Candomblé no Brasil
| Quem gosta de cachaça é
Exu. Quem veste branco é Oxalá. Quem recebe oferendas em
alguidares (vasos de cerâmica) são orixás. E quem adora
os orixás são milhões de brasileiros. O candomblé,
com seus batuques e danças, é uma festa. Com suas divindades
geniosas, é a religião afro-brasileira mais influente do
país.
Não existem estatísticas que dêem o número exato de fiéis. Os dados variam. Segundo o Suplemento sobre Participação Político-Social da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1988, 0,6% dos chefes de família (ou cônjuges) seguiam cultos afrobrasileiros. Um levantamento do Instituto Gallup de Opinião Pública, no mesmo ano, indicou que candomblé ou umbanda era a religião de 1,5% da população. São índices ridículos
se comparados à multidão que lota as praias na passagem de
ano, para homenagear Iemanjá, a orixá (deusa) dos mares e
oceanos. Elisa Callaux, gerente de pesquisa do IBGE, explica por que, tradicionalmente,
os índices dos institutos não refletem exatamente a realidade:
“Os próprios fiéis evitam assumir, por medo do preconceito.”
Ela tem razão.
A mais célebre mãe-de-santo do Brasil, Menininha do Gantois, falecida em 1986, declarou certa vez ao pesquisador do IBGE que era católica apostólica romana. De seu lado, a Federação Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Fenatrab) desafia ostensivamente as cifras oficiais e garante haver 70 milhões de brasileiros, direta ou indiretamente, ligados aos terreiros — seja como praticantes assíduos, seja como clientes, que ocasionalmente pedem uma bênção ou um “serviço” ao mundo sobrenatural. Você pode achar um exagero, e talvez seja mesmo, mas terreiro é o que não falta. Em 1980, num convênio da Prefeitura de Salvador com a Fundação Pró-Memória, o antropólogo Ordep Serra, da Universidade Federal da Bahia, concluiu um mapeamento dos terreiros existentes na região metropolitana de Salvador. Eram 1 200. “Hoje são muitos mais”, assegura Serra. Mais recentemente, o Instituto de Estudos da Religião (ISER) verificou que 81 novos centros “espíritas” (englobando cultos afro-brasileiros e kardecismo) haviam sido abertos no Grande Rio de Janeiro no ano de 1991, e que, em 1992, surgiram outros 83. O sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo, contou, em 1984, 19 500 terreiros registrados nos cartórios da capital paulista. Onde tem terreiro, tem festa. Por
isso, para levar você ao mundo do candomblé, SUPER começa
por convidá-lo para uma festa no terreiro. Agora, você conhecerá
em detalhes um dos fenômenos mais impressionantes da civilização
brasileira.
O barracão está pronto: a festa vai começar São nove horas da noite. Os tocadores de atabaque, chamados alabês, estão a postos em seus lugares. O público — cerca de 40 pessoas — aguarda em silêncio, acomodado em bancos rústicos de madeira. Os homens, na fileira à direita da porta. As mulheres, do lado esquerdo. Separados, para evitar um eventual namoro. Afinal, ali não é lugar para isso. Estamos num templo do candomblé, a Casa Branca, em Salvador, Bahia, o pioneiro do Brasil, fundado em 1830.A festa (que pode ser comparada a uma missa católica) vai homenagear Xangô, o deus do fogo e do trovão. O barracão foi decorado durante toda a tarde. O teto de telha-vã foi escondido por bandeirolas brancas e vermelhas — as cores de Xangô. As paredes estão enfeitadas de flores e folhas de palmeira de dendê desfiadas. Vai começar o toque, como é chamada a festa de candomblé no Brasil. Ela é aberta a todos os orixás (deuses, que também podem ser chamados de santos) que quiserem homenagear Xangô. O que o público vai assistir
é parte de um ritual que começou horas antes. Na madrugada,
os filhos-de-santo fizeram o sacrifício para o orixá homenageado.
Nas primeiras horas da manhã, as filhas-de-santo prepararam a comida.
Durante a tarde, foi feita a oferenda aos deuses, e Exu, o mensageiro entre
os homens e os orixás, foi despachado. Entenda melhor essa preparação.
