O Sermão de Benares constitui
inquestionavelmente o principal ponto de referência doutrinal do
Budismo e das suas diferentes escolas. As condições da sua
prelecção, assim como todos os aspectos fundamentais da vida
do seu orador, estão envoltos num manto de mistério onde
se cruza o mito e a história.
Segundo a tradição
budista, o Sermão de Benares representa o primeiro sermão
pronunciado por aquele que é designado na cultura ocidental como
sendo o Buda. No entanto, em termos estritos, o termo «Buda»
não é propriamente um nome mas antes a designação
de um estado de libertação e de iluminação.
Na verdade, a palavra «Buda» significa literalmente "o desperto",
entendendo-se este «despertar» como sendo a apreensão
da realidade que nos constitui assim como a libertação das
condições que geram o sofrimento em todos os seres sensíveis.
Em termos históricos, aquele
que ensinou a via (dharma) do Budismo nasceu provavelmente em meados do
século VI aC, na região de Lumbini[1] - situada actualmente
no Nepal junto à fronteira com a Índia - onde vivia o povo
dos Shakya, razão que explica o facto de múltiplas vezes
o Buda histórico ser frequentemente nomeado como «Shakyamuni»,
isto é, o sábio dos Shakyas[2]. O seu verdadeiro nome era
Siddartha Gautama - Siddhatta Gotama, em Páli, a língua sagrada
budista - e era filho do Rajá daquele clã.
Reza a lenda[3] que, sete dias após
o seu nascimento, a mãe de Siddharta (Mayadevi) faleceu e o jovem
príncipe foi educado pelo pai (Suddhodana) num ambiente de luxos
e prazeres.
O
jovem Sidartha com seu pai
|
"O rei seu pai, receando que ele
se sentisse atraído pelo caminho da libertação, fê-lo
rodear pelos prazeres dos cinco sentidos."[4]
Aos dezasseis anos, Siddartha casa
com uma bela princesa (Yashodhara), da qual irá terá, treze
anos mais tarde, um filho (Rahula). Nessa altura, nos diz o mito, Siddartha
confronta-se, pela primeira vez, com a visão da velhice, da doença
e da morte. "Pensando que não estava ainda liberto da velhice, da
doença e da morte, ficou mais triste ainda. Imediatamente fez o
carro dar meia volta para regressar."[5] Tal visão que lhe tinha
sido ocultada pelo pai levá-lo-á, num primeiro momento, a
abandonar o seu palácio e assumir uma vida de grande ascese, como
forma de descobrir as raízes do sofrimento. Só que estas
práticas ascéticas não lhe trouxeram qualquer libertação,
antes o conduziram praticamente às portas da morte.
O mito diz nos que Siddhartha decidiu
então abandonar a ascese e sentar se no sopé de uma figueira
- na região conhecida como Uruvela, hoje Bodh Gaya - com a firme
deliberação de nunca mais se levantar até encontrar
a iluminação.
"Então sentou se de pernas
cruzadas numa mesma postura durante sete dias aos pés da árvore
do despertar"[6]. Conta-se que foi tentado por demónios mas que
a sua determinação se manteve sempre firme. Ao atingir o
estado de Buda, é nos dito que não só intuiu a causa
e a raiz do sofrimento, como apreendeu a unidade fundamental de todos os
seres vivos, de como todos eles eram arrastados na eterna roda de nascimento,
do sofrimento e da morte (Samsara). Manteve-se em silêncio durante
algum tempo, pois achou que a sua doutrina, o seu «dharma»,
era difícil de perceber, dado que ia contra todos os nossos hábitos
mentais mais enraizados. "Este dharma que eu realizei é, na verdade,
[....] difícil de apreender, difícil de compreender [...]
Só com dificuldade eu próprio o compreendi."[7] Mas movido
pela compaixão decidiu ensiná-lo, sendo o primeiro acto público,
o sermão que pronunciou aos seus cinco primeiros discípulos
em Sarnath, perto da cidade de Benares (Varanasi). Esta prelecção
que, segundo os budistas, põe em movimento a roda da Lei (dharma),
constituindo o ponto de partida da sua predicação, é
conhecido usualmente como o Sermão de Benares.
