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por: José
Francisco Botelho
O jovem Percival estava exausto
depois de cavalgar o dia inteiro. Meses antes ele tinha partido dá
corte do rei Artur em busca de fama e aventuras, mas naquela noite tudo
que ele queria era dormir. Foi quando avistou um castelo. Os portões
estavam abertos e Percival entrou. Lá dentro foi recebido por um
certo "Rei Pescador", um velho nobre que o convidou para a ceia. Antes
do banquete começar, duas crianças atravessaram a sala. Primeiro
um menino passou trazendo nas mãos uma longa lança, cuja
ponta sangrava como se estivesse viva. Logo depois surgiu uma menina em
roupas majestosas, carregando um recipiente de ouro puro, incrustado pelas
jóias mais preciosas da Terra. O clarão era tão intenso
que as velas do castelo perderam o brilho. Percival ficou deslumbrado,
mas, por timidez, não perguntou o significado daquilo. No dia seguinte,
o cavaleiro seguiu viagem. Aquela cena nunca mais sairia de sua cabeça.
Um dia, ele decidiu reencontrar os tesouros e desvendar seus segredos,
ainda que a aventura lhe custasse a vida. A busca pelo Graal acabava de
começar.
Essa história foi escrita há mais de 800 anos, por volta de 1190. Ela faz parte do livro “Le Conte du Graal” ("O Conto do Graal"), de Chrétien de Troyes, um dos maiores escritores franceses da Idade Media. O livro deixava de explicar muitas coisas. Afinal, que recipiente dourado era aquele? Quem era o Rei Pescador? Por que a lança sangrava? Como acabou a busca de Percival? Poucos anos depois, Chrétian morreu, deixando todas essas perguntas sem resposta. Pelo que se sabe, O Conto do Graal
foi a primeira referência ao tema na história. A Bíblia
não fala uma palavra sobre o Santo Graal e seus poderes. O livro
de Chretien incendiou a imaginação dos europeus do século
12 e acabou se tornando uma verdadeira obsessão para leitores e
escritores. Tudo indica que O Conto do Graal foi uma espécie de
best seller de sua época o primeiro de uma longa série
de sucessos literários inspirados pelo tema. Com o tempo, foram
surgindo explicações para as coisas estranhas que aconteciam
na história e tanto o recipiente dourado quanto a lança começaram
a ser interpretados como relíquias dos tempos bíblicos. O
Graal, que começou sua história no reino da ficção,
foi sendo transformado pelo imaginário coletivo em uma das peças
centrais da mitologia do cristianismo um objeto divino, dotado
de poderes miraculosos e capaz de diminuir a distância entre Deus
e os homens. Uma imagem tão poderosa que até hoje há
quem diga que ele realmente existiu.
Após a Idade Media, a "lança
que sangra" ficou meio de lado nas páginas da literatura, mas o
Graal continuou sua carreira de sucesso.
AS RAIZES MEDIEVAIS É bom avisar logo: para a pergunta acima não há resposta. O que se sabe é que graal é uma palavra do francês antigo que indica uma espécie de tigela utilizada nas refeições dos aristocratas. Alguns acreditam que o Santo Graal seja um artefato arqueológico cujos rumos podem ser traçados desde a Antiguidade até os dias de hoje. Para outros, ele a um símbolo esotérico ou um ideal filosófico. Muita gente afirma que ele nunca passou de fantasia literária. A estréia do Graal nas páginas
da ficção, no livro de Chrétien, ocorreu em uma das
épocas mais dinâmicas e criativas da história: os séculos
12 a 13, que assistiram a uma revolução nas sociedades européias.
"Em todos os aspectos da vida e da cultura, o período foi decisivo para a formação do Ocidente", diz o medievalista Jose Rivair Macedo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “As cidades se multiplicavam e se expandiam, o comércio renascia e por todo lado ocorriam grandes mudanças sociais a econômicas.” Esse clima também se refletiu na literatura, dando origem aos primeiros poemas e romances das línguas européias modernas antes só se escrevia em latim, e para poucos. Chrérien de Troves, autor
de diversos romances sobre as lendas do rei Artur e dos cavaleiros da Távola
Redonda, foi um dos escritores mais lidos dessa época revolucionária.
