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Entrevistado: Patrick
Druot
Reporter: Revista Isto É
Imagens: Lisa Hunt
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O que é um xamã?
Patrick Druot - É uma pessoa
investida de dons de profecia, dons de cura, de percepção
a distância. Os xamãs dizem que os primeiros professores nos
tempos antigos eram as plantas e os animais. Eles foram os primeiros líderes
religiosos, os artistas, os médicos. Sua herança enorme influenciou,
milênios mais tarde, as primeiras religiões organizadas. Cristianismo,
budismo, taoísmo, tudo isso tem origem xamânica.
O que levou um físico
como o sr. se interessar pelo tema?
Druot - Há 20 anos, comecei
a me interessar pelo que se costuma chamar de estados alterados de consciência.
Conhecia-se a atividade da superfície do cérebro, mas nunca
explicaram como ele funcionava e o que o fazia funcionar. Durante muitos
anos, me interessei pelo fenômeno da vida antes do nascimento e tentei
entender onde essa memória estava gravada. A ciência não
respondia a essas indagações, então comecei a estudar
diversas tradições orientais: as escolas de ioga, o budismo
e, como morei dez anos nos Estados Unidos, trabalhei e vivi com índios
americanos. Conheci suas cerimônias e seus rituais de cura e me interessei
pela origem desses estados de consciência.. E aí foi preciso
voltar mais de 20 mil anos, ao tempo dos primeiros xamãs. Foram
eles, no período paleolítico superior, os primeiros a passarem
para o outro lado e a explicar como era estruturado o mundo xamânico.
O xamanismo faz parte da história
de todos os povos?
Druot - Sim. O termo xamã
foi adotado pelos antropólogos para definir todos os representantes
religiosos e seres particulares de todas as raças. O termo tem origem
siberiana. Saman, quer dizer aquele que sabe, aquele que é. Na tradição
xamânica mundial, os xamãs são aqueles que vêem
o mundo como um composto de três mundos. Um físico, povoado
pelos espíritos da natureza, um mundo subterrâneo e um terceiro,
sublimado. Em todos os grupos, seja na Sibéria ou na Nova Zelândia,
as tradições sempre batem: são três mundos ligados
por um eixo central. A imagem varia. Pode ser uma corda, uma escada, uma
montanha. O dom do xamã é viajar pelo intermundo, ao longo
dessa corda que atravessa os três mundos.
Em seu livro, o sr. afirma que
a ciência moderna ainda não distingue psicose de despertar
xamânico. Por quê?
Druot - Há um psiquiatra
inglês que diz que o sábio e o psicótico estão
no mesmo oceano. Mas enquanto o sábio nada, o psicótico se
afoga. Eles têm percepções idênticas, mas o psicótico
não sabe ordenar o saber. Até o fim dos anos 50, a ciência
pensava que o xamã era um esquizofrênico. Foi preciso que
o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss afirmasse
que eles sabiam exatamente o que os xamãs faziam e que havia uma
lógica em seus rituais. Não eram selvagens porque moravam
na floresta, era o mundo deles.
O que é a física xamânica?
Druot - Eu queria saber como o
xamã viajava pelos três mundos, onde estão esses mundos.
Em física, sabemos que o universo é feito de vibrações.
Supus que o xamã era capaz não apenas de se projetar num
mundo de vibração, mas de mudar essa vibração.
Na física quântica, diz-se que tudo está ligado ao
chamado tecido subjacente do universo. No mundo do xamanismo dizem que
estamos todos ligados. Os celtas e os druidas viam o mundo como uma teia
de aranha tridimensional. Se puxarmos um pedacinho aqui, toda a teia vibra.
Em física quântica diz-se que o universo está ligado
por cordas supersensíveis. Para mim, havia uma ligação
entre o xamanismo e a física quântica porque ambos trabalham
com vibrações, oscilações, sons. E os xamãs
sabem disso.. Foram os primeiros físicos da história.
Por que as tradições
xamânicas são apenas orais?
Druot - Nossa cultura ocidental
privilegia o lado esquerdo do cérebro, lógico, racional,
ligado ao tempo linear. E também é ligado à palavra
escrita. Esse tipo de tradição xamânica funciona principalmente
no lado direito do cérebro, ligado à tradição
oral. No Taiti, encontramos os sacerdotes maoris que conservam a tradição
do povo. Eles são capazes de contar a história de 20 gerações
de sua família. Levam-se de 30 ou 40 anos para aprender a tradição
oral, mas nada é deformado. É o mesmo motivo pelo qual a
maioria dos povos tradicionais não acredita em reencarnação.
