa Bíblia até Dom Quixote, a intencionalidade dos textos é contrária à violência. De que maneira conjugar as partes com o todo, os princípios com os fins, as formas com os conceitos? Como se entende que esses livros titãs, escritos para enaltecer as qualidades humanas, façam louvor à guerra, às virtudes guerreiras, e deixem o amor em segundo plano? Toda hora, fica na moda, sobretudo
entre os jovens, repetir incansavelmente "Paz e Amor"; toda via, não
encontramos na História um século mais banhado em sangue
que o XX. E esses mesmos jovens, que tantos elogios fazem ao amor, pronunciam
palavras de ódio, enquanto seus cantos à paz servem de duvidosa
moldura às guerras mais espantosas que o mundo tem visto.
Será que as palavras estão vazias de conteúdo? É evidente que os significados etimológicos não são suficientes, pois o uso vulgar os ultrapassa constantemente. Hoje por "guerra" entende se "briga", e por "paz", "indiferença" ou "debilidade". É necessário esclarecer urgentemente que existem profundos significados nestes termos e, sem o conhecimento deles, semeamos confusão nos tortuosos sulcos dos ainda mais torcidos atos. A "guerra", como a entende o Bhagavad
Gita, não é uma simples luta armada, é um pôr
em ação as Potências da Luz ante o avanço dos
Poderes das Trevas, não só no exterior, mas no próprio
coração humano; Krishna representa nosso Ser Interior e Muna
a personalidade temerosa que deve executar, no mundo fenomênico,
os desígnios do Destino: que os bons Pandavas triunfem sobre os
maus Kuravas. Aqui a guerra não é um fim mas um sacrificado
meio, um sacrificado ou sagrado ofício, semelhante à crucificação
do Cristo, que redime pelo sangue... e não pelo vinho. É
um monumento íntimo à renunciação, ao altruísmo.
Quanto ao "Amor", nossa pobreza de expressão faz com que o confundamos com o sexo, e ainda o menoscabémos ao extremo de aparentá lo com as correntes anárquicas que promovem as drogas adormecedoras do espírito e a contaminação dos costumes. Na aberração conseqüente, entende se por "Castidade", fingimento, quando não frustração e escapismo, que não somente se impinge aos cidadãos que ainda a proclamam, como também se aplica às mais sagradas pessoas, desde Santa Tereza até ao próprio Jesus Cristo. É assim que, perante a civilização ocidental em decadência e as culturas asiáticas contaminadas e afogadas na explosão demográfica, perante o lamento dos hipocondríacos que clamam "Paz e Amor", nós, os Idealistas, expressamos: "Guerra e Castidade". Guerra ao vício, à violência inútil, à covardia cúmplice de todos os erros. Castidade que é temperança, não somente do corpo como da alma. As paixões são meros instrumentos da Natureza; outorgar lhes maior categoria é escravizarmos ante o mais cruel dos senhores, nossa própria parte animal. E não só devemos estar alertas ante a agressão das paixões comuns mas, também, ante aquelas que, afetando a imaginação, promovem fantasias a procura de fáceis "Nirvanas" conquistados em "cursos acelerados" de simples posturas exteriores. Assim, como nos Velhos livros, entendemos
por "Guerra" a atitude vertical da vontade garantia do império
da alma sobre o corpo, do bem sobre o mal, dos que crêem em Deus
sobre aqueles que zurram suas "liberdades" amarrados ao poste do ateísmo.
E por "Castidade", a sujeição do corpo à sua natural
medida, das paixões às suas funções, das ambições
a seus caminhos naturais. Então, através desta "Guerra" chegaremos
à verdadeira Paz, e através desta "Castidade" ao verdadeiro
Amor.
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