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Algo bonito a respeito do inconsciente na personalidade humana é
quando chega o tempo de crescer, quando as velhas formas, os velhos hábitos,
pavimentam o caminho e dão as boas-vindas aos novos. As velhas formas
de agir parecem perseguir as novas que desabrocham, mas, quem sabe, talvez
seja a maneira correta de dar à luz uma nova consciência.
É importante lembrar que um mito é algo vivo que existe dentro
de cada um de nós. Seremos capazes de captar-lhe a forma viva e
verdadeira se o imaginarmos como uma espiral girando sem cessar dentro
de nós; poderemos sentir como o mito está vivo dentro
da nossa própria estrutura psicológica. Todo “grande”mito
é o registro simbólico de um estágio de crescimento
na vida de um Ser na busca da sua individuação; é
um de-vir, isto é, um vir-a-ser que pulsa latente do inconsciente
e se traduz em linguagem a ser decifrada pelo consciente.
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O Mito nos mostra os conflitos e as ilusões potenciais da existência autêntica, mas também as possibilidades contidas na situação existencial presente. E, em certo sentido, nada é mais causador de conflito quanto a distinção do que seja o amor. Muitos o coloca em lugar onde certamente ele não se encontra, outros o confundem com outros sentimentos ou lhe atribui sentido equívoco, uma miscelânea de carência, desejo, poder..., O fato é que por amor o ser humano vem provocando guerras e, ao mesmo tempo, por confundi-lo com procriação, vem povoando a terra com entes mal amados porque de certa forma não desejados, não programados, um acidente de percurso no itinerário do amor. Afinal, o que buscamos quando dizemos que estamos “a amar” ? |
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O rei, casadas as duas filhas mais velhas e temendo, como Liríope, a cólera dos deuses por causa da beleza da mais jovem, mandou consultar o Oráculo de Apolo em Mileto. A resposta do deus foi direta e aterradora: Psiqué, coberta com uma indumentária fúnebre, deveria ser conduzida ao alto de um rochedo, onde um monstro asqueroso com ela se uniria. Eros, entretanto, que em lugar de ferir com suas flechas a jovem donzela, havia sido ferido por ela, ordenou ao vento Zéfiro que a transportasse para um vale macio e florido, que se estendia na orla da montanha. Após descansar de tantas emoções e restaurada faltando um sonho vivificador, a jovem princesa se ergueu e viu logo, cercado porum bosque, à beira de uma fonte, um palácio de sonhos: as paredes eram recamadas de baixos-relevos de prata; o pavimento, confeccionado de mosaicos de pedras preciosas; os imensos salões tinham paredes de ouro maciço. Naquela mesma noite da chegada da princesa ao vale dos encantos, Eros, sem se deixar ver, fez de Psiqué sua mulher, mas, antes do nascer do sol, desapareceu rápida e misteriosamente.
Toda noite Eros voltava ao vale e desposava a princesa e partia incógnito
e a jovem acabou por acostumar-se à sua nova existência: as
Vozes, atentas e solícitas, apaziguavam-na da solidão.
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A Fama , uma divindade que simboliza “a voz pública”, fofoqueira,
porém, denunciou a aventura de Psiqué e as irmãs
casadas, tristes e cobertas de luto, deixando seus lares, apresentaram-se
em visitar e confortar os pais.
Eros pressentiu a ameaça que pesava sobre a felicidade do casal e avisou a esposa do perigo iminente: as irmãs, dentro em pouco, viriam até o rochedo para chorá-la. Psiqué deveria fazer ouvidos moucos ás suas lamentações e nem sequer “olhar para ela”, para não incidir no mesmo erro de Orfeu... A jovem esposa tudo prometeu, mas tão logo o amante se retirou, incógnito com sempre, Psiqué se viu mais que nunca prisioneira da própria felicidade, impedida de consolar e até mesmo de ver suas irmãs (fofoca). |
Usando de persuasão e muita astúcia e sedução,
Psiqué consegui arrancar do esposo permissão não apenas
para vê-las, mas ainda o consentimento para que Zéfiro as
transportasse até seu palácio paradisíaco. Entorpecido,
Eros concordou com tudo, mas recomendou-lhe e implorou que jamais
tentasse ver-lhe o rosto, pormais que as irmãs insistissem nesse
ponto.