O calendário litúrgico Muitas festas não têm dia certo para acontecer. As festas normalmente estão associadas aos dias santos do catolicismo. Mas as datas podem variar de terreiro para terreiro, de acordo com a disponibilidade e as possibilidades da comunidade. De maneira geral, o que importa é comemorar o orixá na sua época. As principais festas, ao longo do ano, são as seguintes: Abril: Feijoada de Ogum e festa de Oxóssi (associado a São Sebastião), em qualquer dia. Junho: Fogueiras de Xangô (associados a São João e São Pedro), dias 25 e 29. Agosto: Festa para Obaluaiê (associado a São Lázaro e São Roque) e festa de Oxumaré (associado a São Bartolomeu), em qualquer dia. Setembro: Começa um ciclo de festas chamado Águas de Oxalá, que pode seguir até dezembro. Festa de Erê, em homenagem aos espíritos infantis (associados a São Cosme e Damião). Festa das iabás (esposas de orixás) e festa de Xangô (associado a São Jerônimo), em qualquer dia. Dezembro: Festas das iabás Iansã (Santa Bárbara), dia 4, Oxum e Iemanjá (associadas a Nossa Senhora da Conceição), dia 8. Iemanjá também é homenageada na passagem de ano. Janeiro: Festa de Oxalá (coincide com a festa do Bonfim, em Salvador), no segundo domingo depois do dia de Reis, 6 de janeiro. Quaresma: O encerramento do ano
litúrgico acontece durante os quarenta dias que antecedem a Páscoa,
com o Lorogun, em homenagem a Oxalá.
Ao som dos atabaques, o santo “baixa” Fotografar uma festa de candomblé não é tão fácil. Na Casa Branca, é absolutamente proibido. Mas outros terreiros, como o Ilê Axé Ajagonã Obá-Olá Fadaká, em Cotia, região da grande São Paulo, são mais liberais. Nesta casa, podemos bater fotos da cerimônia em homenagem a Xangô. Mas com uma ressalva: a de jamais fotografar de frente um filho-de-santo com o orixá “incorporado”. A casa está cheia: 85 pessoas lotam o barracão. Os atabaques começam a “falar” com os deuses. Os orixás são invocados com cantigas próprias e os filhos-de-santo “entram na roda”, um a um, na chamada ordem do xirê: primeiro, o filho de Ogum, seguido pelos filhos de Oxóssi, Obaluaiê e assim por diante. Ao som do canto e da batida dos atabaques, cada integrante da roda entra em transe. O corpo estremece em convulsão, às vezes suavemente, outras vezes com violência. Agora, os filhos “incorporam” os orixás e dançam até que o pai-de-santo autorize, com um aceno, sua saída, para serem arrumados pelas camareiras, chamadas equedes. Logo depois, eles voltam ao barracão, vestindo roupas, colares e enfeites típicos de seu santo. Ao ouvir seu cântico, cada um começa a dançar sozinho uma coreografia que conta a origem do orixá “incorporado”. É quase meia-noite quando
os atabaques tocam as cantigas de Oxalá, o criador dos homens. Saudado
Oxalá, é hora da comunhão com os deuses: os pratos
são servidos aos participantes da festa. O xirê chega ao fim.
Sem música, não existe cerimônia Tudo acontece sob a batida de três atabaques Os três atabaques que fazem soar o toque durante o ritual também são responsáveis pela convocação dos deuses. O rum funciona como solista, marcando os passos da dança. Os outros dois, o rumpi e o lé, reforçam a marcação, reproduzindo as modulações da língua africana iorubá — uma língua cantada, como o sotaque baiano. Além dos atabaques, usam-se também o agogô e o xequerê. São, ao todo, mais de quinze
ritmos diferentes. Cada casa-de-santo tem até 500 cânticos.
Segundo a fé dos praticantes, os versos e as frases rítmicas,
repetidos incansavelmente, têm o poder de “captar” o mundo sobrenatural.
Essa música sagrada só sai dos terreiros na época
do carnaval, levada por grupos e blocos de rua, principalmente em Salvador,
como Olodum ou Filhos de Gandhi .