Yashodhara
|
II
Neste sermão, Siddharta
Gautama estabelece os quatro princípios essenciais da sua doutrina,
também conhecidos na terminologia budista como as quatro «Nobres
Verdades» (Arya satya). São estas, a nosso ver, as passagens
centrais deste texto tradicional que procura reconstituir o ensinamento
oral do Buda Shakyamuni, pois Siddharta nunca escreveu nada na sua vida:
“Existem dois extremos, ó
monges, que aqueles que renunciaram ao mundo, não devem perseguir:
o apego indulgente aos prazeres sensuais; isto é vil, comum, vulgar,
sem santidade, votado à infelicidade; e, por outro lado, o apego
ao auto tormento; isto é penoso, sem santidade e votado à
infelicidade. Ó monges, igualmente distante destes dois extremos
encontra se o caminho do meio, perfeitamente compreendido pelo Tathagata[8],
que leva a que se possa ver e saber e que conduz à paz, à
sabedoria, à iluminação e à extinção
(nirvana). [...].
Eis aqui, ó monges, a
nobre verdade do sofrimento (duhkha): o nascimento é sofrimento,
a velhice é sofrimento, a doença é sofrimento, a morte
é sofrimento; a dor, o lamento, a angústia, o desespero são
sofrimento; a união com aqueles de quem não se gosta é
sofrimento, a separação daqueles de quem se gosta é
sofrimento; não obter o que se deseja é sofrimento; por fim,
os cinco agregados de apego[9] são sofrimento.
Eis aqui ainda, na verdade, ó
monges, a nobre verdade da origem do sofrimento: é a sede (trishna)
que conduz ao renascer, acompanhada do apego aos prazeres que se gozam
aqui e ali, quer dizer, a sede do desejo, a sede da existência, a
sede da inexistência.
Eis aqui ainda, ó monges,
a nobre verdade da extinção do sofrimento: é a cessação
e o desapego completo desta mesma sede, o seu abandono, a sua rejeição,
o facto de dela se libertar, de não mais a ela se apegar.
Eis ainda aqui, na verdade, ó
monges, a nobre verdade do caminho que conduz à extinção
do sofrimento: é a nobre via de oito braços, a saber, a visão
perfeita, a resolução perfeita, a linguagem perfeita, a acção
perfeita, a vivência perfeita, o esforço perfeito, o recolhimento
perfeito, a concentração perfeita.”[10]
Mandala
e Mantra de Shakyamuni
|
O primeiro princípio da doutrina
do Buda Shakyamuni consiste na afirmação do sofrimento como
traço incontornável da nossa experiência do mundo.
Que sentido tem esta afirmação sabendo nós que a vida
oscila permanentemente entre, por um lado, estados de prazer e de alegria
e, por outro, situações de pesar e de aflição?
Como reconhece o Buda, se não existissem momentos de prazer dificilmente
se compreenderia o valor que os seres humanos em geral atribuem ao ego
e à experiência física sensorial. "Se o corpo fosse
exclusivamente doloroso, apenas relacionado com o sofrimento e não
também com o prazer, então os seres não ansiariam
tanto pela sua existência física."[11] É evidente que
o termo português "sofrimento" cobre mal o significado presente na
palavra escolhida pelo fundador do Budismo, a saber, "dukhka". Em sentido
estrito, deveríamos traduzir este termo por "insatisfação
difusa"[12], na medida em que mais do que uma dor permanente o que está
em causa é a insatisfação que percorre todos os actos
da nossa vida, mesmo aqueles que consideramos habitualmente bem sucedidos
e fonte de prazer. Não só esses momentos são escassos
como, acima de tudo, estão condenados a desaparecer com a lei do
tempo. A percepção da sua efemeridade produz normalmente
sentimentos de angústia e de ansiedade que suscitam um maior apego
desesperado em relação àquilo que nós próprios
sabemos estar condenado.
O Sermão de Benares mostra
nos com clareza quais os diferentes níveis da nossa vida nos quais
é possível surpreender uma "insatisfação" insustentável
e permanente. São cinco os níveis considerados:
1. os momentos cruciais da história
de uma vida, pois tanto o nascimento como a velhice implicam não
só a presença da dor e do sofrimento como a percepção
de que o seu último momento será sempre a morte;
2. O segundo nível prende-se
com os sentimentos associados com a perda de algo que estimamos, desde
a lamentação ao desespero em face do que já não
se é, do que já não se tem;
3. O terceiro nível refere
se à nossa dificuldade em estarmos junto de quem não gostamos
e de estarmos separados de quem amamos, uma forma de traduzir a tensão
constante com o outro;
4. O quarto nível diz respeito
à insatisfação permanente derivada da "espiral do
desejo"[13] que comanda as nossas vidas;
5. Finalmente, o Buda refere o
"sofrimento" associado ao que designa, numa terminologia obscura, como
os "agregados do apego", mas que, não são mais do que os
diferentes elementos corporais e mentais associados à constituição
sempre dolorosa e precária da nossa identidade pessoal.