O encontro, a princípio, foi uma festa, um êxtase. às
Lágrimas de dor sucederam as manifestações de alegria
e regozijo. Persuadida pelo o ambiente do encontro, a ingênua Psiqué
ia-lhes abrindo os segredos de sua doce ventura, a abundância de
suas riquezas, as sementes da inveja começaram a germinar-lhes no
coração. Embaraçando-se cada vez mais com as perguntas
de uma das irmãs, Psiqué tratou-se de inventar respostas
e, cumuladas as irmãs de ouro e jóias, fez que Zéfiro
as levasse de volta ao rochedo. Mas agora envenenadas pelo fel da inveja,
começaram a questionar e confrontar a vida delas com o destino
luminoso da irmã mais jovem.
Eros, naquela mesma noite, voltou a advertir a esposa: Não vês
o perigo que de longe te ameaça ? Se não procederes com a
máxima cautela, o destino se abaterá sobre ti. As bruxas
traiçoeiras esforçam-se porte armar uma cilada e a pior armadilha
é persuadir-te a contemplar meu rosto. Já te adverti muitas
vezes de que nunca mais o verás, se o contemplares uma única
vez (...) Dentro em breve teremos um filho . Ainda uma menina, darás
à luz uma criança. Se guardares nosso segredo, ela será
um deus; se o propalares, será tão-somente um ser mortal.
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Os dias se passaram rápidos e o esposo noturno voltou, desta feita,
mais incisivo em admoestá-la de que chegara o momento decisivo:
as bruxas já se aproximavam, prontas para destruir-lhe a paz e a
felicidade. “Deixa-as uivar do cume do rochedo, como as Sereias, com sua
voz fúnebre”.
Novas lágrimas de Psiqué, novas promessas, novas juras de amor e o deus apaixonado novamente se curvou aos caprichos da esposa. As conspiradoras, entretanto, tal era a presa em executar seu plano sórdido, tão logo chegaram ao alto do rochedo , nem mesmo esperaram faltando Zéfiro, lançando-se temerariamente no abismo. |
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A contragosto, o Vento as acolheu e depositou no solo. Com fingida alegria
congratularam-se com a irmã pela gravidez, conseguindo, desse modo,
desfazer qualquer suspeita. Em seguida, vieram as perguntas, sempre
as mesmas: queriam saber quem era o marido de Psiqué. Esta, em sua
ingenuidade, se contradisse: na primeira visita dissera-lhes que o esposo
era um jovem lindíssimo e agora o descreveu como um homem de meia-idade,
um riquíssimo comerciante. Era o que lhes bastava: ou a irmã
estava mentindo, e o marido era um deus, ou ela simplesmente ignorava seu
aspecto.
De qualquer forma, era preciso destruir a prosperidade de Psiqué.
Passaram uma noite em claro em casa dos pais, matraqueando o plano que
deveria ser colocado em prática, já pela manhã, estavam
novamente no palácio de Eros. Com fingida e cínica preocupação,
mostraram à irmã o perigo que a ameaçava. Quem à
noite se deitava a seu lado não era um homem, mas uma serpente enroscada
em mil anéis, com as faces túrgidas de peçonha, a
boca larga como um abismo.
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Lembraram-lhe o Oráculo
de Apolo que a predestinava a unir-se a um mostro, reforçando seu
intento diabólico com a mentira: a medonha serpente, segundo camponeses
e caçadores da região, tem sido vista à noitinha,
atravessando o rio vizinho em direção ao palácio.
O mostro aguardava apenas o momento oportuno para devorá-la, bem como à criança que ela trazia no ventre. Elas, porém, as irmãs, ali estavam prontas para ajudá-la! Transtornada, Psiqué confessou-lhes a verdade: jamais contemplara o rosto do marido e pediu-lhes súplice que a protegessem e assistissem. Vendo que tudo estava aparelhado para o plano sinistro, há muito arquitetado, uma das bruxas o transmitiu à insegura e desditosa esposa de Eros: deveria ela preparar um punhal bem afiado e um candeeiro de luz bem forte. |
Quando a “serpente imunda” mergulhasse em sono profundo, seria o instante
propício: iluminar-lhe cuidadosamente o rosto e de um só
golpe cortar-lhe a cabeça. Embora tivessem prometido que permaneceriam
a seu lado, até a “execução do mostro”, tão
logo perceberam que o veneno fizera seu efeito, apressaram-se em deixá-la.
