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Monja Coen Por Ela Mesma
Em 1968 eu trabalhava no Jornal
da Tarde, em São Paulo.
Em cima da notícia.
Era uma redação jovem
e romântica.
Acreditávamos que nosso
trabalho era importante e transformador.
Na minha cabeça ainda bailava
a imagem dos monges vietnamitas que se queimavam em praça pública.
Que capacidade de controle!
Na cidade as passeatas dos estudantes,
cavalos, bombas de gás lacrimogênio, bombas molotov, correndo,
sendo empurrada por pessoas e policiais, palavras de ordem, pedradas, correndo,
brincando, gritando, brigando.
Entrevistava nas favelas mais pobres
e nas mansões mais ricas. Seres humanos.
Um grande amigo meu, empresário,
foi morto por terroristas.
Outros conhecidos entravam na clandestinidade.
Todos humanos.
Alguns morreram torturados.
Outros torturando. Humanos.
Um jovem brasileiro voltou do Vietnã,
havia ganhado um bom soldo na guerra e não tinha ido à frente
de batalha.
Jornalistas mais antigos me chamaram
de lado
"Menina, você fez uma apologia
à guerra."
"Como assim? Eu escrevi o que ele
me disse."
"Sim, mas vocë não
escreveu quantas pessoas morreram nessa guerra. Não escreveu
que a guerra mata e destrói."
Livros.
Deram-me livros para ler.
Conversavam.
Havia os de direita, os de esquerda,
os de meio de campo e os do muro.
Li um livro de poucas páginas
de Trotski. Muito prazer. Não sabia quem era Trotski.
O livro contava sobre um grupo
revolucionário que tomava o poder à força, matava
as lidernças e assumia o poder.
Porém, em poucos meses, se
tornara um governo muito parecido com o deposto. Corrupção,
arranjos políticos internacionais.
Se a intenção de
Trotski era mostrar que a revolução teria de ser internacional
para dar resultados, minha compreensão foi diferente.
Se cada ser humano não se
transformasse, não seriam partidos políticos nem programas
econômicos que iriam mudar o mundo.
Somos corrompíveis quando
nossos corações podem ser rompidos, partidos, sem capacidade
de mantê-los íntegros.
Cor rompido - coração
rompido, roto, quebrado.
Era preciso trabalhar o coração,
a essência do ser, a mente humana.
Pedem-me uma matéria de
arquivo sobre sociedades alternativas.
Califórnia nos Estados Unidos
estava em seu apogeu.
Fascinante.
Havia música, havia hippies,
havia comunidades Zen reciclando, usando energia solar. Era a contracultura.
Não à guerra.
Amor e Paz.
Filmes, música.
Cabeça pensando, girando.
Tanta dor.
O boneco do policial morto no assalto
a banco. Falar com a esposa, pedir a foto.
Doía.
Como lidar com a dor?
Bebia.
Juntos saíamos da redação
pela madrugada, jantar regado à vinho.
Trombava comigo mesma, com o carro,
com a rua, com as pessoas.
Karate-do para auto-defesa, provocara
meu primo Sergio Dias dos Mutantes.
Fui lá.
Era bom. Atividade física.
Meu primo músico sorria
ao andar na rua.
A mesma rua em que eu andava séria,
para não ser incomodada pelos homens.
Os homens e as mulheres não
eram inimigos nem ameaça para ele.
Alegria. O que era essa liberdade?
Fiz uma matéria especial,
sobre um barco indo de Santos a Parati, Angra dos Reis.
Viagem linda, mar azul, pessoas
num barco - quem seriam, por que estariam ali?
A matéria saiu truncada,
errada, manchada pelo cansaço ou pela tristeza de alguém?
Magoada, ofendida pedi licença.
Precisava ir para Londres, onde
tudo fervia.
Beatles, Pink Floyd, The Who, John
Lennon e Yoko Ono, Carole King.
Música.
Descubro música. Ouço,
apreendo das letras outras maneiras de ser, de ver o mundo.
Londres - espelho mágico.
Entro no espelho mágico.
A mágica no ar.
Estou à procura de Deus.
À procura de mim mesma.
Experiências com mescalina,
LSD.
Desabrochar de uma nova consciência.
Aldous Huxley. Jung na BBC fala
de Budismo.
Há muita ligação
da Inglaterra com a Índia.
Começo a meditar.
Não saberia dizer ainda
que meditava.
Sentada em silêncio na sala.
Ouvir música precisa de silêncio. Quem pode ouvir falando,
ou mesmo cantando junto?
Silêncio.
Amores, desamores. Encontros
e desencontros.
De volta ao Brasil a meditação
se intensifica.
Om! Om! Om!
Livros, pesquisas, procuras.
Mutantes e shows de rock'n roll.
Alice Cooper e o Iluminador do
show.
Vou para os Estados Unidos, caso-me
com o Iluminador. Compramos um Buda para colocar os incensos.
Medito topless na praia de Cocoa
Beach, na Flórida, entre os backstages de Tampa.
Muitos shows, muitos famosos, bons
músicos, maravilhosos. Concertos e concertos.
Voltamos ao Brasil e voltamos aos
Estados Unidos.
Contracultura norte americana.
Quero ir para Berkeley, onde tudo parece estar acontecendo - a inteligência
do mundo.
Ficamos em Los Angeles.
Inicio meditação regular.
Emprego no Banco do Brasil.
Prendo os cabelos longos e despenteados.
Troco as calças jeans rasgadas (de velhas, de
usadas). Aulas de ballet clássico.
Hollywood. Artistas. Self Realization Fellowship,
Pramahamsa Yogananda ji. Pratico
em casa, visito o centro da Self em Sunset
Boulevard. Faço exercícios
de energização. Corro com o cachorro por Hollywood Hills.
De repente um livro, presente de
um vizinho, sobre ondas mentais alfa. Entrevistam um
monge budista.
Uma frase desse monge me faz procurar
na lista telefonica pelo Zen.
Zen Center of Los Angeles.
Chego e me encontro lá,
sentada, respirando em plena atenção.
O cheiro do incenso, a maneira
de sentar, a jovem que me orienta. Cheguei em casa.
Aos poucos vou deixando o ballet
para vir ao zazen.
Depois deixo o Banco do Brasil
e me interno na comunidade zen. Prática incessante.
Quero ser monja.
Aqui estão as resposta à
todas as guerras.
Sinto-me como uma revolução
viva. Sou a contracultura. Ou a cultura da paz.
Não mais drogas, não
mais roupas comuns.
Votos monásticos. Acolhendo
todo meu passado como a tapeçaria de minha vida que me
trouxe ao aqui e agora.
Vou para o Japão onde fico
por doze anos em sistema de internato e semi-internato.
Difícil.
Ser Zen.
Não fui a única pessoa
que encontrou no Zen Budismo o caminho da alegria, da
tranqüilidade e do engajamento
social.
Não fui a única pessoa
que encontrou no Zen Budismo o caminho da alegria, da tranquilidade e do
engajamento social.
Um engajamento sem lutas, sem violências.
Uma proposta de transformar o mundo, sendo a transformação
que queremos do mundo. Nos Estados Unidos, na Europa, no Canadá,
na Austrália e no Brasil. Houve o Zen "boom".
Houve o Zen Ocidental. Há
o Zen Internacional.
Que todos os seres se beneficiem
e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado.
Mãos em prece
Monja Coe
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