| “Tenho uma sensualidade intensamente irritável,
aguda e de uma voracidade feroz, e no entanto incomumente terna e delicada,
a qual precisa ser estimulada, caso eu queira cumprir com a tarefa cruelmente
difícil de criar em minha mente um mundo que não existe.”
Wagner em 15.01.1854
Wagner teve em si uma espécie de poder cujo segredo reside em duas qualidades: perseverança e vontade. Muitas vezes, desencorajado, magoado, acreditou que a vida não pudesse ter senão novos tormentos, e entretanto depois de cada adversidade encontra na arte novo refúgio, o esquecimento completo das mesquinhezas do mundo. A produção musical de Wagner obedece à um ritmo interno que mais parece força da natureza que humana condição. E entretanto, ninguém mais que ele foi o
herói de suas obras, o personagem de seus dramas. Ele, que procura
eliminar de sua música tudo o que é subjetivo, ele que quer
atingir o “Puramente Humano”, ou seja, extirpar de sua obra tudo que não
diga respeito ao homem.
É aqui que Wagner se irmana com aquele glorioso ser que o Oriente e os Adeptos de todas as épocas sempre conheceram e admiraram como o esplendor do mundo, o Iluminado por excelência, e que na sua última manifestação foi o Príncipe Siddharta, Sakhia Muni, Gautama, o Buda. Buda sempre foi, realmente, um dos maiores mistérios do Ocultismo em todas as escolas secretas do mundo, conhecido como o mistério do Buda, ao qual a insigne Helena Petrovna Blavatsky faz referências em vários volumes da Doutrina Secreta, principalmente no sexto e último. Gautama só se preocupou com a humanidade e com os meios de Iibertá-la dos sofrimentos, da roda dos nascimentos e das mortes, ensinando-lhes as 4 Grandes Verdades que dizem respeito à dor que tortura todos nós e que ainda nos há de torturar durante séculos e séculos. Ora, o fato de ensinar aos homens o verdadeiro caminho da libertação, que sempre foi a preocupação máxima do “Tatágata”, d’Aquele que segue as pegadas dos seus predecessores no Caminho da Eternidade, bem mostra ser Ele o Espírito da Humanidade na sua mais excelsa condição, pairando acima, muito acima dos planos da Mente. Assim, Gautama, o Buda é a sua própria
síntese, a expressão que o coroa como reflexo ou vitória
dos homens, vitória da própria humanidade por Ele expressa.
Por esta razão, numa das suas palestras ou sermões, como
dizem os livros que tratam da sua vida e dos seus ensinamentos, Ele, referindo-se
à sua condição, diz a Ananda, um de seus discípulos:
“Ananda, Eu sou um vitorioso”.
Por esse motivo, Buda sempre se recusou a tratar das coisas que dizem respeito ao Universo, à evolução do Cosmos e a tudo que a ciência oculta possa tratar em relação à própria Vida Universal. Ele disse que ao homem convém saber o que é, e como se libertar desta escravidão que o traz agrilhoado à roda dos nascimentos. Este foi o seu grande trabalho. Ele sempre ensinou que é de maior interesse alcançar aquilo que está além desta consciência humana, que é diferente em cada vida, porque o homem está sempre se transformando; o homem de agora não é como o de há pouco, e o de amanhã é o efeito do de hoje. Esta transformação, esta impermanência,
acabará criando em cada um de nós, uma consciência
cósmica, fazendo todos idênticos a Ele, o “Tatágata”.
Aí está em essência, o grande mistério da evolução
e da imortalidade.
Pressionada a se defender, Elsa apenas transmite a sua
visão de um Cavaleiro andante. O Rei Henrique e os demais presentes
ficam muito comovidos, mas Telramund não se deixa impressionar.
Ele pede um julgamento por combate; então Elsa invoca o Cavaleiro
de sua visão. Por duas vezes os arautos e trombeteiros soam o chamado,
não há, porém, resposta. Elsa cai de joelhos rezando
e, à distância, surge um Cavaleiro num barco puxado por um
Cisne. Lohengrin se oferece como defensor de Elsa, mas a faz prometer que
jamais procurará saber seu nome ou origem. Eles se prometem um ao
outro e Telramund, desprezando os conselhos para que desista, se prepara
para o combate.
O 3º Ato se inicia na câmara nupcial,
onde Elsa incita Lohengrin para que conte o seu segredo e, a despeito de
seus protestos e advertências, acaba por perguntar diretamente quem
é ele. Telramund e seus asseclas invadem, neste instante, o aposento.
