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Espaço Ecológicko


  Prece de um cão abandonado 

 
.                                                                                foto: Arsenio Hypolito Junior

"Sabe, Senhor? Ainda não entendi. Viemos à praça, pensei ser um passeio; estranhei, ele não tinha esse hábito. Mais fui, feliz.

Lá chegando, ele me deu as costas, entrou no carro, e nem disse adeus.

Olhei para os lados, nem sabia o que fazer. Ainda tentei segui-lo e quase fui atropelado. Que teria feito eu de tão mau?

À noite, quando ele chegava, abanava o rabo, feliz, mesmo que ele nunca viesse ao quintal me ver.

Às vezes, eu latia, mas tinha estranhos no portão; não poderia deixá-los entrar, sem avisar o meu dono!

Quem sabe, foi minha dona que mandou, devia estar lhe dando trabalho...

Mas não as crianças; elas me adoravam. Como sinto saudades! Puxavam-me a cauda, às vezes, eu ficava uma fera, mas logo éramos amigos novamente. Creio que elas nem sabem; devem ter dito que fugi.

Estou faminto, só bebo água suja, meus pelos caíram quase todos. Nossa, como estou magro!

Sabe, Pai? Aqui, nesse canto que arrumei para passar a noite, faz muito frio, o chão está molhado.

Creio que, ainda hoje, vou encontrar-me contigo. Aí no céu, meu sofrimento vai terminar.

Ao menos em espírito, terei permissão para ver as crianças.

Peço-vos então, não mais por mim, mas por meus irmãozinhos. Mande-lhe pessoas que deles tenha compaixão, pois, sozinho como eu, não viverão mais que alguns meses na terra do Homem.

Amenize-lhe o frio, igual ao que agora sinto, com o calor dos atos de pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos Transmitidos ao Homem.

Elimine a dor das doenças, estirpando a ignorância da Terra.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos apregoados como religiosos, científicos e tudo o mais, tirando das mãos humanas o gosto pelo sangue.

Ampare as cachorrinhas prenhas que verão suas crias morrerem de fome, frio e pestes, sem nada poderem fazer.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados, pois, entre todos os males, o que mais me doeu foi este.

Receba, Pai, nesta noite gélida, a minha alma, pois não será o meu sofrimento, mas o dos que ficarem; é por eles que vos peço.


                                        Amém!"

 
 
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