| Esta seita é diferente das
demais no sentido de que o adepto se inicia sozinho, e não necessita
de um guia que o oriente pelos diversos graus. Fora isto, tem todas as
outras características de um culto: devoção suprema,
vestes, cerimónias e segredo estrito.
Abramelin o Mago, escreveu o Livro
da Mágica Sagrada, numa época desconhecida. Foi traduzido
em inglês em 1898 e tornou-se o manual do culto. Seus ensinamentos
beiram a magia negra. Muitos adeptos acreditam que o livro contém
todas as respostas relativas às cerimónias mágicas.
Fornece um sistema completo de treinamento mágico e seu autor afirma
que, mediante a concentração e o emprego de certas figuras,
o leitor adquire poderes mágicos graças à assistência
e à orientação de seres sobrenaturais. Há muitos
cultos que baseiam suas esperanças sobrenaturais nesta obra.
Alguns estudiosos acreditam que
o autor viveu e publicou seu livro na Antiguidade, mas há muitas
dúvidas a este respeito. De qualquer maneira, foi traduzido do hebreu
para o francês em 1458. Seu autor é um judeu, que o legou
ao filho com a advertência de que só deveria ser usado de
acordo com as recomendações indicadas no texto.
O Livro da Mágica Sagrada
apresenta alguns tabus curiosos. Por exemplo, nenhum príncipe, rei,
ou personalidade importante jamais obterá resultados com a leitura
do livro. As crianças e os animais não devem ter contato
algum com os diagramas místicos incluídos na obra, caso contrário
estarão sujeitos a grandes riscos. Por outro Lado, não é
necessário ser judeu para tirar proveito do Livro da Mágica
Sagrada. Segundo o autor, qualquer um pode ser iniciado na obra, contanto
que não tenha renegado a fé em que nasceu.
Antes de conjurar os espíritos,
conforme as instruções do livro, o mágico deve escolher
um local adequado para suas práticas. Tanto a cidade quanto o campo
são ambientes aceitáveis. No campo, o lugar ideal é
um bosque; o mágico levantará ali um pequeno altar coberto
com folhagens para protegê-lo das intempéries. Na cidade,
a cerimónia pode ser praticada num pequeno quarto com sacada e janelas,
de modo que o mago possa olhar em todas as direções. Os espíritos
não precisam entrar no quarto; basta que apareçam na sacada
e entrem em comunicação com o mago ali. O assoalho do quarto
deve ser de pinho claro e o piso da sacada deve estar coberto com uns cinco
centímetros, pelo menos, de areia branca. É indispensável
ter no quarto um turíbulo de bronze, uma lamparina de azeite, urna
coroa, um cajado, um cinto, óleos, duas e incenso. Uma túnica
deve ser bem ampla e de linho branco; a outra, vermelha e dourada, chegando
até os joelhos. O cinto é de seda branca; a coroa é
de seda e
bordada a ouro. Todos estes objetos
devem ser conservados imaculadamente limpos, sobretudo as túnicas.
O artigo mais importante é
o óleo para esfregar no corpo. Sua fórmula deve ser observada
escrupulosamente: uma parte de mirra liquida; duas partes de canela em
pó; meia parte de rizoma de galanga. Adicionar óleo de excelente
qualidade na medida exata da metade do peso dos demais ingredientes.
O incenso é feito de aloés
e estírace. O báculo ou cajado, de amendoeira.
A cerimónia é comprida
e monótona, e as instruções do livro de Abramelim
devem ser seguidas extatamente. Durante as primeiras duas luas, ou meses,
o mago se banha cuidadosamente todas as manhãs e veste roupas limpas.
Quinze minutos antes do nascer do sol, ele se ajoelha diante do altar no
oratório, dirige suas orações a Deus, confessa seus
pecados, pede perdão e dá graças por todos os benefícios
que recebeu no dia anterior; depois roga que um anjo lhe seja enviado para
dirigi-lo. As orações não possuem nenhum aspecto particular.
Os fiéis do culto de Abramelim dizem que as orações
evoluem naturalmente à medida que a cerimónia prossegue.
As janelas do quarto devem permanecer
fechadas e ninguém, a não ser o mago, pode entrar no oratório.
Ele ocupa o quarto pegado ao oratório. O local deve estar sempre
muito limpo. Durante estes dois primeiros meses, o mago deve evitar contatos
físicos com sua mulher, no caso de ser casado. A roupa de cama deve
ser trocada todas as sextas-feiras, ou véspera do sabá, que
corresponde ao sábado dos cristãos. O quarto também
deve ser perfumado nestes dias. Nenhum animal pode entrar no quarto. E
nos quatro meses seguintes, o mago não pode ter relação
física de espécie alguma, nem mesmo com sua mulher. Em suma,
deve levar uma existência bem tranquila e, se possível, bastante
solitária.
Duas horas por dia são dedicadas
à leitura dos livros santos. O mago não deve comer ou beber
mais do que for necessário para seu sustento, e deve tomar um cuidado
especial com a embriaguez. Deve possuir ao menos duas mudas de roupa, de
sorte que possa trocá-las todas as vésperas do sabá.
Se, por infelicidade, cair doente durante este período, tem permissão
para rezar na cama.
As orações continuam
as mesmas durante os dois meses seguintes, com a única diferença
de que são encompridadas. São ditas duas vezes por dia durante
os primeiros quatro meses, e três vezes por dia nos últimos
dois meses. E, a partir do segundo mês, o mago deve lavar o rosto
e as mãos com água fria antes de se dirigir ao oratório
e invocar o auxílio dos anjos.
