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OS CÁTAROS

 
Cátaros. Estranha palavra... desconhecida de muita gente, graças ao sistemático labor de promover seu esquecimento, pelo extermínio de seus representantes, pela queima de seus livros, pela perseguição de seus simpatizantes...

 Por que "cátaros" numa Revista Eubiótica? Porque a tragédia cátara é mais um exemplo, eloqüente ao extremo, da luta entre os valores progressistas, liberais e inovadores, baseados na essências das coisas, contra os valores conservadores, estáticos, calcados nas aparências. Há um quê de paradoxo nesta polaridade... A instância liberal e renovadora tenta restaurar o que é  prístino, original, primordial, enquanto que a instância conservadora intenta manter e conservar a distorção perpetrada, ao longo dos milênios, dos valores primevos.

 Essa eterna luta entre opostos está presente em tudo. Foi magistralmente descrita no Bhagavad-Gitã, na luta entre Kurús e Pandavas, entre lunares e solares; manifestou-se na política, expressa pelos pólos das "esquerdas" e das "direitas"; na Lenda de Teresópolis se apresenta como Gurupiaras e Caacupês; é Rama contra o gigante Ravana, do Ramayana; é Blavatsky, ao lado de Garibaldi, contra o Papado, nas guerras italianas de unificação; são os primitivos gregos, já arianos, contra a vergôntea atlante decadente; é a lide do demônio contra o macaco, do simbolismo dos Arcanos X e XI- A Necessidade e A Coragem; é a nossa luta interna, que nos faz, ora progredir, ora retroceder, na caminhada evolucional.

 No evento cátaro, as forças conservadoras, reforçadas pelos valores desagregadores do ciclo decadente, levaram a melhor... materialmente falando. Perto de um milhão de pessoas, notem bem, UM MILHÃO de pessoas, entre cristãos cátaros, simpatizantes de sua Causa, e os próprios católicos, por habitarem uma cidade cátara, morreram queimados, mutilados, empalados, esquartejados, e eviscerados por aqueles que se também se intitulavam "cristãos", mas que, como sói acontecer até os dias que correm, tinham uma conduta oposta aos postulados mais básicos da Divina Mensagem do Excelso Jeoshua.

 Pouca gente sabe disso, mas o extermínio dos cátaros, também chamados de "albigenses", por ser Albi uma das cidades cátaras, inaugurou um gênero novo de estratégia militar, a Cruzada. Pelo sucesso da tentativa, promoveu-se depois as conhecidas Cruzadas contra o Islã. O que passa desapercebido é que a Cruzada contra os Cátaros foi a única Cruzada DE CRISTÃOS CONTRA CRISTÃOS...

 O cenário é a França do Século XII. O Sul da atual França era então formado de inúmeros feudos. Região rica e progressista, com acesso irrestrito ao Mediterrâneo, senhora de uma unidade étnica e filológica próprias, caracterizada, como é até hoje, por um espírito mais aberto e tolerante e um clima mais ameno, o Sul prosperava, e se abria à liberdade de espírito. A região do Langue d'Oc (literalmente, da língua ocitânica, falada até hoje, e inclusive ensinada, ao lado do francês, nas escolas da região), reuniu, efetivamente, uma mistura explosiva: riqueza, sentimento separatista da Coroa Francesa e Liberdade de Pensamento...

 No que concerne à liberdade de pensar, o catarismo espalhou-se rapidamente na região. Provindo de um amálgama entre os postulados de Mani, eivados da Sabedoria Oriental e do Zoroastrismo, e os ensinamentos de Jeoshua, o catarismo (de kathar, grego, que significa, "puro") teve grande aceitação, principalmente entre a plebe. Entretanto, curiosamente, os nobres e senhores feudais da região, se não o adotavam como religião, o apoiavam, pois a filosofia cátara não os incomodava com os dízimos, as obrigações e as chantagens características do clero católico corrompido. Patrocinados pelo bom senso, todos viviam em paz...

 O catarismo não admitia posses materiais. Não possuía igrejas, senão a que se encontrava sob a abóboda celeste. Seus representantes eram Instrutores, que, à cavalo, iam de cidade em cidade, promovendo debates sob as árvores, cantando, como trovadores ("troubadours") os mistérios divinos, curando com ervas medicinais, doando Amor e Compreensão, sem pedir nada em troca. Podiam casar, ter filhos, uma vida normal, repartindo o que tinham em excesso e recebendo graciosamente aquilo que necessitavam. Obedeciam a três normas básicas, que na língua ocitânica são:  PRETZ, PARATGE e CONVIVENCIA.