Eles não têm a mesma concepção de tempo, que
não é linear para eles. Esses povos vivem o agora.
E o que o sr. acha?
Druot - Buda tem uma boa resposta..
Ele disse que não se pode dizer que existe, mas também não
se pode dizer que não existe.. Conheço um número enorme
de pessoas que tiveram experiências de vida anterior. Não
podemos provar cientificamente, mas há muitas evidências.
E o potencial terapêutico da regressão é impressionante.
Muita gente passa por diversos médicos sem conseguir se curar e,
com duas ou três sessões de regressão, descobrem-se
os motivos da doença e ela passa. Funciona em cerca de 80% dos casos.
Ainda há muitos xamãs
hoje?
Druot - Com o expansionismo branco,
a partir do século XVI, essas culturas tradicionais foram proibidas
e seus territórios foram tomados. Nos Estados Unidos, o xamanismo
desapareceu quase totalmente. Nos anos 60, no entanto, os índios
americanos começaram a resgatar antigos ensinamentos. Só
em 1978 o presidente Jimmy Carter assinou o American Indian Religious Freedom
Act (lei da liberdade religiosa indígena). Atualmente, muitos americanos
com problemas psicológicos vão se tratar com os índios.
Esses xamãs são inacessíveis, não falam facilmente.
Encontrei um xamã maori na Polinésia que disse: "Vocês
tiraram nossa língua e nossa cultura e nossos filhos não
falam mais taitiano. Não vamos ensinar nossas tradições."
É um trabalho muito lento. Levamos muitos anos. Só se você
começa a pensar com o lado direito do cérebro, consegue se
comunicar com eles.
É possível desenvolver
o lado direito do cérebro?
Druot - Sim. Mas leva algum tempo..
Porque o mundo ocidental faz parte de uma cultura do lado esquerdo, enquanto
os povos tradicionais têm uma cultura do lado direito. O ideal não
é usar apenas um dos lados, mas conseguir sincronizar os dois. Viver
no mundo material, mas com uma percepção diferente. Dessa
maneira, o mundo torna-se um teatro mágico.. Quando o lado esquerdo
pára de bloquear, pode-se ir ao mundo dos sonhos. O escritor mexicano
Carlos Castañeda já contava em seus livros como aprendeu
com um xamã mexicano a ir ao mundo dos sonhos e disse que é
tão real quanto este aqui.
Como foi a sua experiência
com o Santo Daime?
Druot - Não era o Santo
Daime que me interessava, mas a ayahuasca (planta que produz um chá
alucinógeno utilizado pela seita amazônica). Mas eu não
tinha contatos diretos. Não se pode ir à floresta buscar
a planta sozinho. Em 1994, meu antigo editor brasileiro fez um contato
com Alex Polari, um dos líderes da seita em Céu do Mapiá.
Tenho respeito pelos rituais, pela igreja, mas não participei. Disse
desde o início que me interessava pela planta que, no princípio,
era uma planta xamânica. Em abril de 1995, eu e minha mulher, Liliane,
passamos duas semanas na floresta e fizemos muitas experiências sob
o efeito da ayahuasca. O cérebro funciona de forma totalmente diferente.
Tudo se abre. Você pode ver espíritos, as auras. Fizemos até
contato telepático. Por três ou quatro minutos, soubemos exatamente
o que o outro pensava. Sentia e via a Terra respirar, num movimento claro.
Tudo se organizava em fractais.
De que serviu a experiência?
Druot - A ayahuasca é usada
para propósitos religiosos, alguns usam para curar, tirar pessoas
da dependência de drogas, álcool. Mas em minha opinião,
é muito mais do que isso. Acho que ainda não se sabe usá-la
para conhecer o outro e a si. Com ela, se poderia descobrir muito sobre
as causas de doenças físicas e emocionais. Essa experiência
provou o que estudei por 15 anos: só utilizamos uma parte mínima
do cérebro. Não tomamos mais a planta, mas ainda temos algumas
vibrações e percepções que vêm dela.
Não vemos mais uma floresta como antes. Nosso contato com a terra
foi modificado. Há uma percepção mais aguçada.
Traz sentimentos de tolerância, de respeito e de amor.
É possível passar
por este tipo de experiência sem a ayahuasca?
Druot - Talvez. Eu já tinha
percepções desde 1985, estimulando uma visão vibracional.