Embora tenha sido o primeiro a escrever sobre o tema, há quem diga
que o Graal não foi uma invenção sua. A figura de
um "recipiente sagrado'' era comum na mitologia do povo celta, que habitou
a Europa Ocidental na Antiguidade, antes da chegada dos romanos. Entre
as crenças celtas, havia a do caldeirão de Ceridwen, que
continha uma "poção da sabedoria", e a do caldeirão
de Bran, dentro do qual os guerreiros mortos ressuscitavam. Para muitos
estudiosos, o Graal de Chrétien é herdeiro dessas lendas,
mais antigas que o próprio cristianismo.
Ao longo dos séculos, circulou
a tese de que Chrétien encontrou a história do Graal em algum
manuscrito desaparecido. Essa opinião se baseia nas palavras do
próprio autor: na obra ele cita um livro anônimo cujas revelações
teriam servido de inspiração para o seu conto. De acordo
com alguns historiadores, isso talvez não passe de um truque literário.
Ao contrário do que acontece nos tempos atuais, a Idade Média
não via a originalidade com bons olhos. Os escritores tinham o hábito
de citar autoridades reais ou imaginárias para dar força
a suas próprias criações. Ainda assim, a idéia
de um manuscrito original contendo a "verdadeira" história do Graal
tornou se comum na Idade Media. Muita gente afirmou ter encontrado o texto,
mas ninguém convenceu completamente os historiadores. Se Chrétien
inventou o Graal ou se o encontrou numa narrativa antiga, é coisa
que provavelmente jamais saberemos.
Ainda mais incerto é o significado que Chrétien pretendia dar aos tesouros do Rei Pescador. Embora o conto fosse um trabalho de ficção, era comum que literatura a teologia se misturassem na Idade Media, com uma facilidade que pode ser difícil de compreender para a mente materialista do século 21. A religião estava presente em todos os aspectos do dia a dia: nobres e plebeus acreditavam no poder das relíquias (veja quadro), viajavam centenas de quilômetros para visitar túmulos de santos e viam por todos os lados presságios do Juízo Final e sinais da providência (ou da ira) divina. Naquele mundo saturado de misticismo, o público estava acostumado a encontrar símbolos religiosos em meio aos enredos de seus romances favoritos. Nos 30 anos seguintes, a história de Percival seria recontada por diversos autores, que acrescentaram novos detalhes e deram ao Graal aspectos diferentes. Para alguns, ele é um relicário contendo a hóstia. Para outros, uma taça ou uma simples tigela. Em Perlesvaus, obra anônima escrita por volta de 1210, o Graal é um objeto mutante, que assume cinco formas diferentes. Segundo o romancista, "nenhuma dessas transformações pode ser revelada" aos mortais comuns, exceto a última: a forma de um cálice. Alguns acreditam que o Graal cálice reflita o fascínio medieval pela cerimônia da Eucaristia, na qual a hóstia é consagrada como sendo o corpo de cristo o momento mais solene a dramático da fé católica. Mas foi nas páginas do Roman
de L'Estoire du Graal ("Romance da História do Graal"), escrito
entre 1200 a 1210 pelo poeta francês Robert de Boron, que o Santo
Graal ganhou sua versão mais popular. Robert criou uma explicação
"histórica" para o misterioso tesouro: o Graal seria o prato ou
o vaso no qual Jesus partiu o pão na ultima ceia, mais tarde usado
pelo seu discípulo Jose de Arimateia para recolher o sangue de Cristo
na cruz.
Depois da crucificação, essa relíquia teria passado por várias peripécias na Terra Santa até aportar em solo europeu, onde teria ficado escondida atrás das muralhas de um castelo encantado. Segundo o livro de Robert, o objeto tinha poderes sobrenaturais, entre eles o dom de curar feridas, espantar demônios, fazer a terra florescer e revelar segredos apocalípticos. O Cálice Sagrado funcionaria como uma ligação do plano material com o metafísico uma espécie de ponte entre o humano e o divino. Em outros romances, a origem da
"lança que sangra" também é desvendada. Ela é
descrita como a arma usada pelo soldado romano Longinus para rasgar o flanco
de Cristo durante a crucificação. Segundo uma velha crença,
o golpe dado por Longinus representa o momento exato da morte do Messias.