Ora, como é evidente, em
todos estes elementos surpreende se a nossa incapacidade visceral em saber
viver com a impermanência constitutiva de tudo o que é, em
si, condicionado e sujeito à lei do tempo. Numa visão mais
contemporânea do problema da "insatisfação difusa",
poderíamos descrever a intuição de Buda como sendo
a percepção de que a vida implica uma constante humilhação
do nosso narcisismo mais recôndito, do nosso amor próprio
mais oculto, pois mesmo tudo o que hipostasiamos como perfeito se encontra
condenado à precariedade e ao desvanecimento integral[14]. É,
pois, neste contexto que devemos compreender a afirmação
de Buda Shakyamuni segundo a qual a sua doutrina deve ser sobretudo pensada
como uma terapia libertadora da insatisfação difusa que percorre
as nossas acções. “Assim como o vasto mar está impregnado
de um único sabor, o do sal, ó monges, também esta
doutrina e esta disciplina estão impregnadas de um único
sabor: o da Libertação"[15].
A caracterização da
vida como sofrimento, enquanto humilhação do nosso narcisismo,
representa, a par da impermanência (anitya) e da inexistência
do ego (anatman), um dos três "sinais da existência"[16]. São
noções articuladas entre si, na medida em que a percepção
de que nada no mundo é permanente tem como corolário lógico
não só a visão do nossos estados corporais e mentais
como finitos e precários, como suscita a nossa angústia em
face da inexistência de um ego a que nos poderíamos apegar
eternamente. A ideia de que uma entidade condicionada -, como são
todos os objectos deste mundo - seja dotada de uma identidade substancial,
revelada num núcleo residual e a temporal, mostra se, para Shakyamuni,
como sendo uma ideia profundamente errada. Quando aprofundamos a natureza
de cada ser, qualquer que ele seja, os contornos e os limites que estabelecemos
entre ele e os outros desvanecem se progressivamente.
Não só nada é
absolutamente autónomo como as diferenças entre os diversos
seres esvaem se à medida que aprofundamos a sua natureza. Se existe
visão especulativa da existência por parte do Buda, ela consiste
na reiteração da interdependência infinita entre tudo
o que existe. A ideia de limite e de identidade absoluta é apenas
o resultado do desejo ansioso da nossa mente de encontrar pontos de segurança
e de estabilidade, de não querermos ser arrastados pelo fluxo da
vida. “Tal como a abelha colhe a essência de uma flor e voa sem destruir
a sua beleza e perfume, assim passa o sábio por esta vida.”[17]
O mesmo se pode dizer da visão
usual que temos do nosso ego. A ideia de que a actividade mental, de que
a mente, no seu fluxo, tem um «eu substancial» que a possui
é igualmente, segundo o Budismo, uma ideia a afastar. Da mesma forma
que quando olhamos o voo dos pássaros podemos projectar uma linha
imaginária do seu percurso, do mesmo modo a actividade do nosso
corpo, do nosso sentir, das nossas percepções, dos nossos
hábitos mentais, da nossa consciência – os cinco elementos
condicionados da nossa existência, os cinco agregados da identidade
pessoal referidos – parecem ter um núcleo substancial a que
chamamos «eu»[18]. Tal núcleo é apenas uma projecção
imaginária resultante de não aceitarmos impermanência
do nosso próprio ser. Esta questão, habitualmente designada
como o princípio budista da "inexistência do ego" deve ser
vista com muito cuidado, pois estamos em face de uma das noções
mais subtis da doutrina do Buda. Este último não nega pura
e simplesmente a existência condicionada de uma entidade a que convencionalmente
chamamos "eu" e que, não só nos é útil na nossa
vida diária, como a sua pura e simples extinção poderia
conduzir nos à beira da loucura e da psicose[19]. O que nega é
a existência neste mundo de uma substância eterna que se subtraísse
à lei global da impermanência. A nosso ver, o mesmo princípio
se aplica a qualquer entidade deste mundo[20]. Se aprofundarmos a natureza
de qualquer ser, por exemplo, a mesa onde escrevo, veremos que ela não
difere essencialmente de todos os outros objectos circundantes. A mesa
tem uma existência condicionada e relativa que nunca existe para
lá do tempo e do fluxo contínuo da existência. O mesmo
acontece àquilo que chamamos eu ou ego. Este último não
é mais do que a conjugação provisória de um
conjunto de fenómenos psíquicos entre os quais sobressai
a memória e a capacidade de contrair hábitos. São
eles que determinam a nossa identidade pessoal, mas não são
eles que determinam a nossa natureza mais própria. O Budismo faz
nos compreender que em torno do problema da identidade pessoal se conjugam
duas questões que, no limite, são dissociáveis: uma
que se prende com a nossa personalidade e carácter, com o modo como
as experiências que tivemos foram sedimentadas e cristalizadas, a
que poderemos chamar «memória residual» derivada da
acção física ou mental (Karma). A enigmática
noção oriental de Karma - literalmente «ação»
- traduz, a nosso ver, o fato unanimemente reconhecido de que todo o nosso
agir não só marca as nossas memórias como determina
as nossas expectativas e ansiedades, moldando, deste modo, a nossa personalidade.