Há um campo magnético ou vibracional que circunda todas as
coisas vivas, até nós mesmos. E tudo o que acontece com você
está escrito neste campo. É uma técnica. Tem de ser
feito com sons, sobretudo com tambores, que são os batimentos cardíacos
do criador. Quando se está em sincronia com uma batida de tambores,
é possível fazer a viagem. Passei por essas experiências
com os índios do Canadá, nas ilhas do Pacífico, nos
EUA. O uso de plantas é específico da América do Sul
e Central, onde se usa o peiote.
A experiência é
similar?
Druot - A ayahuasca é mais
imediata ao abrir as portas psíquicas, as portas da percepção.
É como se o cérebro se abrisse. Tecnicamente falando: normalmente,
vemos o mundo através de nossos olhos. Mas não vemos como
o cérebro vê. O olho é um instrumento de análise
de frequência, como o ouvido. Isso só foi descoberto nos anos
60. Isso significa que vemos e escutamos através dos olhos, mas
não é como o cérebro vê e escuta.. Com a ayahuasca,
você vê e escuta como o cérebro. É uma percepção
holográfica do mundo. Porque o cérebro é um holograma.
Ele se abre para você. Mas acho que não se pode tomá-la
de qualquer jeito, é preciso uma boa orientação, alguém
que te ajude a passar pelos vários estágios da ayahuasca.
E também é preciso estar junto à natureza. Não
acho cabível tomá-la num lugar fechado, por exemplo. O que
acontece é que a planta abre todos os canais, as pessoas vêem
cores, caleidoscópios e ficam felizes. Mas é muito mais do
que isso.
Como o sr. se preparou para
a experiência?
Druot - Antes de tomar a ayahuasca,
estudei o trabalho de um etnofarmacobiologista da Finlândia, desenvolvido
durante seis anos. Eu sabia que não havia efeitos colaterais nem
risco de dependência.
O sr. sentiu medo?
Druot - Sim, porque nunca tinha
tomado nada parecido na vida, nenhuma outra substância alucinógena.
Não sabia exatamente o que esperar. Quando comecei a sentir os efeitos,
me senti mais confortável, entendi o que a planta me ensinava.
O sr. acha que há hoje
uma maior abertura do mundo ocidental para estes ensinamentos?
Druot - Sim. Em 15 anos, vendi
um milhão dos meus cinco livros, e recebi cerca de 60 mil cartas.
Acho que estes números podem ser tomados como uma prova de um interesse
crescente. As pessoas querem saber quem são, qual o seu lugar no
mundo. Não somos robôs, somos seres humanos. Entre muitos
povos índios, o próprio nome do povo significa seres humanos,
como os cheyenes americanos. No Havaí, os locais chamam os brancos
de haoles, que significa os que são mortos por dentro. Eles dizem
que não estamos vivos, porque não estamos conectados com
os espíritos e a natureza.
A que o sr. atribui esse interesse?
Druot - No século XVII,
houve dois gênios que criaram os fundamentos da ciência moderna:
René Descartes e Isaac Newton. Eles começaram a explicar
muitos fenômenos que não se explicavam antes, mas o problema
de suas visões foi ver o ser humano como uma máquina, um
relógio. Desprezaram a consciência e o espírito. A
ciência se pulverizou. Olha-se apenas o corpo, não o espírito.
Acho que o terceiro milênio trará a reunião de tudo.
Os xamãs dizem que as doenças entram quando a pessoa está
separada dela mesma e do mundo. Os índios navajos americanos têm
um sistema médico que reconecta a pessoa a ela mesma e ao universo.
Agora, há na Universidade de Medicina de Phoenix, no Arizona, um
departamento intercultural com xamãs navajos e médicos americanos,
que tentam entender como eles curam pessoas desenganadas de câncer,
por exemplo.
O físico
Patrick Druot,
já vendeu um milhão
de livros sobre xamanismo
pós-graduado na Universidade
de Columbia,
20 anos de experiências
com expansão da consciência e contatos com culturas antigas.
Conviveu com tribos indígenas
e aborígenes na América do Norte e na Oceania,
De família católica,
deixou de ir à missa aos 15 anos para tornar-se um cético
convicto.
Foi depois de se pós-graduar
em Física que começou a ter contato com o fenômeno
da expansão da consciência e especializou-se em Terapia de
Vidas Passadas (TVP), que pesquisa e pratica no Instituto de Pesquisas
Físicas e da Consciência, em Paris. "Essas experiências
me reconectaram a Deus." Quanto a frequentar uma igreja, ele diz: "Sim.
Uma floresta, uma praia, o mundo todo é uma catedral."
Extraido da Revista "Isto É"
Nº 1571 - 10 de novembro de 1999
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