Tem havido, entre os homens, sérias desavenças, por causa de uma confiança traída. Mas tudo indica que esse é um mal tão antigo quanto a própria humanidade, pois, há inúmeros séculos, já o sábio rei fazia menção ao assunto. Sabe-se, entretanto, que tal situação é desagradável e representa um duplo prejuízo, oriundo de uma mesma circunstância: o devassamento de um segredo e em conseqüência, também o rompimento de um elo importante, entre duas pessoas - a confiança.
Diz-nos uma antiga fábula que certa vez a cutia, sentindo-se desrespeitada pelos outros animais, decidiu mudar-se sem deixar o endereço. Escolheu morar junto a um ingazeiro e, quando preparava a nova casa, eis que aparece a raposa e põe-se a tagarelar:
- Como vai, cutia? Por
que está toda empoeirada?
- Nada de especial, mas
não quero que ninguém saiba. Direi senhora porque
confio na sua discrição -
e a cutia segredou-lhe ao ouvido:
- Fiz uma nova casa aqui,
junto à raiz do ingazeiro.
- Nova casa? Mostre-me
o local exato e prometo guardar bem o segredo...
A raposa saiu toda faceira, por ser achada digna de guardar sigilo. E ia tão distraída que nem percebeu que o coelho cruzava seu caminho.
- Onde vai, raposa? Parece-me
tão distraída... - comentou o coelho, curioso.
- Estava analisando
o local da nova moradia da cutía.
Desculpe-me...
- E ela está de
casa nova? Eu nem sabia disso - concluiu o coelho.
- Mas não diga nada
a ninguém, pois é segredo de Estado
- pediu a raposa.
Encontrando
o caxinguelê, o coelho comunicou o fato e pediu segredo. Continuou
seu caminho e passou pelo macaco; parando um pouco, contou-lhe ao ouvido
sobre a nova casa da cutia, pedindo-lhe que não contasse
aos outros animais.
Por sua vez o macaco, encontrando-se mais tarde com a capivara, passou a notícia para frente, dizendo que era do mais alto sigilo.
Ora, a capivara
não precisou andar muito para se encontrar com a tartaruga
e também lhe transmitiu a notícia
sob promessa de guardar o segredo. Porém, mal encontrou-se com o
lobo já foi contando o que ouvira...
O certo é
que à tardinha todos os pássaros,
animais e répteis da floresta já sabiam que a cutia
se mudara e que a nova residência ficava junto à raiz
do velho ingazeiro, que se erguia ao lado da velha ponte. O resultado
foi que, no decorrer do dia, todos já haviam passado
por lá e feito uma vísita de cortesia à companheira.
A cutia sentiu-se ofendida com a atitude da raposa, a quem havia demonstrado total confiança ao lhe passar o seu segredo. E foi dessa circunstância que lhe surgiu uma idéia:
Arrancou a placa
que indicava sua antiga residência e
a colocou à porta da nova casa. A placa dizia:
| Aqui mora a Cutia |

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