Sozinha, com o espírito transtornado, Psiqué se agita e parece
decidida a perpetrar o crime, mas eis que subitamente hesita, depois resolve;
vacila outra vez, desconfia das irmãs, se enfurece, lembra-se dos
ternos abraços do esposo... Seria ele, realmente, uma serpente imunda
? Psiqué num mesmo corpo odeia o monstro e ama o marido. Eis a ambigüidade
do amor ; mosntro ou fada, medo e curiosidade.
Eros a seu lado dormia tranqüilamente. Como fora de si, a jovem esposa
reuniu todas as suas forças: numa das mãos o candeeiro, na
outra o punhal. Muito de leve aproximou a luz do rosto do marido. Estava
revelado o grande segredo: viu a mais delicada, a mais bela de todas as
feras. Eros, o deus do amor, ali estava diante de seus olhos. Tomada de
pânico, a jovem quis matar-se, mas o punhal se lhe escorregou da
mão. Percebendo ao lado do leito a aljava e as flechas do deus,
ao tocá-las, acabou ainda por ferir-se com uma delas. Agora, mais
do que nunca, sua paixão seria eterna. Inflamada de amor, inclina-se
sobre ele e começa a beijá-lo como louca. Esquecida do candeeiro,
deixa-o curvar-se em demasia e uma gota de azeite fervente cai no ombro
do deus adormecido. Eros desperta num sobressalto e, ao ver desvendado
seu segredo, levantou vôo no mesmo instante; sem dizer uma só
palavra, afastou -se rapidamente da esposa. Esta ainda tentou segui-lo
através das nuvens, segurando-lhe a perna direita, mas, exausta,
caiu ao solo.
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Foi então que, descendo das alturas celestiais e pousando num “cipreste”,
Eros falou à sua amada: Quantas vezes não te admoestei acerca
do perigo iminente, quantas vezes não te repreendi delicadamente.
Tuas ilustres conselheiras serão castigadas em breve, faltando suas
pérfidas lições; quanto a ti, teu castigo será
minha ausência.
Estava decretado o início do itinerário doloroso de outra Psiqué. Fora de si, a princesa, desejando morrer, lançou-se às correntezas de um rio próximo, mas as próprias águas, numa corcova, repuseram-na em terra. . |
b) Breve análise e comentário.
Os símbolos presente neste mito são, como dissemos muito
significativos. O próprio amor aparece nele como símbolo,
algo a ser desvendado. Assim também é com as duas deusas,
uma representa o amor dos sentidos, Afrodite, enquanto a outra é
o amor personificado na alma, manifestação metafísica.
Psiqué é a inteligência, o amor em forma, idealidade.
Isto é; a paixão.
O “estar apaixonado” é uma característica suprahumana,
e a humanidade ainda não a sabe dominar, ou se quer conviver com
este estado de espírito. É um estado da subjetividade de
cada um que, muitas vezes , ao objetivar-se perde-se no objeto. É
um estado de crise, em que algo deve nascer como projeção
do inconsciente ao nível do consciente, não para se materializar,
mas para constituir-se como força metafísica na constituição
do si mesmo. Quando alguém se apaixona, seu ser é carregado
para estados inebriantes, para níveis de consciência muito
acima dos comuns, além dos que algumas pessoas têm capacidade
para suportar.
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É preciso saber diferenciar amar e estar apaixonado.
Amar alguém é ver a pessoa como realmente ela é, e
apreciá-la pelo ser que é, com suas falhas, com suas
banalidades e sua infinitude.
Se pudermos desfazer-nos da cortina de nevoeiro das tantas projeções
que fazemos na vida, a distinção entre amar e estar apaixonado
tornar-se-á mais fácil.