Logo, a lança seria nada menos do que a arma usada para matar Jesus.
Não espanta que depois de tantos séculos ela continuasse
ensangüentada.
Todas essas teses fortaleciam a
crença de que os objetos avistados por Percival fossem mais do que
simples tesouros. Eles eram as maiores relíquias do cristianismo
os mais sagrados entre todos os objetos sobre a terra.
AS NOVAS LENDAS O poeta bávaro Wolfram von Eschenbach, que viveu entre os séculos 12 a 13, foi responsável pela versão mais surpreendente do Santo Graal na Idade Media. Sua obra prima, Parsifal, escrita entre 1210 a 1220, sugere que o Graal era muito anterior a Cristo. Em vez de prato, vaso ou cálice, ele é descrito como uma pedra luminosa, trazida à Terra por espíritos celestiais quando o mundo era jovem. O Graal pedra teria sido guardado através dos séculos por uma irmandade de cavaleiros, os tempieisen (pronuncia se "templáisen"), no castelo de Munsalvaesche. Wolfram era um autor criativo e suas obras estão cheias de palavras inventadas e lugares imaginários ninguém sabe o que podiam ser os tempreisen ou que lugar era Munsalvaesche. A história de Wolfram tem
semelhanças curiosas com a lenda do Al Hajarul Aswad
rocha negra guardada na Caaba, centro da Mesquita de Meca , o objeto
mais sagrado do islamismo. O poeta bávaro pode ter sofrido influência
de autores muçulmanos, numa época em que os árabes
dominavam boa parte da Europa.
Segundo lendas antigas, o AI Hajarul Aswad caiu dos céus nos tempos de Adão e tem o poder de purificar os fiéis de seus pecados. Outros acreditam que o Graal de Wolfram seja uma alusão ao "lápis elixir", ou pedra filosofal, substância mítica que os alquimistas medievais consideravam capaz de prolongar a vida e transformar qualquer metal em ouro. Parsifal pode estar na origem de outra lenda que passou a circular no fim do século 13. Segundo ela, o Graal era uma esmeralda que havia adornado a coroa de Lúcífer, o anjo mais poderoso dos exércitos dívinos. Essa lenda afirma que a coroa foi despedaçada pela espada do arcanjo Miguel quando Lúcifer ousou revoltar se contra Deus. O anjo despencou para o fundo do Inferno e a esmeralda caiu na Terra como um meteorito. Mais tarde, ela seria encontrada por um sábio chamado Titurel e esculpida na forma de um vaso. Livros como esse alcançaram
uma popularidade tão grande que, de acordo com o medievalista francês
Philippe Walter, deram origem a uma verdadeira "Era do Graal" na cultura
da Idade Média. Logo o Santo Cálice ultrapassou os limites
da ficção e entrou no reino da possibilidade histórica.
Começaram a correr rumores de que ele se encontrava de fato em algum
lugar da Europa (veja o mapa abaixo).
Para os interessados em rastrear
o "verdadeiro Graal", o livro de Wolfram, com seus detalhes exóticos
e alusões obscuras, foi um prato cheio. Parsifal cercou se de polêmicas
nenhuma delas mais persistente do que a levantada pela palavra templeisen.
No inicio da Idade Contemporânea,
surgiu a tese de que a irmandade citada em Parsífal fosse uma referência
à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão
os templários. Para entender o fascínio que essa teoria exerceu
(e ainda exerce) sobre leitores e escritores, é preciso dar uma
olhada na controversa trajetória dos templários
um drama real, mas tão intenso a surpreendente que também
poderia ter saído das páginas de um romancista.
OS TEMPLÁRIOS Em 1095, incitados pelo papa Urbano
II os cristãos da Europa organizaram um ataque à Terra Santa,
então dominada por muçulmanos. Essa invasão foi a
Primeira Cruzada e seu resultado foi a conquista de parte do território
onde hoje fica Israel e a Palestina. Apesar da vitória militar,
o território continuou sob litígio e, portanto, não
era dos lugares mais seguros para cristãos. Por isso, 20 anos depois,
foi fundada a Ordem do Templo, com o objetivo de proteger os peregrinos
cristãos em visita aos santuários. Os membros da ordem uniam
o treinamento militar às regras monásticas além dos
votos de pobreza e castidade, eles juravam defender a fé a golpes
de espada.
