|
|
ou Reflexões sobre o Samhain por um praticante do Sul
por: Julio Cesar Guerrero
|
Saudações...
Uma questão que sempre me
interessou foi a noção de Tempo.
O tempo me pareceu sempre algo
tão misterioso que me recordo, muito cedo no tempo de minha vida,
questionar a natureza efetiva, real, não apenas descritiva desse
fenômeno.
Tempo.
Para Newton, os Aristotélicos
e Escolásticos era Absoluto, Eterno.
Hoje o sabemos - Relativo.
Outras linhagens de conhecimento
abordam o tempo de forma distinta daquela adotada pela civilização
hora dominante.
O tempo para esta civilização
na qual estamos inseridos é linear.
Ele avança sempre, em linha
direta.
Interessante esse mito do crescimento
eterno.
Ele influência a maior parte
das utopias que mantém este estado caótico e destruidor de
coisas no mundo.
Os que apenas servem ao sistema,
sendo oprimidos e trabalhando em escravidão quer explicita, quer
a implícita do assalariado, estes homens e mulheres crêem
que doando o dom da vida em sua função de peças descartáveis
da grande engrenagem, poderão um dia ter mais que migalhas do grande
bolo.
São levados a crer que tudo
vai crescer, crescer e o "progresso" vai atingí-los (as) e então
chegará a utopia.
Crêem que todos terão
seu carro, microondas, TV com DVD, etc. ...
Quando na realidade os estrategistas
de Ragnarock sabem que até água potável para as necessidades
mínimas, uma grande parcela não vai ter, já não
tem...
E os robôs continuam a delirar
e fizeram de seu delírio realidade.
A realidade que destrói
este seu mundo, agora enquanto escrevo, continua destruindo no tempo que
separa sua leitura deste aqui e agora no qual estou e continuará
destruindo quando você chegar no fim da página e tiver esquecido
este parágrafo (faça o teste e veja se lembra de não
se esquecer).
Eles querem alcançar tais
utopias.
Talvez não para si mesmo,
para os filhos ou mesmo netos.
Justificam a depredação
do meio com isto.
Justificam o pouco que se faz para
evitar o desastre ecológico global que já nos espreita tão
próximo e cada vez menos evitável.
Mas o fato é que quando
pensamos no ser Terra temos que pensar num aquário.
Tudo que fazemos a uma das partes
fazemos ao todo.
Ela está num ponto, isolada
pelo espaço e suas radiações.
Os recursos naturais são
finitos.
O Tonal da Terra sofre das limitações
de todos os Tonais e estão enfraquecendo e deturpando demais o Tonal
do Ser Terra.
A noção de tempo
absoluto ainda impregna as mentes.
O tempo linear também.
Isso leva a uma perda da complexidade
existencial.
Pois a visão de mundo determina
diretamente seu estado de consciência.
É uma relação
dialética, holística.
Respire fundo, relaxe seu corpo
e perceba onde você está.
Espreguice-se, alongue seu corpo,
de umas bocejadas.
Se você fez mesmo isso vai
perceber como sua sensação do mundo ficou mais aguda, como
você pode se ativar com esse exercício.
O corpo.
O corpo é nosso centro completo,
os outros níveis de realização que julgamos ter precisam
ser comprovadamente aferidos para que não deixemos a fantasia tomar
conta.
Quando sequer estamos presentes
na complexa realidade que nossos sentidos nos levam a perceber existente,
como podemos alegar sobre "clarividência" e outras possibilidades
mais, que temos, é verdade, mas que precisam do suporte efetivo
para nào serem oscilantes habilidades, que tem a inquietante característica
de se ausentarem quando delas mais precisamos.
Dizer que tem uma habilidade é
te-la sempre e com controle.
Desenvolver conscientemente o corpo
de energia, o corpo nagual, a 2 ª
atenção não
é para diletantes.
Ó Xamanismo Tolteca foi
mantido pelo clã guerreiro.
Há um estilo base, uma linha
fundamental de conduta que os guerreiros e guerreiras adotam.
Estar aqui e agora, pleno e intenso,
tranqüilos (as), observando os
augúrios e então
agindo com foco e impecabilidade rumo ao realizar de seu propósito.
Trilhar o caminho é o caminho.
Sabendo que todo caminho leva a
lugar nenhum, trilhamos apenas caminhos que tem um coração.