As divindades têm defeitos humanos Em qualquer terreiro, a entrada dos orixás na festa segue sempre a mesma seqüência da ordem do xirê. Depois de despachar Exu, o primeiro a entrar na roda é Ogum, seguido de Oxóssi, Oba- luaiê, Ossaim, Oxumaré, Xangô, Oxum, Iansã, Nanã, Iemanjá e Oxalá. Segundo a tradição,
os deuses do candomblé têm origem nos ancestrais dos clãs
africanos, divinizados há mais de 5 000 anos. Acredita-se que tenham
sido homens e mulheres capazes de manipular as forças da natureza,
ou que trouxeram para o grupo os conhecimentos básicos para a sobrevivência,
como a caça, o plantio, o uso de ervas na cura de doenças
e a fabricação de ferramentas.
Os orixás estão longe de se parecer com os santos cristãos. Ao contrário, as divindades do candomblé têm características muito humanas: são vaidosos, temperamentais, briguentos, fortes, maternais ou ciumentos. Enfim, têm personalidade própria. Cada traço da personalidade é associado a um elemento da natureza e da sua cultura: o fogo, o ar, a água, a terra, as florestas e os instrumentos de ferro. Na África Ocidental, existem
mais de 200 orixás. Mas, na vinda dos escravos para o Brasil, grande
parte dessa tradição se perdeu. Hoje, o número de
orixás conhecidos no país está reduzido a dezesseis.
E, mesmo desse pequeno grupo, apenas doze são ainda cultuados: os
outros quatro — Obá, Logunedé, Ewa e Irôco — raramente
se “manifestam” nas festas e rituais.
Deuses e homens sob o mesmo teto O terreiro, ou casa-de-santo, é simultaneamente templo e morada. A vida cotidiana dos mortais mistura-se com os rituais dos orixás. A família-de-santo (a mãe ou o pai e os filhos-de-santo, não necessariamente parentes de sangue) divide os cômodos com os deuses. A divisão do espaço, na Casa Branca, em Salvador, lembra os “compounds” africanos, ou egbes — antigas habitações coletivas dos clãs, usadas principalmente pelos povos de língua iorubá. O cômodo principal é o barracão, o salão onde humanos e santos se encontram nas festas. Por trás do barracão, há várias instalações comuns a uma residência: salas de jantar e de estar, cozinha e quartos — nem todos destinados aos mortais. Há os quartos-de-santo, onde ficam os pejis (altares) e os assentamentos (objetos e símbolos) dos orixás. Aí são feitas as oferendas. Na Casa Branca, os dois únicos orixás que têm quartos dentro da casa são Xangô e Oxalá. O roncó é um quarto especial onde os abiãs (noviços) ficam recolhidos durante o processo de iniciação. Essa proximidade dos abiãs com os outros membros do terreiro é fundamental: é assim que os iniciados entram em contato com os procedimentos rituais da casa. O fiel do candomblé aprende com os olhos e os ouvidos. Ele deve prestar atenção a tudo e não perguntar nada. Os terreiros têm também
uma área externa, onde estão as casas dos outros orixás.
A de Exu, por exemplo, fica perto da porta de entrada.
Sucessão: guerra à vista A sucessão numa casa-de-santo
é sempre tumultuada: basta o pai-de-santo morrer para ter início
uma verdadeira guerra entre orixás. Os filhos que não concordam
com a indicação dos búzios costumam abandonar o terreiro
e fundar sua própria casa. Foi assim que nasceu, no início
do século, o Gantois — uma das casas mais conhecidas em Salvador.
A partir da década de 70, mãe Menininha do Gantois se tornou
conhecida no Brasil inteiro, cantada por compositores, como Dorival Caymmi
e Caetano Veloso, e venerada por intelectuais, como Jorge Amado. Mãe
Menininha morreu aos 92 anos de idade, em 1986. Deixou em seu lugar mãe
Creusa.
Por meses, o noviço só come com as mãos Os filhos-de-santo são os sacerdotes dos orixás, da mesma forma como, na Igreja Católica, os padres são os representantes de Deus. Nem todos, porém, são preparados para “receber” os santos. Existem os que cuidam dos filhos-de-santo quando os orixás “baixam”, os que sacrificam os animais, os que tocam os atabaques e os que preparam a comida. Os búzios, usados como instrumento de adivinhação, é que vão dizer qual a função de cada um. A entrada para essa hierarquia é a indicação do orixá. É o que se chama “bolar no santo”. A partir daí, o abiã (noviço) tem de se submeter aos rituais de iniciação — cerimônias do bori, orô e saídas de iaô. Um recém-iniciado passa de um a seis meses vivendo dentro de severas restrições. É o tempo de quelê — o período em que o abiã usa um colar de contas justo ao pescoço. Enquanto usar o quelê, ele deve vestir branco, comer com as mãos e sentar-se só no chão. Estão proibidas as relações sexuais e os pratos que não sejam os de seu orixá. Nem todos os terreiros seguem à
risca todas as imposições. Mas pelo menos algumas têm
de ser obedecidas: é parte do compromisso do abiã com seu
orixá e seu pai ou mãe-de-santo. As obrigações
não terminam por aí: o iniciado, que agora se chama iaô,
terá de cumprir ainda três rituais — depois de um ano, três
anos e sete anos —, com sacrifícios, toques e oferendas. Só
depois ele pode se candidatar a ebômi, o degrau seguinte da hierarquia.