 PRETZ significa literalmente "preço". Era a honra, a palavra, a generosidade até o sacrifício, o respeito, a igualdade.

 PARATGE é o impulso místico, a honra pela presença do Espírito Divino em cada ser, a homenagem ao outro, a consideração ao próximo.

 CONVIVENCIA é a tolerância, e o sacrifício por sua manutenção.

 Obedeciam a um único Sacramento, chamado "CONSOLAMENT". Os que o recebiam, abandonavam a vida marital, tornavam-se castos e passavam a ser chamados de "PERFEITOS". Observemos que este "grau avançado" era acessível a todos, inclusive às mulheres, que ocupavam todas as funções, em igualdade com os homens.

 Como podemos ver, os cátaros eram "avançados" demais para sua época...
 

 No que tange à Cosmologia que adotavam, podemos respigar que pregavam a existência de 7 Céus em torno da Terra e 9 Hierarquias, quais sejam: Anjos, Arcanjos, Arqués, Potências, Virtudes, Dominações, Tronos, Querubins e Serafins. As Virtudes, 5a. Hierarquia, era governada por "Satã"... Senhor das 4 Hierarquias anteriores... Qualquer semelhança NÃO É mera coincidência...

 Entre os cátaros, os ministros do culto eram escolhidos entre os crentes instruídos e inteligentes; dotados de vontade, levavam vida ascética, ensinavam a doutrina que extraíam dos Evangelhos e abandonavam por completo o orgulho sacerdotal, a vaidade e o fausto. Não havia hierarquia em sua Igreja; o diaconato e o episcopado eram termos que correspondiam a funções administrativas e não a títulos honoríficos. Praticavam efetivamente a IGUALDADE, estendida também à mulher - numa época em que esta não estava autorizada a tomar a palavra perante clérigos. Acreditavam firmemente que só aquele que conseguiu avançar muito longe no caminho do aperfeiçoamento moral é capaz de ver entreabrir-se a porta do Mundo Espiritual. Só aquele que tem, mercê da paciência, a doçura, a lealdade e o amor alcança a perfeição moral, só ele encontrará a parte de sua individualidade que permanece divina, a parcela de Espírito que ele traz em si, o Paracleto.

 Para os cátaros, a visão do mundo espiritual, da vida supraterrena,era portanto, uma questão pessoal, de que nenhum intermediário podia participar... ainda que fosse "ordenado". Ora, se preces, doações e cerimônias não podiam substituir o esforço individual, o mundo eclesiástico perdia o seu crédito... Seu poder temporal, o domínio exercido sobre os fiéis diminuía... e por fim, tendia a desaparecer... Para a religião oficial, evitar que se propagasse o catarismo e tais crenças era um dever imperioso! Urgia conjurar o perigo!

 Pois bem, tanta harmonia, bom senso, inteligência e bom convívio só poderia despertar a ira da Igreja e da Coroa. A da Igreja pela recusa à corrupção dos ensinamentos de Jeoshua, adaptando-se às regras rígidas de um clero materializado; a da Coroa, por fomentar a semente da separatismo: língua própria, riqueza própria, religião própria, modo de vida próprio.

 Antes do extermínio, a Igreja enviou seus mais hábeis debatedores às terras cátaras, de modo a que, pelo debate, pudessem converter os hereges. Baldados foram seus esforços... Na discussão, não havia ninguém melhor que os cátaros, acostumados a pensar, meditar e interpretar os textos cristãos. Além do mais, como se constata, a ausência do dogma reveste as pessoas de uma clareza mental inigualável. Tentaram minar a fé cátara enviando um São Domingos, que, imitando o modo simples e despojado dos hereges, e forjando milagres, fez de tudo para "reconciliá-los" com a "Santa Madre Igreja", mas foi em vão...