Apesar do voto de pobreza a ordem adquiriu uma especialidade nada franciscana: ganhar dinheiro. Ao longo dos séculos dedicados a proteger cristãos, os templários receberam de nobres agradecidos muitas doações de terras e dinheiro. Além disso, eram beneficiados por isenções de impostos e foram aos poucos montando uma frota naval que se tornaria maior que a de qualquer Estado cristão. Seu sucesso no mundo financeiro foi tão grande que "os defensores de Cristo" acabaram se tornando banqueiros. Emprestavam dinheiro, aceitavam depósitos, controlavam investimentos. Cem anos após sua fundação, a ordem transformara se numa verdadeira companhia multinacional, mais rica que qualquer pais cristão. A influência política dos templários cresceu junto com sua riqueza. Nos séculos 12 a 13, os cavaleiros trabalhavam como conselheiros e diplomatas nas cortes dos reis e no próprio Vaticano, compartilhando segredos de Estado e contando com privilégios legais. É claro que tanto poder gerou inimigos. E a situação dos templários piorou muito em 1291, quando os muçulmanos, depois de dois séculos de luta, finalmente expulsaram os cristãos da Terra Santa. Nas primeiras horas de 13 de outubro
de 1307, Felipe, o Belo, rei da França, ordenou a prisão
de todos os monges guerreiros do país, sob acusação
de heresia. Começava um dos julgamentos mais famosos e (aparentemente)
injustos da história. As acusações incluíam
o culto do demônio, homossexualismo a insultos a hóstia
crimes que, na Idade Media, eram motivo de sobra para a pena de morte.
Na opinião da maior parte dos estudiosos, tudo não passou de calúnia. "Nenhum historiador de renome admitirá como verdadeira essa miscelânea de tolices", escreveu o medievalista inglês Malcolm Lambert no seu livro de 1992, “Medieval Heresy” ("Heresia Medieval', sem versão brasileira). Torturados e amedrontados, muitos templários se declararam culpados. Vários monges guerreiros pereceram nas câmaras de tortura, nas profundezas dos calabouços ou nas fogueiras da Inquisição. Outros se mataram de puro desespero. Em 1315, o papa Clemente V extinguiu oficialmente a ordem e parte das suas propriedades foi parar nas mãos de seu maior algoz o rei da França. A maior parte dos historiadores
aposta que os monges guerreiros tenham sido dizimados por motivos políticos
e econômicos. O rei Felipe estava falido e confiscar a fortuna da
ordem seria uma ótima solução para ele. Mas há
teorias que dizem que a perseguição teve razões mais
misteriosas. Elas falam num fabuloso "tesouro dos templários", que
incluiria quantidades absurdas de ouro, prata a jóias, além
de artefatos sagrados encontrados na Terra Santa. Essas teses começaram
a tomar forma apenas entre os séculos 18 e 19 época
em que surgia, simultaneamente, um renovado interesse pelos mitos do Cálice
Sagrado. O Graal tinha sido esquecido no início da Renascença,
quando todos os medievalismos saíram de moda. Agora, no entanto,
o mito do Cálice Sagrado renascia com força total, inspirando
diversas obras primas do Romantismo, entre elas a opera Parsifal, do compositor
alemão Richard Wagner.
Não demorou muito para que estudiosos sugerissem que o suposto "tesouro perdido" dos templários, nunca encontrado, fosse nada menos que o Graal. No século 19, as obras de Wolfram foram resgatadas e o erudito austríaco Joseph von Hammer Purgstall foi o primeiro a afirmar que os templeisen eram na verdade cavaleiros templários. Para ele, a Ordem do Templo servia de fachada para os adeptos de uma seita pagã que adotava o Graal como uma espécie de ídolo satânico. Segundo essa tese desvairada, a matança dos templários não tinha nada de injusta foi apenas uma reação da Igreja contra esses conspiradores demoníacos. Hoje, a maior parte dos historiadores
descarta a teoria como pura imaginação. "O vínculo
entre templários e o Graal é implausível", escreveu
o medievalista inglês Richard Barber em “The Holy Grail: Imagination
and Belief “ ("O Santo Graal: Imaginação a Crença",
publicado em 2004 e ainda sem tradução no Brasil). "A Ordem
do Templo era uma sociedade militar com fins práticos e não
tinha nenhum interesse em misticismo ou teologia", diz.