Amar nada tem de ilusório; é ver o indivíduo, vê-lo, mas não através de um determinado papel ou imagem que tenhamos planejado para ele. Amar é dar valor à individualidade daquela pessoa, dentro do contexto do mundo comum. |
Estar apaixonado é outra história, é uma intrusão,
para o melhor ou para o pior, é uma inundação de sentimentos
e emoção, proveniente de um mundo divino. De repente, vê-se
no ser amado um deus ou uma deusa, e através dele, ou dela, vislumbra-se
um estado de ser além do pessoal, além da consciência.
Sem limites.
O , ou A apaixonada, olha “através” um do outro. Cada um deles
está apaixonado faltando uma idéia ou um ideal, ou ainda
faltando uma emoção. Estão apaixonados pelo amor,
pela idéia de amar no outro o amor de si, projetado na ânima
ou no ânimus do outro. É ilusório, não dura,
se desfaz com a revelação, torna-se comun e não raro,
enfadonho, tedioso. O grande desafio dos apaixonados é manter-se
em tal estado, sem objetivar suas emoções. A paixão
não se traduz em amor automaticamente, é preciso um aprendizado
para se passar do ideal para o real , da paixão para o amor, do
finito para o infinito. Estar apaixonado é estar tocado pela deusa
Psiqué, sempre pronta a revelar-se como ilusão. Já
o amor tem mais a ver com Afrodite, enquanto Eros é a fonte
da dúvida entre uma e outra.
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A lâmpada e a faca são símbolos. A faca é aquela
capacidade destruidora que a mulher tem para afogar o homem com um torrente
de palavras. É o comentário arrasador, causador de confusão.
A lâmpada, faltando seu lado, simboliza o discernimento, a capacidade
de revelar o valor de seu homem com a luz de sua consciência.
O mito diz que Psiqué, ao acender a lâmpada, vê que
realmente desposara um deus . Fere o dedo em uma de suas flechas e se apaixona
pelo amor. Imediatamente após, perde-o. Como é comum essa
experiência em pessoas que enxergam divindade no ser pelo qual se
apaixona !
Amar é estar junto com o outro indivíduo, criar laços, somar-se a ele. Estar apaixonado é olhar através da pessoa e com isso perdê-la, inexoravelmente. Tragédia significa ver o ideal e não conseguir atingi-lo. |
Entretanto, pode-se transformar a paixão em amor, e é o que
os relacionamentos bem sucedidos conseguem.
Este mito oferece ainda outras chaves interpretativas, abrindo-se para
a compreensão da personalidade feminina, ânima, que
habita a essência do inconsciente masculino que busca sua outra metadade,
saudoso da sua androginia.
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A origem das duas deusas, Afrodite e Psiqué , são muito interessantes.
Quando os genitais de Urano foram cortados por Crono, caíram no
mar e o fertilizaram, dando nascimento a Afrodite ou Vênus. Faltando
outro lado, Psiqué nascera quando uma gota de orvalho caíra
do céu sobre a terra. A primeira é filha do conflito e da
discórdia, mãe da inveja. Psiqué é fruto do
céu, em si reúne desejo e vontade, através dela vê-se
o ideal faltando trás do real.
Em “O Banquete”, Platão, o tema é o amor. Para Aristófanes, o amor nasceu quando Zeus castigou os andróginos, cortando-os em dois: desde então, cada parte cortada procura a outra metade perdida. Mas Sócrates narra uma outra versão : o Amor é o filho da pobre e ignorante Pobreza e do rico e sábio Recurso. Como a mãe, está sempre mendigando e procurando, mas como o pai busca o que é belo e sábio. Entre esses dois extremos, o Amor ama a beleza da sabedoria sem ser sábio: ele é filósofo!... |
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Sobre cada mito pode-se falar a vontade sem no entanto esgotar seu significado e sentido. Aqui não se tentou esgotar nada, este texto constitui apenas em aperitivo para aqueles que sem medo queiram mergulhar nas profundezas do seu inconsciente e descobrir-lhe as potencialidades e possibilidades sempre a atualizar na construção da consciência. Daqui podemos entender melhor os opostos Eros e Tânatos, amor e morte, pois a paixão não canalizada para o amor pode tornar-se em rancores, rejeição, ódio, isto é; em guerra. Entender a estrutura do amor e as nuanças da paixão é questão de sobrevivência do Ser de cada um de nós.

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