XAMANISMO
| Tido como a mais antiga e pura
forma de contato com mundos extrafísicos, o xamanismo vem sendo
estudado por cientistas e adotado por milhares de pessoas como uma alternativa
à sociedade tecnológica, que cada vez mais se afasta da espiritualidade.
por: Gilberto Schoereder Nas civilizações primitivas, os xamãs tinham uma posição privilegiada, atuando como espécie de feiticeiros nas tribos. Eles eram responsáveis pelos rituais de purificação, exorcismo e comunicação com os espíritos, o que conseguiam realizar entrando em estado alterado de consciência e penetrando em outras dimensões da existência. Agindo em beneficio da sociedade, esses seres especiais protegiam as pessoas e criavam elos entre os mundos visível e invisível algo absolutamente indispensável, uma vez que no xamanismo todas as coisas materiais têm seu equivalente espiritual. Esse contato com outras realidades não é equivalente ao que ocorre, por exemplo, no espiritismo ou seja, o xamã indígena não incorpora entidades, mas se movimenta no mesmo ambiente em que elas se encontram. Entre as formas mais usadas para entrar em estado alterado de consciência estão ritmos repetidos de instrumentos de percussão e a ingestão de poções vegetais. Já os modernos seguidores
do xamanismo empregam outros métodos, como técnicas de hipnose,
meditação, luzes, sons ritmados, música, ondas eletrônicas
e, ainda que não muito comentado, também as beberagens. O
escritor, filósofo e etnofarmacologista Terence McKenna
um dos maiores nomes na área e autor de “O Alimento dos Deuses”
entende que a utilização de certas drogas naturais, especificamente
os cogumelos dotados de psilocibina, não só teve grande importância
na atuação dos primitivos xamãs como foi um fator
preponderante no desenvolvimento da civilização humana. Sem
abrir mão da investigação científica, que faz
parte de sua formação acadêmica, McKenna procurou traçar
esse desenvolvimento humano apresentando informações que,
se não chegam a convencer os antropólogos ortodoxos, pelo
menos levantam uma série de questões interessantes.
Êxtase Natural Não são muitos os que defendem abertamente o uso de drogas psicodélicas como caminho da salvação, mesmo porque a maioria dos estudiosos entende que o êxtase atingido através de danças, cantos e música são mais comuns do que os obtidos com drogas. E entenda se que, quando McKenna fala de psicodélicos não está se referindo ao LSD e seus filhotes químicos, mas aos cogumelos e algumas plantas amazônicas, ambos empregados em rituais xamânicos desde a pré história com efeito cientificamente comprovado. Nesse sentido, a planta amazônica mais conhecida no Brasil é o daime, um tipo de cipó cuja utilização originou o Culto do Santo Daime, bastante popular no norte e com penetração nas grandes cidades. Na Amazônia andina existem os correlatos ayahuasca e yagé praticamente o mesmo cipó com denominações diferentes, todos trazendo o mesmo princípio ativo conhecido como DMT. O uso desses cipós na América, assim como o da mescalina, são os mais bem documentados historicamente. O escritor Aldous Huxley, por exemplo, registrou em livro suas experiências com mescalina em 1954 as mais comentadas sem dúvida estão no livro As Portas da Percepção , mas já se conhecia sobre a droga bem antes disso. A mescalina é o princípio ativo do peiote, um tipo de cacto utilizado pelos índios no sudoeste dos EUA e que se difundiu até o Canadá. Os primeiros estudos sobre a planta foram publicados em 1886, mas os espanhóis que chegaram ao continente já se referiam a ela. McKenna entende que essas plantas têm a vantagem de acelerar o contato com as dimensões extrafísicas, ao contrário de outras práticas como os exercícios de respiração, o yoga ou as diversas modalidades de meditação. Segundo ele, a diferença básica entre as experiências com LSD e similares e aquelas com plantas é que as primeiras transportam a pessoa para um espaço mental construído a partir de suas experiências passadas ou a lançam para um futuro projetado; as plantas colocariam a pessoa no centro de uma dimensão diferente, que coexiste com a nossa ainda que normalmente não possamos vê Ia, e na qual existem entidades tentando se comunicar conosco. Vale lembrar que nem todas as modernas
seitas xamânicas aceitam o uso dessas drogas. Mesmo reconhecendo
que já fizeram parte dos rituais, hoje os métodos são
outros.