Lohengrin abate Telramund e ordena que o seu corpo seja levado perante
o trono para julgamento; lá ele responderá a pergunta de
Elsa.
A existência de Wagner, no sentido humano,
foi fortemente marcada pelo seu extremo nacionalismo germânico. Acreditamos
ter localizado a raiz desse nacionalismo nos seguintes fatos sobre a Alemanha
ou o Sacro Império Romano da Nação Germânica:
Essa tática da terra arrasada, pseudo-racional, calculada com precisão e metodicamente executada gerou um estado de choque psíquico nos que foram por ela afetados, um choque que liberou um potencial de medo, ódio e falta de escrúpulos morais que, durante os dois séculos e meio seguintes, teve consequências devastadoras para o psiquismo social não só de suas vítimas, como daqueles que haviam sido os responsáveis por esse horror. A “inimizade hereditária” entre alemães e franceses data de 1689, uma inimizade que viria a se tornar uma obsessão predominante por todo o século XIX.” Portanto esses fatos de 1689, nos mostram que Luís
XIV talvez tenha sido o responsável pelo “nacionalismo germânico”,
do qual Wagner estava profundamente embebido e foi um dos que mais trabalharam,
para a união dos povos germânicos num só país,
a Alemanha. Mas o que era a Alemanha em 1689, quando Luís XIV, desenvolveu
pela primeira vez na história moderna a política da terra
arrasada?
Não obstante as diferenças constitucionais
entre eles, os estados que cercavam as fronteiras do império (especialmente
os que ficavam a oeste) representavam esse tipo moderno de estado. A Reforma,
além do mais, deixara a Alemanha dividida do ponto de vista confessional,
o princípio de cuius regio, eius religio significando
que cada soberano territorial, incluindo até mesmo o principezinho
mais insignificante, determinava a fé de seus súditos. Somente
o imperador tinha de ser católico.
Finalmente, foi organizado na Alemanha um movimento de maior vulto: o agrupamento secreto de todos os príncipes germânicos e senhores feudais, dominando estradas, rios etc., ocultos na sombra. Tudo isso foi auxiliado por agentes misteriosos, através desses Cantores ou Trovadores (muitas vezes investidos de missões secretas, por isso mesmo, portadores de notícias, mas também, de ordens... que eram dadas de uma maneira tão engenhosa, passando de localidade em localidade, castelo em castelo, como um tal Jean Bonnet (J e B...), que pagou caro a sua ousadia na corte de Luís XIV... Do mesmo modo que, por intermédio desses filósofos e maçons, a que nos temos referido anteriormente, passando de cidade em cidade, de vila em vila, aldeia em aldeia, etc. Desse movimento oculto se manifesta um agrupamento tão valioso, que o Papado logo envia seus soldados para se apoderar do monge Lutero, o que não consegue, porque, em torno do mesmo se encontravam, por sua vez, os soldados do Príncipe de Saxe, que não deixam passar os de Roma. Grande foi a agitação que se deu no Vaticano! Porém o mais assombroso ainda é que alguns meses depois, a metade da Alemanha era protestante, embora, bem difícil seja modificar de uma hora para outra as opiniões religiosas de um povo qualquer; quanto mais daquele... O movimento que se seguiu ao da Reforma, foi designado pelo nome de Revolução Francesa.” Os príncipes alemães travavam guerras
e fechavam tratados não somente entre eles e com potências
estrangeiras, mas até contra o imperador. A Guerra dos Trinta Anos
(1618-1648) começou com uma desavença doméstica entre
católicos e protestantes alemães, mas logo transformava-se
num confronto entre todas as principais potências européias
por uma hegemonia disputada, fundamentalmente, em solo alemão. Quando
as hostilidades finalmente cessaram, metade da população
alemã havia morrido, e o país estava devastado e na miséria,
uma experiência traumática que, séculos depois, ainda
marcava a consciência alemã. Até então, porém,
o ressentimento não se dirigia contra nenhum vizinho em particular,
uma vez que o aspecto confessional superava todos os demais.