A sabedoria da morte e da advinhação Como toda religião, o candomblé tem sua maneira própria de encarar a morte. Segundo a crença, a alma vive no Orum, que corresponde, mais ou menos, ao céu dos católicos. Ela é imortal e faz várias passagens do Orum para a vida terrena. Cada um tem controle sobre essas “viagens”: quem tem uma boa experiência em vida, pode escolher um destino melhor, na vinda seguinte. Aqui na Terra, nada que se refira
aos deuses e ao futuro pode ser dito sem a consulta ao Ifá, ou seja
o jogo de búzios, conchas usadas como oráculo. O Ifá
revela o orixá de cada um e orienta na solução de
problemas.
O jogo usa dois caminhos: a aritmética e a intuição. Pela aritmética, é contado o número de conchas, abertas ou fechadas, combinadas duas a duas. Para interpretar todas as combinações possíveis dos búzios, o pai-de-santo conhece de cor 256 lendas que traduzem as mensagens dos deuses. Isso não é nada raro no candomblé, onde nada é escrito. Toda a sabedoria é transmitida oralmente. No outro sistema de adivinhação,
o intuitivo, o pai-de-santo estuda a posição dos búzios
em relação a outros elementos na mesa, como uma moeda ou
um copo d’água. Se o búzio cai perto da moeda, por exemplo,
pode indicar que não há problemas com dinheiro. Mas é
preciso estar preparado: os orixás vão “cobrar pela consulta”
uma obrigação. Mãe Kutu, que foi formada pela Casa
Branca e está montando seu próprio terreiro, diz: “Se não
vai fazer a obrigação, é melhor nem perguntar aos
búzios.”
Reza para o santo católico e vela para o orixá Existem diferentes tipos de candomblé no Brasil, cada um deles saído de uma nação. A palavra “nação” aqui não tem nada a ver com o conceito político e geográfico, mas com os grupos étnicos daqueles que foram trazidos da África como escravos. As diferenças aparecem principalmente na maneira de tocar os atabaques, na língua do culto e no nome dos orixás. Os povos que mais influenciaram os quatro tipos de candomblé praticados no Brasil são os da língua iorubá. Os rituais da Casa Branca, em Salvador, e da casa de Cotia, em São Paulo, descritos nesta reportagem, pertencem ao tipo Queto. A mistura com o catolicismo foi uma questão de sobrevivência. Para os colonizadores portugueses, as danças e os ri- tuais africanos eram pura feitiçaria e deviam ser reprimidos. A saída, para os escravos, era rezar para um santo e acender a vela para um orixá. Foi assim que os santos católicos pegaram carona com os deuses africanos e passaram a ser associados a eles. A partir da década de 20, o espiritismo também entrou nos terreiros, criando a umbanda, com características bem diferentes. Assim, o candomblé já
se incorporou à alma brasileira. Tanto é que o país
inteiro conhece o grito de felicidade— a sau-dação mágica
que significa, em iorubá, energia vital e sagrada: Axé!
