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por: Carlos Orsi
Em artigo recente para a newsletter
da Livraria Cultura, o jornalista
Eduardo Martins (autor do Manual
de Redação e Estilo de O Estado de S.
Paulo) comenta o distanciamento
entre a linguagem cada vez mais
especializada do noticiário
político e o português nosso do cotidiano.
Expressões comuns nas páginas
de política, como "baixo clero" ou "base
aliada", funcionam como uma espécie
de chamada metafórica para as
notas de rodapé, evocando
idéias ou conceitos mais elaborados. O
problema é que as tais notas
de rodapé não estão no fim da página, e
sim na cabeça do leitor.
Se não estiverem, se o leitor for um novato
no assunto, a falta de um contexto
comum acaba sabotando o esforço de
comunicação.
Se a ausência de um contexto
comum pode condenar ao fracasso uma
tentativa de comunicação
entre dois falantes da mesma língua, membros
da mesma espécie, habitantes
do mesmo país no mesmo planeta, o que
dizer de uma tentativa de comunicação
com outras civilizações do
Universo?
Mesmo se um dia conseguirmos detectar
sinais de rádio emitidos por
formas de vida inteligentes de
fora da Terra, como poderemos saber o
que eles estão dizendo?
A falta de um contexto comum mínimo faz com
que, em princípio, o abismo
entre SETI (busca por inteligência
extraterrestre) e CETI (comunicação
com inteligência extraterrestre)
parece intransponível.
A questão, no entanto, já
foi estudada – um ótimo livro sobre o
assunto é Beyond Contact,
de Brian McConnell – e não é tão
desesperadora assim. Um exame mais
detalhado da situação mostra que
existem, de fato, dois pontos de
contato entre nós e qualquer
civilização que venha
a ser detectada por nossos radiotelescópios:
ambos vivemos no mesmo Universo,
e ambos sabemos como construir e
operar um transmissor de rádio.
Conclui-se, portanto, que ambos
entendemos alguma coisa de matemática
– cujas regras fundamentais são
as mesmas em todo o Universo e sem a
qual é impossível
construir uma antena parabólica capaz de transmitir
sinais de rádio a distâncias
interestelares.
A idéia, portanto, é
usar a matemática como ferramenta para
estabelecer um vocabulário
comum. Esse vocabulário pode ser
apresentado a partir de uma série
exaustiva de exemplos – como AZAYAA,
AZAZAYAAA, etcétera, etcétera,
para tentar mostrar que "Z" corresponde
à adição e
"Y", ao conceito de igualdade. Claro que, em vez de letras,
os sinais da mensagem seriam dígitos
binários, mas o espírito é esse.
A idéia geral foi expressada
no livro LINCOS: Design of a Language for
Cosmic Intercourse (LINCOS: Projeto
de uma Língua para Intercurso
Cósmico), do matemático
Hans Freudenthal, publicado em 1960. "LINCOS"
é uma abreviação
do latim "Lingua Cosmica".
Até hoje, nós terráqueos
não usamos nada parecido com LINCOS para
enviar mensagens ao espaço.
Mas quem sabe? A idéia é lógica o
suficiente para que algo semelhante
tenha ocorrido a uma outra
civilização que esteja
querendo puxar conversa. O melhor que a maioria
de nós pode fazer, por enquanto,
é manter o SETI@home rodando. E
esperar. |