O Paraiso Perdido
| A idéia de existência
de um paraíso, de onde um dia a raça humana foi expulsa é
um arquétipo compartilhado praticamente por todos os povos da terra.
Em todas as tradições dos povos antigos remanescem memórias
desse lugar fantástico, onde o mal não existia, e a dor e
o sofrimento eram experiências desconhecidas do ser humano.
Porém, o livro que tornou
esse mito um best-seller entre as memórias arquetípicas da
humanidade foi a Bíblia hebraica. Esse portentoso livro, que segundo
a crença judaico-cristã, foi ditada pelo próprio Deus
aos seus sacerdotes e profetas, ou que segundo os historiadores céticos,
é uma compilação muito bem organizada de lendas e
narrativas antigas, feita por uma ou duas gerações de rabinos
judeus,é o primeiro livro a dar uma descrição pormenorizada
desse lugar de delícias, onde Deus colocou a sua criatura mais bem
elaborada para viver uma vida de eternos prazeres.
Literalmente, o Eden seria um lugar
existente na terra mesmo, e bem real. Seria um jardim plantado lá
pelas bandas do Oriente, talvez próximo da foz do rio Eufrates,
segundo indicações da própria Bíblia, que diz
que dele saia uma fonte que dava origem a quatro rios, sendo dois deles
os nossos conhecidos Tigre e Eufrates, rios que banham a antiga terra chamada
Mesopotâmea (hoje Iraque) e deságuam no Golfo Pérsico.
Alguns arqueólogos até pretendem ter desenterrado o Éden
nas escavações do sitio chamado Gobekli Tepe. A tese dos
arqueólogos que desenterraram Goblekli Tepe é a de que a
famosa expulsão do paraíso, narrada na Bíblia, foi
talvez a destruição desse local, ocorrida em razão
do Dilúvio, outra memória que também é conservada
pela maioria dos povos da terra e também convenientemente adaptada
e narrada na Bíblia judaica com fins claramente político-ideológicos.
De qualquer modo, a expulsão
do casal humano do paraíso é um dos temas que mais aparecem
nas narrativas religiosas e mitológicas da humanidade. Da Babilônia
ao Império Asteca, todos os povos lembram que um dia o homem teve
um contato direto com Deus e suas criaturas celestes, e que esse contato
foi cortado violentamente em razão de uma “trairagem” cometida pelo
homem, iludido que foi pelo arquiinimigo de Deus, o antigo arcanjo Satan,
que brigou com Ele e se tornou seu grande opositor.
A história dessa guerra celeste,
que opôs Deus e seus anjos contra as hostes reunidas por Satan, ou
Satanás, não foi contada com pormenores na Bíblia.
Ela apenas faz algumas parcas referências a esse conflito, dizendo
que ele ocorreu e separou a população angélica em
duas facções distintas, que se tornaram, de um lado, anjos
do bem e do outro lado, anjos do mal.
Anjos e demônios passaram
a ser os dois poderes disputantes das estruturas universais, com tudo que
elas encerram. Quem desenvolveu esse tema com riquezas de detalhes e uma
interpretação muito bem bolada do assunto foram os mestres
que desenvolveram a grande tradição da Cabala. É nesta
antiga tradição que encontramos os reais significados das
narrações bíblicas e topamos com a verdadeira história
dessa guerra travadas nos céus entre as hostes angélicas
e seus oponentes demoníacos, pela posse da alma do homem e do próprio
universo enquanto obra de criação. É uma verdadeira
epopéia, semelhante á Iliada e a Odisséia, dos gregos,
ou a Mahabharata, a grande saga dos heróis arianos, que narra a
guerra dos clãs pelo controle do país dos brâmames.
Nesse conflito repousa a estrutura
universal, oscilante entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, entre
a matéria e o espírito. Talvez a mais antiga (e perfeita)
concepção dessa dialética seja aquela pensada por
Zoroastro (ou Zaratustra, o grande sábio persa) há cerca
de quatro mil anos atrás quando intuiu que o mundo era um resultado
do embate entre o deus da luz (Ormuz) e o deus das trevas (Arimã).