 Constatada a impossibilidade de competir com a pureza, a honradez e a agudeza mental dos cátaros, resolveram apelar para o bastão... "Onde não valer a benção, prevalecerá o bastão. Instigaremos contra vós príncipes e prelados" - Domingos de Guzmán ("São Domingos")

 Assim, irmanados para a destruição, o Rei de França e o Papa, mancomunados, constituíram um exército de mercenários, formado por cerca de 200.000 homens, que saíram de Paris rumo ao Sul, dispostos a tudo arrasar... E assim o fizeram... cidade após cidade... Arnaud Amaury, legado da Igreja, à frente do exército, deixou Montpellier e chegou à cidade de Béziers a 22 de julho de 1209. O bispo da cidade exortou suas ovelhas, reunidas na Catedral de Saint-Nazaire a entregar os cátaros aos cruzados; os católicos biterrenses rejeitaram com indignação esse pedido, e as portas da cidade foram fechadas. Apesar de uma tentativa de defesa pelos burgueses e pela guarnição, a cidade foi logo tomada e invadida; os habitantes se refugiaram nas igrejas, lugares considerados asilos invioláveis nessa época. E o massacre principiou nas ruas, nos edifícios religiosos; houve sete mil mortos na igreja da Madalena; os refugiados da catedral de Saint-Lazare foram massacrados e queimados; a cidade foi incendiada. No dizer do próprio Arnaud Amaury, massacraram-se mais de vinte mil pessoas de todas as idades e de todas as crenças.

 Os legados, em sua carta ao papa, mostravam-se orgulhosos "desse enorme massacre", assim como do incêndio e do saque da cidade. "Não creio", diz a Canção da Cruzada, "que jamais que tão selvagem morticínio tenha sido decidido e consumado desde o tempo dos sarracenos". Foi em Béziers que Arnaud Amaury teria pronunciado as terríveis palavras hoje contestadas: "Matai-os todos, Deus reconhecerá os Seus"... expressão de um estado de espírito que reencontraremos no ano seguinte, quando da tomada de Minerve, e, um pouco mais tarde, em Marmande.

 E assim, a carnificina foi seguindo, ano após ano... durante perto de 50 anos. Os barões e senhores feudais da região, que davam asilo e apoiavam o catarismo tiveram suas terras confiscadas e seus bens tomados. Para administrar suas riquezas, o conluio Coroa-Igreja escolheu entre seus asseclas um jovem baronete de grande ambição chamado Simon de Monfort, que se tornaria, em poucos anos, o grande carrasco da etapa final do extermínio cátaro. Mais quatro cruzadas contra os cátaros foram então organizadas, ampliando ainda mais a destruição de espíritos e corpos.

 Capítulo à parte foi o cerco à Montségur, local sobre o qual vale a pena determo-nos um pouco. Montségur é um castelo em ruínas, de formato pentagonal (pois o número 5 era sagrado entre os cátaros), postado no topo de uma montanha, nas faldas dos Pirineus, outrora praticamente inacessível. Era um refúgio e um retiro para a meditação, lugar mágico, cercado de montanhas nevadas. Templo solar, Montségur era um local de adoração ao Sol, ou seja, o Cristo, irradiador de luz e vida, dispensador das forças solares matizadas segundo os doze signos do Zodíaco. Hoje , Montségur ainda atrai, inexplicavelmente, inúmeros turistas que vêm de diferentes países para subir sua escarpa e se deparar com a atmosfera, ao mesmo tempo, triste e pacífica, que ali se encontra. Entre esses turistas, esteve há 4 anos atrás, este que vos escreve estas linhas...
 

 Em setembro de 1241, o misterioso castelo foi sitiado, a exemplo do que acontecera com muitos outros. Embora tivesse sido feito para habitação de poucas pessoas, devido à exigüidade de espaço no alto do pico, nele se encontravam, à época do cerco, muito mais, pois, durante tantos anos de massacres, Montségur tornou-se lugar de refúgio para aqueles que fugiam da catástrofe. No fim de fevereiro de 1244, entabularam-se conversações entre os sitiantes e Pierre-Roger de Mirepoix, chefe da defesa do castelo. As condições da rendição, foram fixadas assim:

 - Os cavaleiros armados serão libertados depois de confessar suas faltas e sofrer ligeiras penitências;
 

- Os crentes serão absolvidos de suas faltas, e serão "reconciliados" com a Igreja (promessas ilusórias, já que mais tarde, todos crentes, provindos de outros cercos, seriam submetidos às terríveis condições reservadas aos "reconciliados" e muitos deles terminariam seus dias nas masmorras inquisitoriais);

- Os "revestidos" bons-hommes e bonnes-femmes cátaros (sinônimos de adepto do catarismo, num grau mais avançado) que renegarem sua fé serão também "reconciliados"; os que persistirem em sua fé, serão queimados imediatamente.

