Olá
Tudo na paz com vocês?
Segue um texto sobre esta questão controvertida
dos 500 anos do Brasil.
Grande abraço a todos vocês.
Paz e Luz!
Julio Cesar Guerrero
Tenho visto muitas pessoas falando
sobre os 500 anos do Brasil.
Agora inclusive está na
moda tentar fazer a "carta astral " do Brasil tomando como data de nascimento
do Brasil o momento do "Descobrimento"
Minha questão sempre foi:
Houve descobrimento? Ou houve invasão,
saque, genocídio, destruição de uma cultura complexa
e fascinante que hoje continua inclusive a ser destruída?
Historicamente já sabemos
que não houve acaso nenhum muito menos a tal "calmaria".
Cabral passou por aqui , a caminho
das Índias para tomar posse mesmo de uma terra que já sabiam
existir e que dentro da política expansionista dos reinos Íberos
devia ser anexada.
Enquanto os bárbaros cristãos,
incultos e supersticiosos, Fernão e Isabel ainda estavam terminando
de destruir a complexa e sofisticada cultura mourisca , com sua arquitetura
e universidades os Portugueses já se lançavam ao mar para
uma campanha imperialista de anexação de novos territórios
que fornecessem antes de mais nada ouro e prata para sua aristocracia
continuar no poder.
Não acredito que podemos
dizer que o Brasil nasceu no momento de seu "descobrimento" .
Isso para mim é fantasioso
e conivente com uma desinformação atroz, que via mídia
televisiva e outros veículos de manipulação sabem
que a melhor forma de controlar o presente e criar um futuro, é
inventar um passado.
O Brasil, enquanto nação,
nasceu num momento indefinido, e para tristeza dos astrólogos, talvez
nunca será possível saber a hora exata.
Existem outros sinais para dizer
que nascemos enquanto país? Não o momento da invasão.
Podemos dizer que o Brasil nasceu
quando os primeiros filhos dos portugueses e das índias que aqui
viviam nasceram.
Ou podemos dizer o que o Brasil
nasceu quando o sentimento de nativismo surgiu e os filhos desta terra
começaram a se
recusar serem chamados de portugueses e se orgulhavam
de ser brasileiros, título que para muitos era mesmo vergonhoso
em
sua ausência de identidade e necessidade de
indentificação com a metrópole, algo que continua
em muitos pseudobrasileiros de
hoje.
Para mim este é o momento
que uma nação nasce.
Quando a consciência coletiva
da raça deixa de ser uma continuidade dos povos que a geraram e
se torna de fato um
individualidade singular.
Associar o nascimento do Brasil
ao momento de sua invasão me parece de um equívoco tremendo.
Não havia Brasil ali ainda,
não havia interesse daqueles que ali chegavam de construir uma nação.
Eles vinham para saquear, enriquecer
as custas desta terra e voltar o mais rapidamente possível para
sua terra natal.
Creio que esta perspectiva histórica
não pode ser perdida, pois é a ausência da mesma que
ainda deixa este país tão ausente de si, independente mas
não soberano.
O fato é que os índios
que aqui viviam, em complexas organizações de vários
estilos, viram chegar um invasor sanguinário, supersticioso (corajoso
é verdade, pois lançar-se ao mar àquela época
era grande aventura) e impetuoso também.
Um povo alegre e que comemorava
a vida, que vivia em harmonia com a natureza viu chegar um povo triste
e cheio de culpa. Violento, opressor, que iria destruir a natureza antes
sagrada, escravizar e matar os índios e impor sua cultura e religião
de medo e de pecado.
Religião? (religare) Os índios
nào precisam de religião, pois não precisam se religar
a divindade, eles já viviam no paraíso.
Ironicamente vieram homens pregando
um paraíso futuro enquanto destruíam o paraíso presente
que eles viviam.
Desde o começo o choque
das culturas foi terrível para a civilização indígena.
Para mim, como pagão e praticante
do xamanismo, foi um ato muito simbólico a primeira missa.
Derrubaram uma árvore, mataram
um ser vivo, para fazer com ele, com o cadáver desta árvore,
uma cruz, a ser adorada.
Iam fazer o mesmo com o povo dessa terra, destruí-lo
enquanto essência para manter apenas seu "cadáver".
A conversão dos índios ou
sua escravização eram violências que diferiam apenas
na forma .
Os dois únicos capítulos
que assisti da mini série global: "A Muralha", pelo menos mostraram
isso com clareza, a forma violenta e destruidora que os invasores chegaram
e tomaram para si tudo o que queriam.