“Da mente provêm todas as coisas. Tudo nasce da mente, é
formado pela mente. Se um homem fala ou age com uma mente impura, o sofrimento
acompanha o, tal como a roda de um carro segue o animal que o puxa.”[21]
A segunda questão em torno da pessoa prende se com a nossa natureza
essencial, natureza só apreendida no momento em que realizamos em
nós a interdependência infinita que nos constitui visceralmente.
Em geral, confundimos as duas questões da nossa identidade pessoal,
nomeadamente na redução da natureza essencial que nos constitui
à nossa personalidade, redução que acarreta a hipostasiação
do ego como presumível substância infinita e eterna.
Mas o Sermão de Benares
não é a apenas a caracterização da experiência
do mundo como sofrimento e "insatisfação difusa". O Buda
Shakyamuni debruça-se, em seguida, sobre a origem deste sentimento
e a resposta encontrada é caracterizada através de uma metáfora:
"a sede".
Em termos psicológicos, esta
"sede" traduz um estado de ânsia que nunca encontra sossego e que
se reflecte, segundo o Buda, em três dimensões: no desejo
puro e simples e, em particular, na «espiral do desejo» atrás
referida; na sede de existência e na sede da inexistência.
A caracterização do desejo como sendo uma das raízes
do nosso sofrimento deve ser observada com muita atenção
pois essa palavra subsume, nas línguas ocidentais, um vasto campo
de significações nem sempre concordantes.
Alexandra David Néel, na
sua célebre apresentação da doutrina budista[22],
mostra nos os diferentes sentidos positivos e negativos do desejo na visão
budista do mundo. "O desejo e a procura da sua satisfação
são legítimos como manifestações normais e
naturais da individualidade. Lançar lhe o anátema, como se
fez na maioria das religiões , é inútil e ilógico
[...]. O Buda foi um inimigo irreconciliável do ascetismo, num país
onde este dominava a consciência religiosa com uma força da
qual, as mais violentas manifestações da fé cristã,
aquelas que povoaram de anacoretas a areia de Tebaída, não
podem dar senão uma pálida ideia. Não é, pois,
um preceito de sacrifício que nós ouvimos sair dos seus lábios.
[O que o Buda critica são] os desejos que nos amarram, que nos arrastam
numa corrida eterna de decepções dolorosas"[23]. O desejo
como origem do sofrimento deriva tanto da avidez como do apego em face
do mundo, mostrando nos a situação trágica de uma
mente hipnotizada, não desperta, que pensa tudo suster e controlar.
Mas não é só a "sede da existência" que é
visada pelo Buda Shakyamuni, na medida em que a "sede da inexistência",
enquanto desejo de auto anulação, cuja forma mais perversa
consiste na aversão a si mesmo e na negação do direito
à felicidade, é igualmente apontada como estando na raiz
do sofrimento.
No terceiro princípio do
Sermão de Benares, o Buda diz nos que é possível,
aqui e agora, anular essa ânsia, esse desejo envolto em frustração.
