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O Milagre de Mestre Siri


Por: Arsenio Hypollito Junior


        O mar rugia como um dragão feroz, açoitando com suas ondas descomunais o pequeno navio que lutava bravamente para sobreviver à tempestade. Bombaim há muito havia ficado para trás, Moçambique estava bem distante.
         Kasturbai, sozinha e pálida de pavor, segurava-se bravamente a uma coluna da sala de refeições, procurando manter-se em pé. Achava que assim venceria a tormenta. Mas sentia que as suas mãos eram muito pequenas e frágeis para poderem conter por mais tempo toda a inclemência da natureza. Foi quando surgiu a figura forte de Antônio de Sá, que se aproximou e sem dizer palavra, segurou a sua mão. Aquilo foi como um raio luminoso que explodiu em sua alma sombria.
         Num instante, o medo se desvaneceu, os olhos se acenderam e o coração bateu mais forte. Parecia até que o pequeno rubi que trazia preso em sua testa tornara-se mais rubro... rubro de paixão.
         A presença de Antônio era magnética, poderosa. Mas, o que mais a encantou fora o farto bigode negro. Lembrava-lhe, de alguma maneira incompreensível, a força de Vishnu.
         A tempestade passou, mas o amor que nasceu entre os dois nunca mais terminou. As agulhas do destino, haviam cruzado de maneira definitiva duas linhas muito distintas, na intrincada tela da vida.
         Casaram-se na cidade de Lourenço Marques, dias depois do desembarque. Não havia nada que os prendesse ao passado. Ela perdera os pais, de um só golpe, nas escaldantes terras da velha Índia, nem irmãos tinha. Ele, aventureiro, tentara a sorte em Bombaim, mas os negócios não lhe foram bem e teve que fugir às pressas dos credores raivosos.
         Mas o clima político de Moçambique não estava nada bem, assim tomaram o primeiro navio que partia. Nem viram para onde ia, queriam apenas afastar-se dali.
         E olha o destino tecendo seu tapete... Vieram bater às costas brasileiras, na encantada Cidade de Salvador.
         Tinham os olhos calejados pelas belezas do mundo, mas quando do passadiço do navio, viram as terras que se aproximavam, ficaram deslumbrados. O sol da manhã batia dourado no casario que se elevava pelo morro; um vento morno, cheio de promessas, vinha beijar os seus corpos apaixonados. Tudo ali era mágico. Mas renderam-se definitivamente quando pisaram o solo e conheceram as pessoas que ali habitavam.
         Simplesmente ficaram... Nunca mais saíram dali... Amaram-se para sempre, sob a sombra aconchegante dos coqueirais.
         Tiveram um filho brasileiro e talvez esta tenha sido a única discórdia que tiveram na vida. Ela queria dar o nome de Arjuna, um herói indú que seria umas das encarnações do deus Vishnu. Ele queria chamá-lo de Antônio, como ele... como seu pai...
         Não havia jeito de chegar a um acordo. Mas estavam na Bahia onde, meu Santo, para tudo se acha solução. Resolveram, de comum acordo, chamá-lo de Arjônio Nehru de Sá. Nehru da mãe, Sá do pai, Arjônio de uma simbiose político/associativa/familiar e tudo terminou como devia, entre sorrisos, beijos e muito acarajé.
         O menino tinha a pele morena da mãe. Os olhos também lembravam os dela, eram negros e rasgados. Cresceu livre, como convém a um bom baiano.
         Todos sabem que Salvador é o resultado de um grande caldo místico.
         Em suas ruas e ladeiras cruzam-se, ao mesmo tempo, o badalar rígido dos sinos nascidos no cristianismo medieval, com os tambores livres dos negros africanos.
         De repente, numa esquina qualquer, pode-se deparar com um babalorixá... com um homem santo, de longos cabelos e olhos profundos... com um louco sacerdote de um culto qualquer de sangue... ou mesmo com um pastor de uma igreja progressista cristã, batendo bumbos e chocalhos, acordando as pessoas que passam, param e ficam olhando complacentes (não se esqueçam que são baianos) para a nova vinda do Cristo...
         Pois foi bem aí, no meio desta diversidade toda, embalado pelo som de centenas de festas religiosas, que Arjônio tornou-se homem.
         Porém, se em Salvador estas coisas convivem harmoniosamente, no seu interior não corriam tão ótimas assim. A liberdade de alma que herdara do aventureiro português não se dava muito bem com os anseios místicos/devocionais que recebera da mãe. Vivia em constantes lutas "d'alma", como gostava de dizer. Em todo lugar sentia-se inquieto, insatisfeito, não conseguia seguir nada direito. É que em seu sangue havia uma estranha mistura do sol da liberdade com o sal da tradição religiosa. Tentava acreditar em tudo, mas terminava por descrer de todos...
         Foi quando lhe falaram do Yoga. Havia um mestre, próximo ao pelourinho, famoso por seus poderes transcendentais. Ele havia desenvolvido e adaptado ao jeito baiano, uma nova maneira de se praticar o Yoga. Ele tinha um nome imponente e ao mesmo tempo engraçado (mais que o dele), chamava-se Sri Rukmini Acharya. Mas todos na Bahia o chamavam de Mestre Siri, até mesmo os teósofos, conhecidos por seu respeito aos nomes originais e sagrados.
         E aí encontramos novamente o Grande Tecelão do Destino em seu trabalho, mais uma vez cruzando as linhas do destino, no grande tapete da vida.
         Foi assim que ele inscreveu-se em sua academia.
         Mas seu espírito indolente o fazia chegar sempre atrasado aos ensinamentos e práticas.
         Uma bela manhã, depois de uma terrível noite de farras, entrou pé ante pé, na sala de reuniões da academia, disfarçando-se entre as sombras da parede para não ser notado. Sua cabeça parecia um bumbo, doía de maneira absurda, a ressaca da véspera era violenta.
         Quase não veio. Mas, ao deparar-se com os olhos da mãe, estampados na foto amarelada do velho quadro da parede, tão meigos, tão esperançosos de que ele finalmente encontrasse o seu verdadeiro caminho espiritual, encheu-se de forças e por ela, foi.
         Um silêncio sideral dominava o ambiente. Todos estavam em profundo estado de meditação. Mestre Siri, abriu os olhos, sorriu para ele e fez um sinal para que o acompanhasse para fora da sala.
         Atravessaram um jardim florido, onde a luz forte do sol da manhã fazia doer ainda mais a sua pobre cabeça e foram para um quartinho, lá nos fundos da academia.
         Mestre Siri, adivinhando o que se passava com Arjônio, disse: "A sua cabeça doe por acúmulo de energia em pontos fundamentais de seu corpo espiritual. Se tivesse prestado atenção às aulas, se tivesse praticado.... Agora não importa, deite-se neste divã..."
         Arjônio não estava em condições nem de perguntar, nem de discutir. Deitou-se, fechou os olhos e com a cabeça latejando de dor, entregou-se aos cuidados de seu mestre.
         Então ele tocou magicamente determinados pontos de seu corpo que fizeram com que a dor sumisse como por encanto e um estado gostoso de bem-aventurança dominasse seu ser.
         Foi quando ele abriu os olhos e pode ver, na penumbra do quarto, o vulto do Mestre Siri banhado por uma luz muito suave. Mas o mais impressionante eram os pequenos cones luminosos que partiam de algum pontos do mestre. Lembravam as cornetinhas que ganhava nas festas quando era criança, só que estas eram etéreas e diáfanas, como as asas das fadas e dos anjos... Agora, sabia que havia encontrado o seu verdadeiro caminho...
         Ficou maravilhado e num silêncio imóvel, no fundo de sua alma, elevou as mãos para o céu, gritando Milagre... Milagre... Milagre...