Da África ao Brasil, uma boa mistura A principal diferença entre os vários tipos de candomblé é a origem étnica. Há quatro tipos de candomblé:o Queto, da Bahia, o Xangô, de Pernambuco, o Batuque, do Rio Grande do Sul, e o Angola, da Bahia e São Paulo. O Queto chegou com os povos nagôs, que falam a língua iorubá. Saídos das regiões que hoje correspondem ao Sudão, Nigéria e Benin, eles vieram para o Nordeste. Os bantos saíram das regiões de Moçambique, Angola e Congo para Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo. Criaram o culto ao caboclo, representante das entidades da mata. Candomblé não é umbanda As duas são religiões afro-brasileiras. Umbanda é a mistura do candomblé
com espiritismo
Candomblé Deuses: Orixás de origem africana. Nenhum santo é superior ou inferior a outro. Não existe o Bem e o Mal, isoladamente. Culto: Louvação aos orixás que “incorporam” nos fiéis, para fortalecer o axé (energia vital) que protege o terreiro e seus membros. Iniciação: Condição essencial para participar do culto. O recolhimento dura de sete a 21 dias. O ritual envolve o sacrifício de animais,a oferenda de alimentos e a obediência a rígidos preceitos. Música: Cânticos em
língua africana, acompanhados por três atabaques tocados por
iniciados do sexo masculino.
Umbanda Deuses: As entidades são agrupadas em hierarquia, que vai dos espíritos mais “baixos” (maus) aos mais “evoluídos” (bons). Culto: Desenvolvimento espiritual dos médiuns que, quando “incorporam”, dão passes e consultas. Iniciação: Não é necessária. O recolhimento é de apenas um ou dois dias. O sacrifício de animais não é obrigatório. O batismo é feito com água do mar ou de cachoeira. Música: Cânticos em
português, acompanhados por palmas e atabaques, tocados por fiéis
de qualquer sexo.
Quem é quem (e quem faz o
quê)
Cada iniciado tem uma função
dentro do terreiro. Nem todos “recebem” santo.
Abiã
Iaô
Ebômi
Iabassê
Agibonã
Ialaxé
Baba-quequerê e Iaquequerê
Baba-lorixá e Ialorixá
Ajudantes sagrados
Ogã
Axogum
Alabê
Equede
As diversas fases da iniciação Primeiro, o santo indica a pessoa a ser iniciada. Depois, é preciso cumprir
outros três passos:
1 - Bolar no santo 2 - O bori A cerimônia só termina quando as aves são servidas aos membros da família-de-santo. Depois do bori, o futuro filho-de-santo passa a assistir às cerimônias e a preparar o enxoval (a roupa e os adereços de seu orixá) para terminar a iniciação, com as saídas de iaô. 3 - Orô Os iaôs são apresentados
à comunidade,
Na primeira saída, os iaôs vestem branco em homenagem a Oxalá, pai de todos. Saúdam o pai-de-santo, os atabaques e os pontos principais do barracão e vão-se embora. Na segunda saída, os iaôs voltam com roupas coloridas e a cabeça pintada, segundo seus orixás. Dançam e deixam o barracão, em seguida. Na terceira saída, os orixás
anunciam oficialmente seus nomes. Os iaôs entram em transe e se retiram
para vestir as roupas do santo “incorporado”.
Os doze orixás mais cultuados no Brasil Cada um deles tem o seu símbolo, o seu dia da semana, suas vestimentas e cores próprias. Como os homens, são temperamentais Exu Orixá mensageiro entre os homens e os deuses, guardião da porta da rua e das encruzilhadas. Só através dele é possível invocar os orixás. Elemento: fogo Personalidade: atrevido e agressivo Símbolo: ogó (um bastão adornado com cabaças e búzios) Dia da semana: segunda-feira Colar: vermelho e preto Roupa: vermelha e preta Sacrifício: bode e galo preto Oferendas: farofa com dendê,
feijão, inhame, água,mel e aguardente
Ogum Deus da guerra, do fogo e da tecnologia. No Brasil é conhecido como deus guerreiro. Sabe trabalhar com metal e, sem sua proteção, o trabalho não pode ser proveitoso. Elemento: ferro Símbolo: espada Personalidade: impaciente e obstinado Dia da semana: terça-feira Colar: azul-marinho Roupa: azul, verde escuro, vermelho ou amarelo Sacrifício: galo e bode avermelhados Oferendas: feijoada, xinxim, inhame