Nessa concepção se inspiraram todas as demais, de forma que,
ao que parece, foi Zaratustra quem inventou (ou descobriu) a briga entre
Deus e Satã pelo controle do mundo, e de quebra inventou o paraíso.
(Não por acaso no Golfo Pérsico).
Cá entre nós, uma
das mais belas narrativas a respeito desse tema foi feita pelo poeta inglês
John Milton, em 1677. No seu longo poema, escrito á moda clássica,
ele narra o confronto entre Deus e Satanás, no qual um terço
dos anjos são expulsos do céu e trancafiados, como prisioneiros,
em um campo de concentração, que nesse caso, é o inferno.
Ali, liderados por Satã, secundado pelo seu lugar-tenente Lúcifer,
os danados tramam sua vingança. Como não poderiam atacar
diretamente o céu devido ao poder de Deus e do seu Filho (O Cristo)
e das Hostes Celestiais, comandadas pelo arcanjo Miguel, os anjos caídos
apelam para outra estratégia.
Assim, ao invés de enfrentar
abertamente as forças celestes, eles resolvem desencaminhar a criação
humana, o “xodó” do Criador, feita à sua imagem e semelhança.
“Se não podemos vencê-lo," deve ter pensado Satanás,
“vamos pelo menos aborrecê-lo”, Assim, o chefe dos demônios
empreende uma longa viagem do inferno à terra e se apresenta a Eva,
na forma de uma serpente e a seduz, induzindo-a a comer o fruto da árvore
do conhecimento do bem e do mal. Eva cai na lábia do demônio
travestido de réptil, come o fruto e depois leva seu marido Adão
a comê-lo também, completando assim o ato de desobediência
para com o seu Criador, que os havia proibido de comer do fruto daquela
árvore.
Deus se vinga dos pérfidos
desencaminhadores transformando-os em asquerosos répteis durante
mil anos. Nascem desse ato os lagartos, os dragões, as salamandras,
os sáurios, os crocodilos e jacarés, os calangos e toda classe
de animais que se arrastam pela terra sobre seus próprios ventres.
E quanto ao homem, tolo desencaminhado, embora sem maldade, cabe-lhe a
culpa "in vigilando" por não ter vigiado eficazmente a sua mulher
e por ter caído em sua lábia. Expulso desse lugar de delícias
que era o Eden, terá que trabalhar arduamente para ganhar a vida;
e quanto á mulher, terá que suportar as dores do parto para
ter seus filhos.
Quem quiser entender o Paraíso Perdido de Milton terá que fazer uma pequena incursão pela história da Inglaterra na época em que essa monumental obra literária foi escrita. Estávamos em fins do século
XVII (1677), época mais intensa dos conflitos dinásticos
e religiosos que mudaram a face da civilização ocidental.
A Inglaterra estava vivendo o rescaldo da guerra entre a realeza e o Parlamento,
conflito esse que acabou custando a vida do rei Carlos I, decapitado por
ordem do Parlamento, chefiado pelo pastor conservador-fundamentalista Olivério
Crommwel.
A Inglaterra teria, nesse episódio, um breve período de experiência republicana, mas a tradição da monarquia é um arquétipo tão entranhado na psique do povo inglês, que a simples eliminação do monarca não aplacou o conflito e ele logo voltaria a sacudir a nação inglesa. Em conseqüência, a monarquia também logo seria reconstituída. Esse foi o pano de fundo para a
magistral adaptação que John Milton fez do mito bíblico
para figurar um momento da história que estava sendo vivido pelo
mundo ocidental justamente naquela época. Milton era católico
e apoiava a revolução puritana. Chegou mesmo a trabalhar
no ministério de Crommwel.