Esta cessação (Nirodha) e libertação da ânsia
desiderativa é designada como Nirvana. A palavra significa, à
letra, «extinção» ou «expiração»,
sendo um termo apropriado para designar a simples acção de
extinção da luz de uma vela. Mais do que vermos nesta «extinção»
um símbolo negativo, um sinal de pessimismo, o Nirvana traduz o
estado incondicionado que resulta da cessação de toda a ânsia,
de toda a nossa sede de permanência[24].
Infelizmente Shakyamuni nunca foi
muito específico em caracterizar positivamente o Nirvana. Quando
lhe perguntavam o que era, ele gostava de comparar essa atitude questionante
àquela que resultaria se alguém ferido com uma seta envenenada,
em vez de procurar arrancá la imediatamente se interessasse em saber
qual o nome do archeiro e quando é que ele a atirou[25]. Provavelmente
a visão niilista que temos habitualmente do Nirvana deriva da interpretação
e do uso que Freud fez desta noção. Na sua obra Para Além
do Princípio de Prazer, sob a influência de Schopenhauer,
utiliza, em sentido técnico, a noção de «princípio
de nirvana»[26]. Com este conceito, Freud procurava caracterizar
uma das duas tendências globais da actividade da vida pulsional marcada
pela busca de redução e anulação de todos os
factores de excitação psíquica. Mas o desenvolvimento
da obra mostra nos que não se trata apenas de uma «lei de
constância», de uma busca homoestática de equilíbrios,
mas, sim, de ver o «princípio de nirvana» como a própria
expressão da «pulsão de morte». Nesta obra, Freud
parece indicar que uma das duas raízes mais funda de todo o psiquismo,
do inconsciente e da vida pulsional, senão mesmo da própria
vida, se encontraria neste desejo de morte, um desejo de se auto aniquilar
e de fazer extinguir todo o estado de desequilíbrio que cada ser
vivo, em si mesmo, representa. Ora, como vimos, a forma como Freud caracteriza
o «princípio de nirvana» fá lo ia inscrever numa
das raízes essenciais do sofrimento, a saber, a "sede de inexistência"
e, como tal, seria, para o Buda, um princípio que se situaria nos
antípodas do Nirvana.
Nirvana
Búdico
|
Ora, mais do que representar o simples
aniquilamento, o Nirvana é entendido pelos budistas como passagem
a um outro estado, a um outro nível de existência mais puro
e mais perfeito em que se abole os «fogos da ignorância, da
inveja e da violência». Que estado é esse? Talvez possamos
estabelecer um paralelismo com um dos sentidos etimológicos da palavra
«nirvana», a saber, «expiração».
A nossa atitude habitual em face da vida é procurar sustê
la, retê la, não deixá la ser. Se sustivéssemos
a respiração para sempre, a vida aniquilar se ia. Ascender
ao estado de Nirvana consiste em deixar a respiração - sempre
identificada no pensamento oriental com a vida - fluir. Deixar a vida fluir
sem querer retê la neste ou naquele momento, neste ou naquele acontecimento
por mais central que nos pareça.
O quarto princípio consiste
na indicação do caminho necessário para se poder atingir
esse estado de espírito, designado como Nirvana. Este caminho é
habitualmente conhecido na gíria budista como o «óctuplo
caminho». Mais do que analisar caminho por caminho (visão,
resolução, linguagem, acção, vivência,
esforço, recolhimento e concentração), importa referir
duas ideias: a primeira é a noção de perfeição
que se identifica com a «Via do Meio» e que tem um paralelismo
notável com a noção aristotélica de virtude
como justo meio.
Como vimos, e nos é dito
logo no começo do Sermão de Benares, o Buda busca uma via
do meio que transcenda tanto a vida luxuriante, mas falsa, da sua primeira
existência, como o caminho da ascese dolorosa da segunda fase. A
segunda ideia é que apesar de Shakyamuni nos apresentar analiticamente
oito caminhos, o que está em questão neles são essencialmente
três dimensões da nossa existência: o conhecimento sapiencial
(Prajna), a acção moral (Shila) e a concentração
do sentir (Samadhi). Trata se, assim, de atingir graus de perfeição
a nível da sabedoria, da acção e da meditação.
O que significa uma aposta total e integrada nas três capacidades
essenciais do ser humano: o conhecer, o agir e o sentir. Desenvolver com
perfeição o nosso conhecimento do mundo, agir tendo sempre
em conta o carácter efémero da existência de todos
os seres sencientes e sentir sem apego o nosso corpo, os outros e o mundo,
tal é o ideal do Budismo. Em qualquer destes campos, a lassitude
como a austeridade correspondem a atitudes extremas que só levam
à "insatisfação difusa".