Oxóssi Deus da caça. É o grande patrono do candomblé brasileiro. Elemento: florestas Personalidade: intuitivo e emotivo Símbolo: rabo de cavalo e chifre de boi Dia da semana: quinta-feira Colar: azul claro Roupa: azul ou verde claro Sacrifício: galo e bode avermelhados e porco Oferendas: milho branco e amarelo,
peixe de escamas, arroz, feijão e abóbora
Obaluaiê Deus da peste, das doenças da pele e, atualmente, da AIDS. É o médico dos pobres. Elemento: terra Personalidade: tímido e vingativo Símbolo: xaxará (feixe de palha e búzios) Dia da semana: segunda-feira Colar: preto e vermelho, ou vermelho, branco e preto Roupa: vermelha e preta, coberta por palha Sacrifício: galo, pato,bode e porco Oferendas: pipoca, feijão
preto, farofa e milho, com muito dendê
Oxum Deusa das águas doces (rios, fontes e lagos). É também deusa do ouro, da fecundidade, do jogo de búzios e do amor. Elemento: água Personalidade: maternal e tranqüila Símbolo: abebê (leque espelhado) Dia da semana: sábado Colar: amarelo ouro Roupa: amarelo ouro Sacrifício: cabra, galinha, pomba Oferendas: milho branco, xinxim
de galinha, ovos, peixes de água doce
Iansã Deusa dos ventos e das tempestades. É a senhora dos raios e dona da alma dos mortos. Elemento: fogo Personalidade: impulsiva e imprevisível Símbolo: espada e rabo de cavalo (representando a realeza) Dia da semana: quarta-feira Colar: vermelho ou marrom escuro Roupa: vermelha Sacrifício: cabra e galinha Oferendas: milho branco, arroz,
feijão e acarajé
Ossaim Deus das folhas e ervas medicinais. Conhece seus usos e as palavras mágicas (ofós) que despertam seus poderes. Elemento: matas Personalidade: instável e emotivo Símbolo: lança com pássaros na forma de leque e feixe de folhas Dia da semana: quinta-feira Colar: branco rajado de verde Roupa: branco e verde claro Sacrifício: galo e carneiro Oferendas: feijão, arroz,
milho vermelho e farofa de dendê
Nanã Deusa da lama e do fundo dos rios, associada à fertilidade, à doença e à morte. É a orixá mais velha de todos e, por isso, muito respeitada. Elemento: terra Personalidade: vingativa e mascarada Símbolo: ibiri (cetro de palha e búzios) Dia da semana: sábado Colar: branco, azul e vermelho Roupa: branca e azul Sacrifício: cabra e galinha Oferendas: milho branco, arroz,
feijão, mel e dendê
Oxumaré Deus da chuva e do arco-íris. É, ao mesmo tempo, de natureza masculina e feminina. Transporta a água entre o céu e a terra. Elemento: água Personalidade: sensível e tranqüilo Símbolo: cobra de metal Dia da semana: quinta-feira Colar: amarelo e verde Roupa: azul claro e verde claro Sacrifício: bode, galo e tatu Oferendas: milho branco, acarajé,
coco, mel, inhame e feijão com ovos
Iemanjá Considerada deusa dos mares e oceanos. É a mãe de todos os orixás e representada com seios volumosos, simbolizando a maternidade e a fecundidade. Elemento: água Personalidade: maternal e tranqüila Símbolo: leque e espada Dia da semana: sábado Colar: transparente, verde ou azul claro Roupa: branco e azul Sacrifício: porco, cabra e galinha Oferendas: peixes do mar, arroz,
milho, camarão com coco
Xangô Deus do fogo e do trovão. Diz a tradição que foi rei de Oyó, cidade da Nigéria. É viril, violento e justiceiro. Castiga os mentirosos e protege advogados e juízes. Elemento: fogo Personalidade: atrevido e prepotente Símbolo: machado duplo (oxé) Dia da semana: quarta-feira Colar: branco e vermelho Roupa: branca e vermelha, com coroa de latão Sacrifício: galo, pato, carneiro e cágado Oferendas: amalá (quiabo
com camarão seco e dendê)
Oxalá Deus da criação. É o orixá que criou os homens. Obstinado e independente, é representado de duas maneiras: Oxaguiã, jovem, e Oxalufã, velho. Elemento: ar Personalidade: equilibrado e tolerante Símbolo: oparoxó (cajado de alumínio com adornos) Dia da semana: sexta-feira Colar: branco Roupa: branca Sacrifício: cabra, galinha, pomba, pata e caracol Oferendas: arroz, milho branco e
massa de inhame
O toque
O sacrifício
A oferenda O padê de Exu por Sílvia
Campolim
Revista Super Interessante Edição de Janeiro 1995 Ilustrações: Ney Lima |
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