Ainda assim, com sua irresistível
mistura de erudição a conspiração, o pesquisador
austríaco abriu as portas para teorias mirabolantes que relacionam
templários, o Cálice e algum grandioso segredo escondido
entre as páginas da história.
O CÁLICE POP No século 20, a lenda ganhou interpretações que soariam inacreditáveis para os contemporâneos de Chrétíen de Troyes. Em 1920, a inglesa Jessie Weston imaginou uma explicação sexual: o vaso seria um símbolo da vagina e a ``lança sangrenta" adivinhe representaria o pênis. Houve quem viajasse ainda mais longe. Na década de 80, o pastor anglicano Lionel Fanthorpe, presidente da Associação Britânica de Pesquisas Ufológicas, sugeriu, no livro “The Holy Grail Revealed” ("O Santo Graal Revelado", não traduzido no Brasil), que o Cálice tivesse sido "trazido à Terra por uma nave espacial". Uma das teses mais famosas
e também das mais controversas é a do livro “O
Santo Graal e a Linhagem Sagrada”, de 1982. Os detratores da teoria reclamam
da lógica peculiar do livro, onde coincidências servem como
provas e suposições viram argumentos. Por exemplo: os evangelistas
às vezes se referem a Jesus como "um rabino" e, na antiga Judéia,
os rabinos tinham que ser casados. Logo, Jesus devia ter uma esposa. E
ela devia ser Maria Madalena, a "pecacadora que Jesus salvou do apedrejamento.
Em seguida, o livro interpreta a
expressão francesa ‘San Greal’ (usada em alguns textos medievais
para indicar o Cálice Sagrado) como uma corruptela de ‘sang real’
(em francês amigo, "sangue de rei"). O Evangelho de Marcos afirma
que Jesus era descendente dos reis Davi e Salomão - logo, o tal
sangue real pode ser uma referência à linhagem terrena de
Cristo. De suposição em suposição, os autores
chegam à hipótese de que a crucificação foi
uma farsa. Jesus, que se considerava herdeiro do trono de Jerusalém,
fugiu para a França com a esposa e seus filhos. Sua descendência
teria continuado viva com os merovingios, dinastia francesa que reinou
nos primeiros séculos da Idade Média. Perseguidos pela Igreja
Católica, que temia perder seu poder sobre os fiéis, os herdeiros
de Cristo teriam sobrevivido graças à proteção
adivinha de quem? - dos templários.
Graças ao gosto moderno por
intrigas esotéricas e complôs universais, essa teoria acabou
se transformando num fenômeno pop. Ainda que poucos pesquisadores
a levem a sério, ela acabou definitivamente assimilada à
mitologia do Santo Graal. As idéias contidas em “O Santo Graal e
a Linhagern Sagrada” serviram de inspiração para best sellers
internacionais como ‘Os Filhos do Graal’, de Peter Berling, sucesso na
Europa na década de 80, e ‘O Código Da Vinci’, de Dan Brown,
que vendeu 17 milhões de exemplares pelo mundo e virou filme pelas
mãos do diretor Ron Howard.
Ao que tudo indica, a saga do Graal está longe de acabar. Relíquia católica símbolo pagão ou estrela do entretenimento, ele continua uma imagem capaz de significar muitas coisas em muitas épocas diferentes e é nesse poder camaleônico de sugerir e ocultar, iluminar e confundir, que se encontra o segredo de sua longevidade. Desde os tempos da cavalaria até
a era da comunicação em massa, o Graal sempre foi um objeto
mais do reino da ficção que da história. Mesmo assim,
ao longo desses 800 anos, ele nunca parou de mexer com a imaginação
humana. O Código Da Vinci não é o primeiro best seller
a ter o Graal como estrela. E pode ter certeza de que não será
o ultimo.
por: José Francisco
Botelho
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