Na Dimensão dos Anjos Em um ritual xamânico, pessoas com formação cristã costumam vislumbrar anjos, seres celestiais ou de luz; outras, com formações culturais ou religiosas diferentes, têm encontros com entidades das matas ou com seu animal totem, o animal de poder um animal cujas características se assemelham à personalidade da pessoa e que pode ser invocado em inúmeras circunstâncias para ajudá la. O transe xamânico costuma levar o praticante a visitar locais maravilhosos, de natureza exuberante, mesmo quando seu corpo físico encontra se em meio ao caos das grandes cidades. Magos, ocultistas e místicos, pela sua formação, entram em contato com todo tipo de seres, de elementais a espíritos superiores. Em outras palavras, as formas nas visões ou viagens variam, mas costumam trazer conselhos e ensinamentos que acabam tendo grande impacto na vida da pessoa, chegando inclusive a transformar sua vida. Independente da crença e da cultura, o deslocamento para outras realidades é algo comum em todos que já experimentaram as técnicas do transe xamânico. Alguns especialistas dizem que nesses momentos a mente funciona sob condições anormais, produzindo o que hoje chamamos de fenômeno paranormal. Isso levou alguns estudiosos a relacionar esse tipo de experiência com a projeção astral. O etnólogo e historiador
Ivar Lissner já dizia que os xamãs da Sibéria não
podiam ser definidos exatamente como magos ou curandeiros, mas como uma
espécie de médiuns. Quando atinge o êxtase divino,
diz-se que o espírito do xamã deixa o corpo físico
e é capaz de produzir uma série de fenômenos, atualmente
já estudados em laboratório. Essas habilidades foram confirmadas
por vários pesquisadores, inclusive Mircea Eliade um dos antropólogos
mais famosos do mundo, que presenciou situações onde ocorria
a leitura de pensamento, clarividência e curas milagrosas.
Xamanismo e Ciência O estado de transe ou estado alterada de consciência é comum entre os médiuns modernos. Alguns parapsicólogos não vêem muita diferença entre o espírito do xamã, que sai do corpo para desvendar mistérios e visitar lugares em outras dimensões, e a mente de um médium, que consegue ver o que acontece em locais distantes ou enviar e captar mensagens mentais de forma quase instantânea. As duas operações necessitam do que o escritor e filósofo Colin Wilson definiu como “concentração e interesse”, apoiados por um conjunto de crenças ou valores profundamente enraizados. A última proposição pode até ser discutível. É verdade que experiências paranormais como telepatia ou precognição ocorrem com maior freqüência quando a pessoa acredita que elas irão ocorrer, mas existem inúmeros relatos de fenômenos transcendentais em pessoas sem qualquer interesse no assunto e que até os consideravam uma bobagem. Talvez a presença desses
fenômenos em culturas xamânicas seja maior por não existir
desconfiança nelas. Segundo Colin Wilson, "A crença do primitivo
em tudo
Mas a própria pesquisa científica
sustenta a noção de dimensões alternativas ou universos
paralelos. Na parapsicologia, cientistas citam a existência desses
universos como uma das explicações para fenômenos complexos
como a preeogniçâo. E mesmo a moderna física quântica
encara a possibilidade da existência de dimensões paralelas
com naturalidade.
Entrando em Transe Em diversas regiões do planeta foram encontradas estatuetas relacionadas aos rituais xamânicos, mostrando figuras humanas com as mãos unidas no centro do peito postura que a antropóloga Felicitas Goodman considera capaz de induzir ao transe. Essa posição também é utilizada pelos esquimós, pelos xamãs do México, da Nova Guiné, da Melanésia e já foram encontradas em pinturas do período paleolítico superior (cerca de 35 mil a.C.) nas cavernas de Lascaux, França, e em estatuetas do antigo Egito, o que comprovaria a antigüidade das atividades xamânicas. Alguns estudiosos acreditam que, além dos ritmos e danças, os xamãs antigos usavam posturas diversas para entrar em diferentes tipos de transe. Como o xamã costumava resolver os mais variados problemas em sua sociedade desde a escolha do local apropriado para a caça até a localização de pessoas ou objetos desaparecidos para cada situação ele realizava um tipo de viagem à dimensão dos espíritos. Os índios do Novo México, por exemplo, até hoje utilizam a postura conhecida como chiltan ou chamada dos espíritos, quando a alma dos ancestrais é evocada para ajudar em determinadas questões. Durante o transe é muito comum os xamãs verem entidades na forma de animais. O urso é bastante comum em algumas regiões considerado um animal sagrado desde a pré história mas também aparecem aves e felinos. Certas tribos dizem que cada pessoa tem um animal representativo de sua personalidade e, quando entra em comunicação com o mundo invisível, ela pode vê lo. Tanto o animal totem quanto os ajudantes espirituais têm funções parecidas com as dos anjos cristãos, sendo considerados guias de luz. Mesmo entre os xamãs das tribos mais primitivas ocorre a visão de entidades puramente luminosas e sem forma definida, que tanto podem ser considerados guias para a vida da pessoa quanto para o mundo invisível. Aliás, esse mundo ou dimensão
invisível parece funcionar segundo suas próprias regras,
o que não exclui a possibilidade de enganos e a necessidade de um
conhecimento prévio das leis que o regem. Quando esteve na Amazônia
realizando pesquisas sobre o xamanismo, o etnólogo Michael Harner
teve uma experiência de transe durante a qual viu pássaros
negros que se diziam Mestres do Universo. Ao relatar isso para o xamã
que o orientava na viagem, este riu e disse: "Eles sempre pensam que são".
Publicado na Revista Sexto Sentido
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