O terceiro período de duas
luas traz algumas modificações. O mago retira agora os sapatos
antes de penetrar no oratório. As janelas são abertas novamente,
a lâmpada de óleo é acesa, e carvão é
posto no turíbulo. O mago coloca a coroa, o cinto e o cajado junto
ao altar. Segura o óleo santo na mão esquerda e atira incenso
nas brasas do turíbulo.
Depois, ajoelhado, entoa a seguinte
oração: "Ó misericordioso! Ó Deus pacientíssimo,
bondoso e generoso! Ó Vós que dispensastes vossas graças
de mil maneiras para mil gerações; Vós que perdoastes
os pecados e os danos praticados pelo género humano". O restante
da oração varia de acordo com os desejos individuais. Em
geral o mago menciona sua indignidade, pede para obter a devoção,
a purificação, a santificação e o poder de
controlar os espíritos.
Ao terminar a oração,
o mago 1evanta-se, esfrega uma gota de óleo santo no meio da testa
e faz o mesmo nos quatro cantos do altar. O óleo santo é
aplicado também nas vestes da cerimónia, na coroa, no cinto
e no cajado. Feito isto, o mago escreve com o óleo estas palavras
nos lados do altar: "Nos lugares onde meu nome for lembrado, virei até
ali e te abençoarei".
Assim termina a consagração.
Os paramentos são guardados de novo no armário do altar.
Nada do que foi consagrado pode ser retirado do oratório.
Depois disto a cerimónia
entra numa nova fase. O mago necessita de um assistente; um menino de seis
anos é o ideal. De qualquer forma, não deve ter mais de oito
anos. O menino é vestido todo de branco, e tanto sua roupa quanto
seu corpo devem estar imaculadamente limpos. Um véu branco cobre
seus olhos. O menino é o intermediário que vai entrar em
contato com o anjo da guarda e aconselhar o mago em sua busca dos poderes
mágicos. O mago também cobre os olhos com um véu,
mas de seda preta. Os dois entram juntos ao oratório. O menino acende
o carvão do turíbulo e ajoelha-se em frente ao altar. O mago
prostra-se no chão, rogando ao anjo da guarda que apareça
ao menino. O mágico não pode olhar diretamente para o altar
durante esta fase da cerimónia.
Uma bandeja de prata foi colocada
em cima do altar. O menino aguarda que o anjo da guarda apareça
e escreva sobre a bandeja. No momento em que o anjo deixou sua mensagem
em cima da bandeja, o menino apanha-a e entrega-a ao mago - e ambos saem
imediatamente do oratório. O menino é mandado para casa no
primeiro dia e ninguém mais pode voltar ao oratório. A janela
do quarto continua aberta, para que o anjo possa entrar ou sair, e a lâmpada
permanece acesa.
Segundo o livro de Abramelin, o
anjo da guarda só costuma aparecer no terceiro dia. Entretanto,
os mesmos rituais devem ser observados no segundo dia, com uma única
diferença. O mago deve rezar mais tempo, pelo menos durante três
horas, suas emoções devem ser mais fortes, e seu desejo de
ver o anjo mais pungente.
Se tudo correr bem, na manhã
do terceiro dia o oratório será banhado por uma luz brilhante
e por um perfume glorioso, e o anjo se manifestará em pessoa. Falará
com o mago e suas palavras produzirão uma grande alegria. Aconselhará
uma vida exemplar e o arrependimento de todos os pecados. Depois ensinará
a mágica verdadeira. Dirá ao mago a maneira certa de dominar
os espíritos malignos e permanecerá em sua companhia o resto
da vida. Nunca o abandonará e se manifestará visivelmente
toda vez que for necessário.
O mago dedica o terceiro dia a tomar
notas das instruções fornecidas pelo anjo da guarda sobre
a maneira de comandar os espíritos malignos. O dia só termina
ao pôr do sol. Aí o mago entoa a oração da noite
enquanto o incenso queima no turíbulo. Dá graças também
ao anjo por ter vindo em seu auxilio.
O texto original de Abramelin tem
413 páginas escrito a mão. Nem todas elas são dedicadas
à maneira de entrar em contato com o anjo da guarda. Uma boa parte
é autobiográfica e dirigida especialmente à intenção
do filho. Uma outra parte do livro apresenta uma série de diagramas,
quadrados mágicos de natureza cabalística que são
usados na invocação dos espíritos quando os outros
meios malogram. Na realidade, uma grande porção do material
do livro é desnecessário, já que o mago, ao conjurar
com êxito o anjo da guarda, recebe todas as instruções
do próprio anjo.
Como apenas uma minoria de pessoas
se dedica ao culto do anjo da guarda, não é possível
calcular aproximadamente o número de adeptos desta seita. Muitos
mago famosos pertenceram a este culto, um deles foi Aleister Crowley, o
outro Eliphas Levi.
Os métodos ensinados no livro
de Abramelin foram utilizados por inúmeros ocultistas. De fato,
se procurarmos vestígios de sua influência no Oriente, constataremos
que cerimónias semelhantes foram praticadas pelos árabes,
persas e indianos. As obras do célebre mágico mouro El Buni
apresentam rituais para conjurar os espíritos que são notavelmente
semelhantes aos de Abramelin. Por outro lado, a cadeira de ocultismo da
Universidade de Salamanca dedicou muitos comentários ao Livro da
mágica Sagrada, e o mesmo podemos dizer dos eruditos.


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