A Paz de Westfália, de 1648, deu ao rei da Suécia territórios dentro do império, de forma que, tal como o rei da Dinamarca, ele também tornou-se membro do império, França e Suécia dando apoio a uma constituição que, apesar de garantir a sobrevivência do império, na verdade cortava-lhe as asas. Impraticável em sua estrutura política, ele não se adequava a nenhuma teoria existente sobre os estados, e foi portanto descrito como uma “monstruosidade” (monstro simile) pelo jurista Samuel Pufendorf (1632-1694). Nessas circunstâncias, o senso de identidade nacional alemã estava fadado a ser diferente do de outras nações, especialmente as da Europa ocidental, na medida em que se baseava na idéia do império, na cultura alemã e na língua alemã, mas não em nenhum território ou razão de estado bem definidos. De um ponto de vista psicológico, 1689 iria demonstrar ser um ano de importância crucial na história da Europa: (como 1789, cem anos depois, também o foi, dizemos nós.) sob uma série de monarcas absolutos, a França, o mais moderno e poderoso estado europeu, havia desenvolvido gradualmente uma política de expansão imperialistas, ampliando seus territórios à custa de seus vizinhos, independente de sua nacionalidade, em especial aqueles que eram membros do Sacro Império Romano. Através dos dois séculos seguintes,
todos os importantes conflitos europeus foram travados em solo alemão,
a instabilidade da estrutura de poder do império quase que literalmente
convidando os invasores, enquanto Áustria e Prússia, as duas
principais potências germânicas, disputavam a hegemonia.
Estados alemães e não-alemães (Áustria e Hungria, Saxônia e Polônia, Hanover e Inglaterra, Holstein e Dinamarca, Pomerânia e Suécia), formavam uniões monárquicas isoladas, com uma tendência a uma união real e permanente. Os muito pequenos estados alemães só podiam sobreviver através da formação de alianças com outros estados, alemães ou estrangeiros. Por volta do final do século XVIII, a maioria
desses estados notabilizava-se, em termos de realidade social, pelo absolutismo
esclarecido de seus governantes e até mesmo por seu racionalismo
anticlerical, mas principalmente por suas estruturas legais e de propriedade
feudalistas. O poder era geralmente investido em corpos administrativos
burocráticos, de estrutura rígida, e em instituições
militares dirigidas pela aristocracia. A Alemanha ainda era um país
agrícola. De uma população de cerca de 23 milhões
de pessoas, menos de um quarto vivia em grandes cidades, das quais apenas
duas, Viena e Berlim, tinham mais de 100.000 habitantes.
A maior parte da população rural vivia em um estado de dependência feudal, os ofícios eram protegidos (de forma proibitiva) pelo sistema de guildas e suas constituições, e apesar destas últimas não terem como impedir a indústria fabril de evoluir, conseguiram deter seu crescimento graças aos laços feudais que prendiam o campesinato ao solo. Uma pré-condição para o progresso econômico e social era a liberdade de comércio e a emancipação dos camponeses (que compunham a maioria da população) de seus grilhões feudais. A classe média, emergindo lentamente como um grupo social no cenário internacional, ainda não era capaz de exercer qualquer influência decisiva em países amplamente agrícolas, nos quais as cidades eram geralmente de pequeno tamanho. Apoiando-se defensivamente nos “velhos direitos” tradicionais, incluindo os direitos das cidades e os privilégios dos patrícios e das guildas, ela tentou, em vez disso, opor-se às reivindicações de poder do principado absolutista, sem ser capaz de livrar-se de uma perspectiva basicamente passadista. A cultura da classe social dominante, em outras
palavras, dos príncipes e da aristocracia, estava inteiramente sujeita
às influências francesa e italiana, de forma que a burguesia,
com sua emergente consciência cultural, encarava príncipes
como Frederico “O Grande”, que escrevia melhor em francês do que
em alemão, como representantes de um imperialismo cultural descrito
como Welsch, em outras palavras, romanesco. Schiller refere-se a essa atitude
em seu poema Die deutsche Muse (A musa alemã).
Nem da Era de Augusto o esplendor, E nem
dos Medici o favor, Sorriram para a arte tudesca; Nunca lhe prestaram homenagem.
E quando se abriu, flor e folhagem, Não obteve a graça principesca.
Do filho germânico o mais rico, Do trono do grande Frederico, Só
lhe veio desprezo e opróbrio. Mas com força bate o coração,
E diz orgulhoso o alemão: Temos o nosso mérito próprio!
Em janeiro de 1867, Wagner expressou essa mesma idéia, ao compor
estes versos da fala final de Sachs ao povo de Nuremberg: literalmente,
“com falsa, romanesca majestade, príncipe algum saberá entender
logo o seu povo; implantarão, com futilidades romanescas, uma atmosfera
romanesca em nossa terra alemã.”
