Paula seguiu a carreira artística
e a irmã mais velha, Nina, casou-se e foi dona de casa a tempo inteiro.
Rita refugiou-se na leitura. Leu Virginia Woolf e Selma Lagerlöf.
Freqüentou a Universidade de
Turim por seis anos. Mais tarde recordaria a sensação estranha
que teve a primeira vez que entrou num Instituto de Anatomia. Havia mais
cinco alunas no seu curso. Rita tinha de estudar os cadáveres e
perscrutar os tecidos através do microscópio. Levou o seu
curso de Medicina muito a sério e depois optou pela área
da investigação científica. Pesquisou as células
e suas mutações, bem como os nervos sensoriais.
Por causa de sua ascendência
judia se viu obrigada a deixar a Itália um pouco antes do começo
da II Guerra Mundial. Emigrou para os Estados Unidos onde trabalhou
no Laboratório Victor Hambueger do Instituto de Zoologia da Universidade
de Washington.
Na América continuou os estudos
sobre o sistema nervoso e junto com Stanley Cohen chegou à descoberta
de uma proteína que regula o crescimento dos tecidos, a que foi
dado o nome de Nerve Grrowth Factor (NGF). Por isto, obtiveram no ano 1986
o Prêmio Nobel de Fisiologia.
Deixou várias obras na área
da neurologia. Em 1999, na passagem dos seus 90 anos, organizou em Roma
um simpósio científico. Tem dupla nacionalidade. Italiana
e norte-americana.
Hoje, com 97 anos tem uma vida hiper-ativa
e é presidente honorária da Associação Italiana
de Esclerose Múltipla.
Entrevista realizada no dia 22/12/2005
- Como vai celebrar seus 100 anos?
-Ah, não sei se viverei
até lá, e, além disso, não gosto de celebrações.
No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia.!
-E o que você faz?
-Trabalho para dar uma bolsa de
estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem ... elas
e seus países. E continuo investigando, continuo pensando.
-E como está seu cérebro?
-Igual quando tinha 20 anos!
Não noto diferença em ilusões nem em capacidade.
Amanhã vôo para um congresso médico.
- Mas terá algum limite genético
?
- Não. Meu cérebro
vai ter um século...., mas não conhece a senilidade. O corpo
se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!
-Como você faz isso?
- Possuímos grande plasticidade
neural: ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam
para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente
estimulá-los!
-Ajude-me a fazê-lo.
-Mantenha seu cérebro com
ilusões, ativo, faz ele trabalhar e ele nunca se degenera.
-E viverei mais anos?
-Viverá melhor os anos que
vive, é isso o interessante. A chave é manter curiosidades,
empenho, ter paixões....
-A sua foi a investigação
cientifica...
-Sim e segue sendo.
-Descobriu como crescem e se renovam
as células do sistema nervoso...
-Sim, em 1942: dei o nome
de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase
meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida
sua validade e em 1986, me deram o prêmio por isso.
-Como foi que uma garota italiana
dos anos vinte converteu-se em neurocientista?
-Desde menina tive o empenho de
estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa
mãe... E eu não quis. Fui firme e confessei que queria
estudar.
-Seu pai ficou magoado?
-Sim, mas eu não tive uma
infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa... Meus
irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior...
-Vejo que isso foi um estímulo...
- Meu estimulo foi também
o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África
para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, isso era
meu grande sonho...!
-E você tem feito..., com
sua ciência.
- E, hoje, ajudando as meninas
da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade,
a opressão da mulher nos países islâmicos por exemplo,
além de outras coisas...!
- A religião freia o desenvolvimento
cognitivo?
-A religião marginaliza
muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo,
mas algumas religiões estão tentando corrigir essa
posição.
-Existem diferencias entre os cérebros
do homem e da mulher?
- Só nas funções
cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao
sistema endócrino. Mas quanto às funções
cognitivas, não tem diferença alguma.
-Por que ainda existem poucas cientistas?
- Não é assim!
Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente
foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.
-É verdade?
- A inteligência feminina
não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente,
tem mais mulheres que homens na investigação científica:
as herdeiras de Hipatia!
- A sábia Alexandrina do
século IV...
- Já não vamos acabar
assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como
ela. Claro, o mundo tem melhorado algo...
-Ninguém tem tentado assassinar
a você...
- Durante o fascismo, Mussolini
quis imitar o Hitler na perseguição aos judeus..., e tive
que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar:
tinha meu laboratório em meu quarto...E descobri a apoptose, que
é a morte programada das células!
-Por que tem uma alta porcentagem
de judeus entre cientistas e intelectuais?
- A exclusão estimula entre
os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais: podem proibir
tudo, mas não que pensem! E é verdade que tem muitos
judeus entre os prêmios Nobel...
-Como você explica a loucura
nazista?
- Hitler e Mussolini souberam como
falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima
do neocortical, o intelectual. Conduziram emoções,
não razões!
- Isto está acontecendo
agora?
- Porque você acha que em
muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não
o evolucionismo?
-A ideologia é emoção,
é sem razão?
- A razão é filha
da imperfeição. Nos invertebrados tudo está
programado: são perfeitos. Nós não. E,
ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores
éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais alto
grau da evolução darwiniana!
-Você nunca se casou ou teve
filhos?
- Não. Entrei no campo
do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que
decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!
- Lograremos um dia curar o Alzheimer,
o Parkinson, a demência senil?
- Curar... O que vamos lograr
será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.
- Qual é hoje seu grande
sonho?
- Que um dia logremos utilizar
ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.
- Quando deixou de sentir se feia?
- Ainda estou consciente de minhas
limitações!
-Que tem sido o melhor da sua vida?
-Ajudar aos demais.
-O que você faria hoje se
tivesse 20 anos?
-Mas eu estou fazendo!!!!