E no caminhar está o foco.
No tempo presente.
No aqui, que se manifesta a cada
momentod e uma forma, mas é sempre aqui.
É na maneira que o aqui
e agora se manifestam que está a chave.
Urge que eles se manifestem.
Estar aqui e agora, pleno presente
em tudo que fazemos é a chave de tudo que os(as) Xamãs das
tradições guerreiras fazem, pois agindo com foco e presença
suas atitudes deixam de dissipar energia para intensificar a energia.
Este é um ponto importante.
Atos praticados na ausência
de si, sem foco e presença dissipam energia.
esgotam quem os pratica, são
realizados no tempo desgastante.
Atos focados e conscientes, na
presença de si, vibram numa outra freqüência e ao invés
de dissiparem energia a acumulam.
E para os(as) xamãs guerreiros(as),
poder é energia acumulada.
Cada ato praticado como se fosse
seu último ato na Terra permite que você se coloque num estado
de espirito que atrairá com certeza vibrações similares,
vivências compatíveis e o elo com o ESPIRITO se fortalecerá.
Sem a clara compreensão
destes pontos qualquer rito de Samhain será um rito exterior, superficial
e decorado, agitará energias, mas não fará ressonar
outros orbitais da realidade, que é a meta destes ritos.
Pois não basta as portas
estarem abertas se você não captou a energia
necessária, a "Luz", os
fótons, para saltar de orbital.
O tempo é linear para esta
cultura, mas é cíclico para culturas nativas.
Ele permite que cada cultura flua
de acordo com seu potencial, que cada povo realize suas obras, que os eventos
aconteçam.
O tempo passa ou nós passamos
por ele?
Já comentei aqui que um
dos grandes erros que considero quando vejo algumas pessoas falando de
outras eras da humanidade é confundir a interpretação
com a realidade.
Em outras culturas o tempo fluía
diferente, o mundo era diferente.
Na antiga Bagdá um tapete
voador era algo normal, no antigo Egito os homens e mulheres que seguiam
os cultos dos deuses e deusas híbridos e se transformavam em animais
era grande.
O tempo flui, mas será o
tempo que nos prende?
Não seremos nós que
mergulhamos na dimensão tempo, como um boneco de barro mergulha
numa corredeira.
Depois, vê seu corpo de barro
se dissolver lentamente pela ação da
correnteza incessante e fica tentando
parar a correnteza, com conjuros e manobras das mais aberrantes, quando
a chave é apenas sair da correnteza, sair do rio Tempo?
O tempo cíclico tem outra
abordagem da realidade.
As coisas acontecem em ciclos.
Há fluxos, há períodos,
há momentos em que certos fluxos são mais intensos, noutros
há outros.
Culturas agrícolas foram
as que mais se desenvolveram na percepção e
celebração dos momentos
em que o fluxo se altera.
Num tempo cíclico teremos
momentos nos quais toda a energia que vinha acontecendo de uma forma se
transforma em outra.
Quem lida com a Terra de fato conhece
os ritmos da Terra, a época do plantio e da colheita e não
se equivoca querendo colher quando é época de plantar, ou
plantar quando é época de colher.
Sentir no corpo a energia da Terra,
ser vivente e consciente é a raiz do
poder de todo homem e mulher que
lida com a Vida e se apoia na Terra como ser vivo e na natureza como face
visível da Deusa.
Cultuar para um (a) pagão
(ã) não é implorar, não é "rezar", não
é
idolatrar.
É sintonizar-se, entrar
na freqüência da potência intermediária evocada.
É reconhecer no rito realizado
uma re-atualização do mito.
Há grandes transformações,
pequenas transformações, enfim, há muitas
mudanças no fluxo das muitas
energias que fluem pelo ser Terra e que também sobre nós
incidem, vindas da Eternidade.
O nascer e o por do sol em cada
dia são momentos de mudança.
Antes do sol nascer era madrugada,
a hora mais escura da noite, o quarto
ciclo do dia, o mistério
e a escuridão, onde as estrelas podem ser vistas.
Então nasce o sol.
O menino do Pólen vêm
pelos campos.
A criança andrógina,
o menino e a menina que mais tarde cavalgaram o cavalo solar começam
seu ciclo no leste, com o sol nascente.