O império napoleônico, com suas pretensões
a domínio mundial, finalmente destruiu a estrutura do Sacro Império
Romano, entre 1804 e 1806, substituindo seu sistema de miríades
de estados, naquelas áreas da Alemanha que não haviam sido
diretamente anexadas, pelo chamado Rheinbund, um grupo de estados “centrais”,
recém-formados e dependentes, enquanto a Áustria e a Prússia
eram empurradas para leste: a Alemanha foi dividida, constitucionalmente,
em quatro partes, e agora não passava de um conceito geográfico.
O feudalismo foi formalmente abolido nas áreas cedidas à
França.
Em 1803, pelos termos do decreto conclusivo de uma comissão especial da Dieta Imperial, os príncipes alemães despojados da margem ocidental do Reno foram compensados por suas perdas pela concessão de propriedades secularizadas da igreja, enquanto os territórios seculares menores eram reduzidos à condição de vassalagem mediata e privados de seus direitos governamentais, minando dessa forma a base política do feudalismo também no resto da Alemanha. Uma consequência disso foi a emancipação do campesinato na Prússia, onde os laços feudais pessoais foram abolidos, abrindo o caminho para o crescimento de uma classe de trabalhadores assalariados “livres” e, daí, para o processo de industrialização. Apesar de a Revolução Francesa ter despertado na classe média alemã um senso de consciência nacional e política, a degeneração da Revolução forçou-a a uma aliança fatal com os poderes aristocráticos, governantes na Áustria e na Prússia, que eram ambos estados feudais passando por um processo de reforma sob a pressão das circunstâncias. Mas o imperialismo francês não só tornou uma união de aspirações democráticas e nacionais politicamente impossível, como também converteu-a em algo ideologicamente suspeito. Assim, as posições alemãs viram-se afetadas durante todo o decorrer do século XIX, fazendo com que grandes setores das classes cultas alemãs renunciassem à luta por responsabilidade política. Por volta de 1802, Schiller escreveu um esboço inacabado chamado “Grandeza Alemã”: “O império alemão e a nação alemã são duas coisas diferentes. A majestade dos alemães nunca repousou sobre a cabeça de seus príncipes. Os alemães estabeleceram o seu próprio valor independente, bastante isolado de qualquer valor político, e ainda que o Sacro Império Romano se reduzisse a pó, a dignidade alemã continuaria incontestada. Ela é uma entidade moral, vivendo na cultura e no caráter da nação, e que é independente de todas as vicissitudes políticas.” Essa mesma idéia retorna ao final de um
manuscrito de Wagner, de 1845, para Os mestres cantores de Nuremberg. (Os
versos em questão foram acrescentados em alguma data entre julho
de 1845 e dezembro de 1848.)
Se o Sacro Império Romano se desfizesse em fumaça, ainda nos restaria a sagrada arte alemã. Daqui chega-se em linha reta ao que Thomas Mann chamou de “internalização protegida por um estado forte” por parte dos filisteus “apolíticos” da cultura alemã no início do século XX. A Guerra de Libertação de 1813-1814, dessa forma, tornou-se não apenas uma luta pela sobrevivência nacional alemã mas, fica subentendido, uma luta pela sobrevivência do principado neo-absolutista. O Congresso de Viena, reunido pelas potências européias vitoriosas, Rússia, Inglaterra, Áustria e Prússia, sancionou a supremacia de forças conservadoras, reacionárias. As exigências do movimento de libertação nacional da classe média democrática, que havia ajudado a derrubar a hegemonia francesa, foram ignoradas, e o Sacro Império Romano foi suplantado por uma “Confederação Germânica” de 39 estados alemães soberanos, enquanto os democratas recebiam a promessa de “constituições”. O estado absolutista, porém, permaneceu em grande
parte inalterado.
Conta-se que a jovem soprano inglesa Carrie Pringle, que participou das récitas de Parsifal, em Bayreuth, em 1882, anunciou que faria uma visita a Wagner. O anúncio da visita dessa jovem parece ter provocado uma briga furiosa entre Wagner e Cosima que levou o compositor ao seu ataque cardíaco fatal. Portanto, Wagner, o Leão da Lei, morre a 13 de fevereiro de 1883, de infarto. Enterram-no em Bayreuth, no jardim de sua vila de Vahnfried.
Wagner havia feito cavar seu túmulo sob uma simples pedra, um grande
bloco de mármore, sem inscrição, sem epitáfio.
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