Que visão do mundo podemos
surpreender no Sermão de Benares? A nosso ver, a forma mais feliz
de a caracterizar foi enunciada por um mestre budista japonês do
século XIII, Eihei Dogen Zenji (1200 1253) que nos dizia numa célebre
sentença: "Conhecer a via do Buda é conhecer se a si próprio.
Conhecer se a si próprio é esquecer se de si mesmo. Esquecer
se de si mesmo é ser iluminado pelas dez mil vias. Ser iluminado
pelas dez mil vias é libertar o seu corpo e a sua mente assim como
os dos outros."[27]
O
Primeiro Sermão
|
Notas do Autor
[1] Ainda hoje são objecto
de controvérsia os dados cronológicos sobre a época
em que viveu o Buda. Enquanto as escolas tradicionais do Budismo, em particular
o Theravada, apontam usualmente as datas de 623-543 bC, a grande maioria
dos estudiosos situa a vida do fundador do Budismo entre os anos de 563
483 bC. Cf. H.W.Schummann, Der historische Buddha, Munique, Eugen Diederichs
Verlag, 1982.
[2] Já Marco Polo (The Travels
of Marco Polo, trad.ingl., Londres, The Folio Society, 1968, p.241), no
seu percurso pelo Ceilão, o identifica como o "Sakyamuni o Santo".
[3] As características míticas
da biografia de Siddharta Gautama são, por demais, evidentes, de
tal modo que Joseph Campbell formula o seu conceito de «monomito»
- arquétipo narrativo exemplar que funciona como paradigma de todas
as histórias míticas - tendo como ponto de referência
a vida do Buda. Cf. Joseph Campbell, The Hero with a Thousand Faces, Londres,
Fontana Press, 1993 [Princeton University Press, 1949], pp.30 e sgs.
[4] Vinaya pitaka [O Cesto da Disciplina]
(Mahishasaka, ed.Issaikyo) nº1.421, 101b, citado na excelente antologia
de textos organizada por André Bareau, En Suivant Bouddha, Paris,
Lebeaud, 1985 [Buda, trad.port., Lisboa, Presença,19752, p.77].
[5] A. Bareau, Buda, trad.port.,
Lisboa, Presença,19752, p.79.
[6] Vinaya Pitaka (Mahavagga) 1,1,1.
[7] Texto citado por Narada Maha
Thera (The Buddha and his Teachings, Colombo [Sri Lanka], Vajiramana, 1973,
p.62) e por Mark Epstein (Thoughts without a Thinker. Psychotherapy from
a Buddhist Perspective, Londres, Duckworth, 1996, p.43).
[8] Tathagata é um dos títulos
tradicionais do Buda Shakyamuni e significa literalmente "aquele que se
tornou um", isto é, aquele que atingiu a plena realização
de si.
[9] São os cinco factores
de apego (Upadana skhanda) que constituem, pela sua agregação,
a personalidade individual sempre precária e sem natureza própria:
1. A "forma material" (rupa) corporal; 2. A sensação
(vedana) que nos leva a classificar uma experiência como agradável,
desagradável ou neutra; 3. A percepção (samjna) que
permite identificar e reconhecer algo como tal; 4. As actividades mentais
(samskara) que traduzem estados psicológicos de alegria, de ódio,
de atenção, de vontade, entre outros; 5. A consciência
(vijnana) enquanto apercepção sensorial e mental do mundo.
[10] Vinaya Pitaka [iv, 17 23];
Samyutta Nikaya (The Book of the Kindred Sayings, Pali Text Soceity Translation
Series, Londres, Luzac & Company Ltd, 1954) 56.II.5 8; Bareau, Buda,
trad.port., Lisboa, Presença,19752, p.86 87.
[11] Samyutta Nikaya (22.60.6)
[12] É esta a tradução
proposta - "pervasive unsatisfactoriness" - por Mark Epstein (Thoughts
without a Thinker, p.46) como sendo a mais rigorosa para englobar os diferentes
cambiantes presentes no termo que o Buda utiliza no Sermão de Benares
(dukhka).
[13] A expressão é
utilizada pelo biólogo Jacques Testart num contexto diferente, a
propósito da eugenia positiva, mas traduz bem a impossibilidade
do desejo se contentar com a sua própria satisfação
imediata: "[...] la spirale du désir ne s'arrêtera certainement
pas là." (Le Temps de la responsabilité, ed. Frédéric
Lenoir, Paris, Fayard, 1991, p.71).