Se hoje a China invade o Tibete
e nós protestamos, os Estados Unidos são criticados em sua
postura imperialista, a falecida URSS era criticada por sua invasão
ao Afeganistão, não podemos criar uma esquizofrenia histórica
e considerar a invasão deste continente como algo diferente.
Depois da destruição
sistematizada das culturas nativas continuaram os europeus a sua "missão"
desmantelando culturas complexas na África e estimulando as guerras
tribais para que elas lhes fornecessem escravos para suas necessidades
no "novo mundo".
E de novo uma cultura complexa
foi desmantelada, dizimada.
E para cá vieram negros de várias procedências,
viver em condições sub humanas e ainda hoje tem que agüentar
o preconceito da pretensa sociedade igualitária brasileira,
que embora não tenha o ódio racial, tem um preconceito dissimulado
e presente que sempre me choca, pois julgar alguém pela cor da pele
é para mim algo profundamente imbecil.
Enquanto não olharmos para
nosso passado com olhar critico e real, não vamos aprender com ele
e quem nào aprende com o passado, está fadado a repetir sempre
os mesmos erros.
Nossas elites ainda se sentem senhores
feudais , roubando desavergonhadamente, lidando com o povo como se fosse
ainda
escravista o sistema.
Com uma diferença.
O dono do escravo providenciava
comida, teto e roupa para sua peça. Agora, os escravos transformados
em assalariados
devem até isso comprar.
Falar em descobrimento do Brasil,
a meu ver, é alienante, falso e colabora para manter esse país
nesse estado esquizofrênico que ele vive, onde milhões são
liberados para a fantasia, enquanto hospitais e escolas nào recebem
nem centavos.
Manter a farsa do Descobrimento
do Brasil sem uma releitura critica de toda essa situação
é manter nossa nação alienada de si mesma, é
manter a verdade afastada , algo tão ao interesse das elites que
ainda administram esse pais como sua "colônia" pessoal.
Mudamos de metrópole.
Não é mais a Companhia
das Índias que nos controla e explora. Mas outras tantas corporações
que mantém esta nação sobre seu julgo e continuam
a usar o Brasil como produtor de itens para consumo dos mercados estrangeiros
as custas da fome e miséria de seu próprio povo, um lugar
ainda onde "pelos campos há fome em grandes plantações".
Dizer que o momento da "Declaração
da Independência" é um referencial é outro equívoco
histórico.
Primeiro porque "Independência
ou Morte" foi dito com sotaque português, por um príncipe
regente defendendo interesses próprios e das elites exploradoras
do país.
Segundo que ser independente não
nos tornou soberanos, ao contrário, apenas mudamos de Metrópole,
de Portugal para a
Inglaterra.
Considero muito artificial e por
vezes até mesmo fantasioso esse processo de tentar criar um "momento"
"exato" para o
nascimento de um país.
É estar preso ao cartesianismo
e a uma perspectiva histórica equivocada , dentro de paradigmas
que já foram superados.
Nem a ciência acredita mais
nessa exatidão, antes tão buscada pelos positivistas.
Hoje sabemos que a quantidade de
fatores que determinam um fato histórico não pode mais ser
reduzida a esta história de culto a personalidades e heróis,
que só existiu por serem estas personalidades que pagavam os salários
de seus pretensos
historiadores.
Assim, não acredito que
possamos dizer que o momento da invasão do Brasil pelos portugueses
possa marcar o início desta
nação.
Considero isso no mínimo
muito fantasioso.
Como já disse antes o momento
exato do nascer de uma nação não pode ser detectado
com esta precisão.
O momento no qual o sentimento
de natividade surge num povo é algo sutil e não fica registrado
em livros.
Mas não resta dúvida
que a "alma" deste país surge aí.
Quando aquele que nasce nessas terras não mais
se sente "estrangeiro" e descobre que ama o chão que
pisa e nele decide construir sua vida.
Nativismo como definem os historiadores,
um sentimento ainda muito ausente em nosso povo, alienado de sua realidade
posto a seguir modelos estrangeiros ao invés de criar sua própria
e criativa forma de lidar com a realidade.
Foi assim que nasceu o Brasil,
é assim que nascem todos os países.
E só seremos um nação
forte quando abandonarmos essa alienação toda que por todos
os lados nos impõe e mergulharmos em nossas reais raízes
de povo híbrido, complexo.
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