O sol amadurece, chega na plenitude
da Tarde e então começa a se recolher.
Há um momento que o sol
se torna o sol velho, rubro alaranjado .
O crepúsculo é a
porta entre os mundos.
Nos ciclos do Tempo, quando o crepúsculo
de Samhain começa as portas entre os mundos são abertas como
em todo crepúsculo, mas quando a noite chega, neste dia, neste único
dia em todo o ano, as portas entre os mundos estão abertas, nào
são necessárias chaves, palavras de passe, toques, senhas,
encantamentos.
As portas se abrem, apenas isso.
Algumas tradições
ficaram fixadas na possibilidade de encontrar mortos e entes queridos que
foram em direção a grande viagem.
E acabaram atraindo espectros e
seres desejosos da energia de quem assim age, usando das fantasias e irresoluções
existenciais dos humanos que brincam de atravessar para outros mundos,
sem se resolver existencialmente aqui e agora.
E durante toda a noite as portas
ficarão abertas, pois é a força da Terra, a
consciência da Terra que
determina isso.
Samhain é um rito telúrico,
orgânico, agrícola.
O Galhudo envelhece, a Deusa está
grávida.
No auge do sol ele concebeu a si
mesmo no seio da Deusa, realizando antiga magia.
Agora é o momento de se
deixar ir, como o sol no fim de tarde.
O sol se vai, além do horizonte,
para mistérios só seus, vai viver outro
ciclo, mas para nós se foi.
O galhudo recolhe sua força agora, a Deusa leva seu sêmen
e poder em seu seio, seu papel foi cumprido.
O ancião se recolhe para
seu caminho escolhido, sabiamente.
A noite atinge seu auge.
Temos frio em alguns pontos deste
país.
Noites mais longas, dias mais curtos.
Este o sinal efetivo deste momento.
Não o clima, mas o fato:
Noites mais longas, dias mais quentes.
Tudo se altera com essa mudança
da luminosidade.
A chave para a magia desse momento
está aí.
Agora os dias vão ficar
nitidamente mais curtos e as noites mais e mais
longas até o momento do
grande nascimento.
Quando no auge, na noite mais escura
nasce o filho e a filha da luz.
Os gêmeos que sempre vieram
ao mundo, mas só um deles é conhecido, enquanto a filha leva
consigo sempre o segredo e o ventre, o saber e o filho.
E o galhudo crescerá novamente,
como seu filho.
Ciclicamente novamente haverá
primavera, verão, e outro outono como este, outro Samhain.
Mas tudo é sempre novo,
tudo é sempre aqui e agora.
Quando o sol renasce, quando o
primeiro raio de sol surge no horizonte leste as portas se fecham.
E quem aproveitou da noite de Samhain
e soube bem usar, terá transposto não apenas portais externos,
mas os internos, quiçá aqueles que levam a verdadeira liberdade.
A liberdade perceptiva.
A lembrar de si, a existir de fato
e nào como resultado da resultante de
energias externas a si.
O mover-se na existência
segue os fluxos resultantes.
O ser é força em
si.
Vontade como a chamam muitas escolas.
E não se desenvolve a vontade
involuntariamente.
Quando entrarmos em outros mundos
e/ou durante a noite de Samhain tivermos companhia de entes de outros mundos,
uma coisa a se observar é o AGIR.
Podemos AGIR de fato em outros
mundos ou só presenciar?
Podem de fato AGIR neste mundo
os entes que contatamos ou apenas
presenciar?
Este é o aprendizado que
muitos praticantes vêem como mais importante nesta noite mágica,
em que as portas estão abertas teluricamente, algo que egrégora
nenhuma pode fazer, pois por mais forte que seja a egrégora, ela
é só um aspecto da faixa de consciência humana e a
consciência da Terra é bem mais que a faixa de consciência
humana.
Já num rito telúrico
estamos nos fundindo com a consciência da Terra em sua totalidade,
indo além do humano.
E só os demasiados humanos
tem a paixão de ir tão longe, assim me parece, as máquinas
resultantes do condicionamento do sistema dominante parecem se contentar
com arrepios e simulacros.
O Rito reatuliza o mito.
As portas estarão abertas.
Teluricamente.
Algumas reflexões de um praticante.
Nuvem que passa
|
Volta
para
Índice da Tribo
Volta
para
Índice Themas Mágickos