[14] "The Buddha sees us all as
Narcissus, gazing at and captivated by our own reflections, languishing
in our attempted self sufficiency, desperately struggling against all that
that would remind us of our own fleeting and relative natures. [...] Birth,
old age, sickness, and death are distasteful not just because they are
painful but also because they are humiliating." (Mark Epstein, Thoughts
without a Thinker, p.48).
[15] Kullavagga.
[16] Numa linguagem mais técnica
falar se ia nas "três marcas de tudo o que existe" (Trilakshana).
[17] Dhamapada 49 (Les Fleurs
de Bouddha. Anthologie du bouddhisme, Paris, Albin Michel, 1991, p.64)
[18] A tese da inexistência
do ego deve ser entendida, a nosso ver, como o reconhecimento do absurdo
de transformar a experiência que nos percorre numa dimensão
que nos pertence e que podemos possuir. Sugeriria, assim, a tese segundo
a qual o Buda visaria, com a sua noção de anatman, denunciar
o sentimento de posse como uma ilusão geradora de sofrimento. Cf.
Vinaya pitaka [iv, 24 28]; citado por André Bareau, Buda, pp.107
109.
[19] "Être sans ego est impossible!
Il s'agit seulement de laisser l'ego à sa place, de ne pas y être
attaché.
[...] L'expression utilisée
habituellement, «être sans ego», signifie en realité
«ne pas être attaché à l'ego» car sa realité
est sans substance fixe. Ce qui reste nécessaire, c'est la perception
de l'ego dans le sens «je suis moi» et vous êtes «vous».
Être au delà de l'ego ne signifie pas être dans un état
fusionnel, de dissolution dasn le quel on ne fait plus la différence
entre soi et les autres, sinon on devient fou." (Roland Rech, Moine Zen
en Occident. Entretiens avec Romana et Bruno Solt, Paris, Albin Michel,
1994, p.107).
[20] Segundo o mestre chinês
Nan Huai chin, o sentido do «despertar» do Buda deve ser entendido
como a realização em si de que toda a existência condicionada
e dependente é vazia em si própria. "Le Bouddha a été
éveillé au fait que la production dépendante est fondamentalement
vide." (Nan Huai chin, L'expérience de l'éveil, trad.franc.,
Paris, Seuil, 1998, p.18).
[21] Dhammapada 1 (Les Fleurs de
Bouddha. Anthologie du bouddhisme, p.56).
[22] Alexandra David Néel,
Le Bouddhisme du Bouddha. Ses doctrines, ses méthodes et ses dévelopements
mahayanistes et tantriques au Tibet, Paris, Editions du Rocher, 19892.
[23] O texto citado foi recolhido
da primeira edição (1977) da obra de Alexandra David Néel
nas edições Rocher, traduzido em português com o título:
O Budismo do Buda, São Paulo, Edições Ibrasa, 1985,
pp.53 54.
[24] Sem a crença num estado
positivo de Nirvana dificilmente se poderia apresentar o Budismo como uma
doutrina da libertação, da mesma forma que não se
compreenderia a crítica ao apego em relação à
existência condicionada. "Existe um não nascido, não
feito, não formado, não composto, e se não existisse,
não haveria evasão possível do que é nascido,
feito, formado e composto." (Itivuttaka II 6). Um dos aspectos mais interessantes
da especulação filosófica budista consiste na mostração
de como irrompe em nós a dependência condicionada (Pratitya
samutpada).
[25] Les Fleurs de Bouddha. Anthologie
du bouddhisme, Paris, Albin Michel, 1991, p.52.
[26] "das Nirwanaprinzip" (Freud,
Jenseits, Standard Edition, Ed. de J.Strachey, The Hogarth Press/Institute
of Psycho-Analysis, Londres, XVIII 55).
[27] Dogen, Genjokoan [O Caminho
comum] (1233).
Carlos João
Correia
Professor Associado do Departamento de Filosofia
Faculdade de Letras
Universidade de Lisboa
carlos.joao@netcabo.pt

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Contatando as grandes mentes
universais...
O objetivo desta vivência
gravada em Cd é abrir
certos canais de percepção
que permitirão a você
fazer uma ligação
direta com as grandes mentes cósmicas.
Clicke na sacerdotisa para saber
mais.
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