| De acordo com o pesquisador Henry
Ansgar Kelly, o Satã da Bíblia é um ser moralmente
correto, com a tarefa de perseguir e acusar pecadores. Mas sua biografia
foi deturpada pelos patriarcas da Igreja Católica.
Se a gente fosse fazer um retrato
falado de Satanás, ele sairia mais ou menos como Hellboy, das histórias
em quadrinhos de Mike Mignolla. Peço desculpas aos fãs, pois
o personagem da HQ, no fundo, é um sujeito de bom coração
- enquanto o Diabo (alguém duvida?) quer mais é atazanar
o ser humano.
Mas a comparação vem a calhar, pois é de maniqueísmo que estamos falando. A cultura ocidental se acostumou a pintar o Universo como uma guerra cósmica entre o bem e o mal. E o mal tem a cara do Diabo, um monstrengo escarlate de chifres e rabo, quase sempre com um tridente em punho. Agora pasme: essa imagem simplesmente
não existe na Bíblia. Pelo menos é isso que demonstra
o pesquisador americano Henry Ansgar Kelly, professor emérito da
Universidade da Califórnia, no livro Satã: Uma Biografia.
Kelly garante que a história original do demônio - aquela
que está registrada nos textos bíblicos - foi deturpada ao
longo dos tempos. Na verdade, o Diabo não seria assim tão
ruim quanto se pinta. E a "difamação" começou lá
atrás, nos primeiros séculos do cristianismo, por obra de
patriarcas da Igreja como são Jerônimo.
Para o pesquisador americano, a
Bíblia revela que o demônio era uma espécie de "empregado
de Deus" - uma entidade moralmente correta, encarregada de perseguir e
acusar os pecadores. No século 2, porém, os pais da Igreja,
ao interpretar o episódio bíblico de Adão e Eva no
jardim do Éden, associaram-no à imagem da traiçoeira
serpente. A partir daí, diz Kelly, ele foi sendo transformado em
inimigo de Deus, até virar a representação máxima
do mal.
Mitologia satânica Uma visão menos maniqueísta
do Diabo, como a proposta por Henry Kelly e outros autores modernos, parece
estar em sintonia com o conceito de "mal" observado em algumas religiões.
No hinduísmo e no budismo, por exemplo, existem criaturas malignas,
como os demônios hindus Asuras, ou as criaturas infernais budistas
chamadas Naraka. Mas elas não são personagens centrais como
o Diabo é na mitologia cristã. "O maniqueísmo clássico
é o do zoroastrismo", afirma Kelly. Nessa antiga religião
originária da Babilônia, existe um deus 100% benevolente,
chamado Ahura Mazda, e um espírito totalmente mau, conhecido como
Angra Mainyu ou Ahriman.
Uma das versões de Satã
mais fascinantes talvez seja a encontrada no islamismo. Também chamado
Iblis, o demônio dos muçulmanos é um anjo caído,
assim como o dos cristãos e o dos judeus. As similaridades se dão
até no nome: shaitan, em árabe. Mas ele tem uma tarefa que
os outros não têm. Segundo a crença islâmica,
todos os recém-nascidos são tocados pelo diabo na hora do
nascimento - para que, mais adiante na vida, possam fazer a escolha que
bem entenderem entre o certo e o errado.
O shaitan do islamismo, contudo,
não é nem de longe tão maléfico e assustador
quanto seu equivalente cristão. Na tradição judaico-cristã,
nada pode ser mais perverso, traiçoeiro e perigoso que o demônio
- um servo extraviado do Todo-Poderoso, que acabou sendo expulso do Reino
dos Céus porque trazia em sua essência o nefasto e contagiante
princípio da corrupção universal.
Morada do capeta A ideia de inferno existe em todas as religiões Inferno parece ser coisa séria,
pois todas as religiões têm o seu. Para os antigos gregos,
ele era o tártaro (pior região do hades, o mundo do além).
Os hebreus chamavam-no de gehenna.
E os muçulmanos até hoje se referem a ele com uma palavra
parecida: jahanna. No hinduísmo, inferno é naraka - termo
usado também no budismo, mas com outra acepção, a
de "seres infernais".
A descrição mais vívida
do inferno talvez seja a de Dante Alighieri no clássico A Divina
Comédia, de 1321. O "Inferno de Dante", como ficou conhecido, é
composto de 9 círculos.
O primeiro destina-se a cristãos
não batizados e pagãos virtuosos (aqueles que não
tiveram a "sorte" de aceitar o cristianismo em vida). Abaixo dele, há
círculos para adúlteros, glutões, avarentos e preguiçosos.
A coisa começa a esquentar, literalmente, no 6º círculo,
o dos heréticos. O 7º círculo, reservado aos violentos,
é terrível: suas vítimas são banhadas num rio
de sangue fervente. No 8º, para fraudadores, o pecador fica imerso
num mar de excrementos.
...E o último é gelado,
surpreendentemente gelado. Nele ficam os traidores - a escória da
escória humana.
Texto Álvaro
Oppermann
Super Interessante Março de 2009
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