         Pois bem, da mesma maneira que o corpo físico, os demais veículos de manifestação do "Eu" também possuem órgãos próprios para absorver, armazenar e transformar as energias disponíveis em alimento de sua própria dimensão.   Igualmente, todos os materiais e energias impuras ou excedentes, são por eles eliminados. Fazem isto através de centros localizados nos corpos sombra. Eles são conhecidos nos meios esotéricos/ocultistas pelo nome de "chakras". Nos cursos do Imagick, quando é necessário falar com precisão científica, refiro-me a eles como vórtices energéticos, muito semelhantes a rodamoinhos luminosos, que vibram em diferentes freqüências, ao longo de todo o complexo de manifestação. Belas palavras, não?... Mas, na intimidade de meu ser, gosto mesmo de pensar nelas como simples cornetinhas de crianças, aspirando e soprando as possibilidades e alegrias da vida.
         Foi isto que o Arjônio viu se destacar do corpo de Mestre Siri e que o deixou deslumbrado.
         São tantas as cornetinhas etéreas que se projetam ao longo dos corpos que revestem o "Eu" que seria impossível, neste estágio de conhecimento em que nos encontramos, contá-las todas.
         Por isto, vamos nos deter em apenas sete delas, as mais importantes para os objetivos deste livro.
         De acordo com a nomenclatura mais aceita pela coletividade mística são elas: Chakra Básico; Chakra Esplênico; Chakra Umbilical; Chakra Cardíaco; Chakra Laríngeo; Chakra Frontal e Chakra Coronário.
          Como pode-se prever, cada chakra  (ou vórtice ou cornetinha etérea, como você preferir) tem funções específicas e desempenha um papel fundamental na vida de qualquer indivíduo e, em conjunto, respondem pela correta absorção energética para que o complexo de manifestação produza todo o fluidus vitalis que necessita.
         Pode-se dizer com segurança que se o sistema funciona harmoniosamente, a saúde do indivíduo vai bem. Porém, se por algum motivo houver uma descompensação (pode ser de ordem emocional, física ou intelectual) um sinal de alarme soará e se não for respeitado, sérios problemas advirão...
         Como harmonizar o funcionamento dos chakras é também um dos propósitos da segunda do livro "O Caminho da Rosa Dourada", em breve nas livrarias....

 
                                 Imagem: André Nucci


 

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