 Apenas uma condição, emitida pelos sitiados, foi aceita pelos carrascos. A de se postergar, por quinze dias, a decisão final. É que, naquele ano, o Equinócio de Primavera caía a 14 de março...
 

 Pois bem. Em 16 de março de 1244, TODOS os cátaros de Montségur, homens, mulheres, crentes e cavaleiros armados receberam o "consolament", ou seja sua "Iniciação", desceram a montanha e se encaminharam de livre e espontânea vontade, com as mãos dadas, para as fogueiras que tinham sido armadas no sopé do pico, para nelas penetrarem conscientemente. Duzentas e cinco pessoas preferiram, assim, ser queimadas vivas, à corromper sua consciência... Enquanto as chamas, num acampamento preparado para esse efeito, queimavam os cem montes de faia e as vítimas do fanatismo e da intolerância, os soldados do "bom rei São Luís" e os representantes da Igreja de Roma cantavam o "Veni creator spiritus"...

 Um monumento erigido pela Sociedade para a Memória e o Estudo dos Cátaros marca atualmente o local do holocausto. Numa espécie de altar, encimado pela conhecida estrela cátara, está escrito: "A todos os mártires do puro Amor Cristão, 16 de março de 1244".
 

 A queda de Montségur marca o fim da igreja cátara organizada. O catarismo ainda subsistiria nos "carolas" espanhóis, e em locais como a Córsega, a Itália e a Bósnia. Mas, tinha sido ferido de morte. Os representantes do "puro Amor cristão" estavam dizimados.

 Setenta anos depois, quase no mesmo dia, a 13 de março de 1314, morria, também queimado, o Grão-Mestre da Ordem dos Templários, numa fogueira armada na Île de la Cité, em Paris, vítima também da Igreja e de sua milenar intolerância...

 Desde sua fundação, a Igreja Romana lutou contra o que ela chamava "heresias". Mas, em momento algum, ao que parece, a repressão assumiu o caráter de violência que marcou o período das cruzadas contra o catarismo. Os cátaros eram cristãos, mas jamais aceitaram uma fé cega, baseada em dogmas impostos, muitas vezes cristalizados, e não raro obscuros como o pecado original. Ansiavam por uma crença baseada no Conhecimento, que faziam-nos reconhecer e aceitar a constituição tripartite do ser humano, composto de corpo, alma e Espírito, e compreender a função do Mal ou de Oposição na evolução terrena. Queda na matéria e retorno à Jerusalém Celeste eram temas de exame e meditação. Tentavam responder à tríplice e persistente questão humana, proposta eternamente pela Esfinge: afinal, quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Mas, este ensaio não poderia ser finalizado sem o ponto principal, que encerra grande mistério... Diz uma famosa pesquisadora dos cátaros, Lucienne Julien:

"Consta que na noite que precedeu a rendição de Montségur, quatro homens se esgueiraram do castelo, levando um fardo precioso e seguiram pela vereda de Saint-Barthélémy rumo ao castelo de Usson, em Ariège, na direção de Montréal-de-Sos. Como o tesouro em ouro e prata fora evacuado de Montségur oito semanas antes, é lícito supor que os quatro homens transportavam um bem que os sitiados haviam querido conservar junto de si até o último momento, mas que não deveria cair nas mãos dos inquisidores. Rituais? Textos de doutrina? Ensinamentos secretos? Depois de Usson, perdemos a pista do precioso fardo; segundo alguns pesquisadores, o depósito teria sido levado para Aragão, ou para o norte de Huesca, ou, mais provavelmente, para San Juan de la Peña, onde, no monastério real levava existência contemplativa, desde o século X, uma ordem monástica que teria dado impulso ao movimento do GRAAL"...

 Seria, perguntamos nós, tão precioso fardo, uma reprodução da Taça do Graal? Teriam os cátaros liames com o Rito Graalino, espinha dorsal de nosso Movimento Iniciático? Mistério...

 O que parece ser certo é que os cátaros foram, efetivamente, um elo na corrente de Iniciados de todas as épocas, e, como tal, mais uma tentativa da Lei Justa e Perfeita de se implantar ou de restaurar na Terra o Reino de Deus - "Adveniat Regnum Tuum".

Caramuru Chimango
Revista Vidhya Virtual
Outubro Dezembro de 2000
http://www.vidhya-virtual.com/vidhya4/
 



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