A Europa toda vivia um momento de intensa ebulição espiritual, com as doutrinas reformistas que ganhavam terreno em todas as classes sociais.Com as guerras religiosas começou o êxodo dos puritanos (os protestantes mais ferrenhos) para a América, que era pintada na mídia da época como sendo a nova terra da promessa. Uma surda guerra intelectual era
traçada nos meios de comunicação pela posse da alma
humana. De um lado os portadores da promessa de um novo mundo para aqueles
que se convertessem às novas idéias propostas pelos reformistas
(e pelos iluministas que já nessa época iniciavam a divulgação
dos seus postulados) e de outro os partidários da antiga ordem (o
catolicismo e o anglicismo reformado), que contra atacavam com a Inquisição
e as ameaças de uma eterna condenação para aqueles
que se afastassem da verdadeira fé. Era, portanto, um mundo de conflito,
tanto na política quanto na religião.
Por outro lado, o fim do século
XVII é a época em que mais intensamente as chamadas doutrinas
ocultas seduziram o espírito dos intelectuais. É dessa época
o fenômeno Rosa-Cruz, genial farsa intelectual perpetrada por filósofos
ocultistas (na maioria alquimistas) para dar ao mundo a ilusão de
que eles eram os depositários de um segredo capaz de levar a humanidade
de novo ao paraíso perdido. É desse tempo a maioria das obras
literárias que versam sobre a utopia política, social ou
meramente filosófica. É nesse tempo, finalmente, que nascem
as associações, como a Real Sociedade, antecessora da maçonaria,
cujo objetivo era a realização (espiritual e física)
desse sonho do homem, que era a volta ao paraíso.
Na obra de Milton há tudo isso. Desde a exaltação, pura e simples, da concepção católica do pecado original (a idéia de que o homem já nasce pecador em função do pecado de seus pais originais Adão e Eva e por isso precisa praticar na obra de expiação para poder ser salvo), até a idéia central do Cristianismo, que é a salvação da humanidade através do sacrifício de Jesus Cristo. Mas há também uma
curiosa concessão às teses heréticas, muito a gosto
dos opositores da Igreja na época, para quem a rebelião de
Satanás (ou Lúcifer, segundo a Cabala, já que nessa
tradição ambos são uma mesma entidade), representa
um grito de liberdade de um grupo oprimido contra um Senhor cruel e opressor.
Pois era assim que algumas seitas, consideradas heréticas, viam
o Deus bíblico. E nessa concepção, Jesus também
era um líder que lutou contra essa opressão. Por isso o verdadeiro
Cristianismo passava ao largo tanto do catolicismo quanto do protestantismo.
Dessas concepções nasceram doutrinas originais como as dos
mórmons, dos amishs, das igrejas reformistas que se afastaram do
protestantismo histórico. Para eles, tanto a Igreja Católica
quanto os reformistas protestantes nada mais faziam do que defender uma
doutrina que havia contribuído para escravizar o corpo e o espírito
dos homens.
Dessa forma, os anjos caídos
não eram, na verdade, demônios, mas arautos da liberdade.
Nesse sentido, a rebelião dos anjos não passa por ser um
pecado contra a ordem de Deus, mas sim um evento glorioso. E a queda do
homem não é uma desgraça, mas sim uma oportunidade
dele se exaltar. Essa idéia, Milton exprime num dos mais inspirados
versos do seu grande poema, quando o Arcanjo Gabriel, no momento da expulsão,
diz a Adão: “Ajunta ao teu conhecimento ações louváveis,
ajunta a fé, a virtude e a paciência, a temperança,
ajunta o amor, chamado no futuro caridade, alma de tudo o mais; então
não te lastimarás de deixar este Paraíso, pois que
possuirás em ti mesmo um paraíso muito mais feliz.” E ele
termina o poema, não com a tristeza de um casal desterrado e privado
da sua felicidade, mas com a romântica imagem de um par que tem o
mundo todo à sua frente para encontrar a Seu Porvir : “ O mundo
todo estava diante deles, para escolherem, lá,um lugar para o seu
descanso. A Providência era o seu guia.De mãos dadas, com
passos incertos e lentos, tomaram, através do Éden, o seu
caminho solitário.”
E foi assim que a história
do homem livre começou...
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